OGM | Relatório conclui que milho transgénico não causa efeitos adversos

Para além de concluir que a produção de milho Bt (geneticamente modificado para resistir ao ataque da lagarta) não revelou qualquer efeito adverso, o relatório afirma também que a sua utilização diminuiu significativamente a necessidade de usar inseticidas e aumentou a produção. O documento inclui também uma revisão exaustiva sobre segurança alimentar e ambiental.

Para a elaboração do relatório “Resultados de dez anos de monitorização ambiental pós-comercialização de milho geneticamente modificado MON 810 na União Europeia”, publicado na revista PLOS ONE, foram recolhidos dados junto de 2.627 agricultores de Portugal, Espanha, França, Alemanha, Eslováquia, Roménia e República Checa.

O documento, que analisa exaustivamente os efeitos ambientais do cultivo de milho transgénico MON 810 durante um período de dez anos, inclui os resultados obtidos com a realização de questionários a agricultores que produziram esta variedade entre 2006 e 2015, bem como um levantamento completo de estudos científicos sobre o assunto.

Com este relatório, os autores pretendiam aferir se são corretas as premissas na avaliação dos riscos ambientais sobre o aparecimento e impacto de possíveis efeitos adversos do cultivo do milho Bt e identificar qualquer efeito negativo da sua utilização na saúde humana, animal ou ambiental que não havia sido previamente previsto.

Estes resultados estão em concordância com a avaliação da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), que em resposta ao pedido de renovação desta variedade de milho em 2007: “… MON 810 é tão seguro como a variedade convencional quanto aos possíveis efeitos na saúde humana e animal. O Painel da EFSA sobre Organismos Geneticamente Modificados também conclui que é improvável que o milho MON 810 tenha algum efeito adverso sobre o meio ambiente no contexto dos usos previstos …”

Os resultados do estudo publicado na PLOS ONE são também consistentes com o histórico de 17 anos (2003-2019) de utilização segura do MON 810 na União Europeia.

Leia o estudo completo aqui.  

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Webinar | Farmers Scientists Network discute estratégias “Do Prado ao Prato” e “Biodiversidade”

A FSN-Farmers Scientists Network vai realizar um debate em direto sobre as estratégias da Comissão Europeia “Do Prado ao Prato” e “Biodiversidade 2030”, que contará com a intervenção de investigadores e agricultores. O evento terá lugar no dia 3 de julho, entre as 10H00 e as 11H45. A inscrição prévia é obrigatória.

No Webinar promovido pela FSN-Farmers Scientists Network, investigadores e agricultores vão falar dos desafios que se impõem a toda a produção agrícola europeia depois de a Comissão Europeia ter apresentado, recentemente, as estratégias “Do Prado ao Prato” (F2F) e “Biodiversidade 2030”. Para além de soluções que ajudam os agricultores a cumprirem as metas definidas em ambas as estratégias, e tendo em conta o impacto da Covid-19 em todo o sistema alimentar, os participantes irão discutir o potencial da edição do genoma para fortalecer a segurança alimentar e tornar as culturas locais mais resilientes.

Registe-se até 2 de julho e veja o programa aqui.

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Inovação | Portugal alcança grupo dos “fortemente inovadores”

Portugal  integra o grupo dos países “fortemente inovadores”, sendo agora o 13º país mais inovador da União Europeia, de acordo com a edição de 2020 do European Innovation Scoreboard. É a melhor posição de Portugal  de sempre neste ranking e reflete o aumento da capacidade de inovação das empresas, das entidades de Investigação&Desenvolvimento (I&D) e da generalidade dos atores do Sistema Nacional de Inovação.

A Comissão Europeia divulgou hoje o Painel Europeu da Inovação 2020, que mostra que o desempenho da inovação continua a melhorar em todos os países da União Europeia, superando os Estados Unidos pelo segundo ano consecutivo. No entanto, lê-se no relatório, é preciso fazer mais para alcançar os líderes globais de inovação como Coreia do Sul, a Austrália e o Japão.

Os resultados, que abrangem dados de 2019, destacam as oportunidades para melhor coordenar as políticas de inovação da UE, podem ajudar a Europa a melhorar sua competitividade global e fortalecem o papel fundamental da inovação na superação da pandemia de coronavírus.

A Suécia continua a liderar a inovação na UE, seguida pela Finlândia, Dinamarca e Holanda. Este ano, o Luxemburgo (antes “fortemente inovador”) junta-se aos líderes da inovação, enquanto Portugal (anteriormente um inovador moderado”) alcança o grupo dos “fortemente inovadores”.

Leia o relatório integral aqui.

Entrevista | Investigadores portugueses tentam “criar” arroz com vitaminas do complexo B

Professora Margarida Oliveira, investigadora no ITQB NOVA. Edição e imagem: Joaquim Miranda/CiB

No laboratório de Genómica de Plantas em Stress, no ITQB NOVA, em Oeiras, a Professora Margarida Oliveira e a sua equipa estudam estratégias de adaptação que permitem a algumas plantas sobreviver a stresses ambientais como o sal, a seca e a temperatura. O arroz é o foco principal, mas tem muito trabalho feito noutras plantas como a amendoeira e o sobreiro. E é graças ao trabalho de Doutoramento da sua primeira estudante (Célia Miguel) que o primeiro Protocolo de Transformação Genética da Amendoeira é português.

Entrevista: Margarida Paredes /CiB

Fotografia e vídeo:  Joaquim Miranda

Na investigação que desenvolve, qual é a componente mais virada para a biotecnologia?

O meu trabalho [no laboratório GPlantS – Genómica de Plantas em Stress] é muito virado para a investigação fundamental, porque os projetos inovadores para desenvolvimento de conhecimento obtêm mais facilmente financiamento da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) do que os projetos para aplicação.  

Mas já desenvolveu trabalho em arroz que foi aplicado no campo…

Sim, o nosso trabalho em arroz começou por ser investigação aplicada, em finais de 1999, para atender ao problema da anemia em Moçambique, em especial na população feminina. No âmbito de uma parceria tripartida entre Portugal, Moçambique e Filipinas, onde se localiza o IRRI – Instituto Internacional de Investigação do Arroz, tentámos melhorar os teores de ferro no endosperma do grão, expressando a proteína ferritina através de técnicas de engenharia genética. Este trabalho foi desenvolvido por outra estudante de Doutoramento (a Marta Vasconcelos) e publicado na Plant Science, merecendo-lhe um prémio internacional do CGIAR que a Marta foi receber ao México. Continuámos a investigação em arroz, mas desta vez focando-nos em problemas de interesse para Portugal. De facto, analisando a situação do arroz no nosso País a interrupção do Programa Nacional de Melhoramento de Arroz (nos anos 70, 80) levou a que a produção do sector só se tenha conseguido manter pela atividade de empresas importadoras de semente (sobretudo de Itália).

Créditos: Joaquim Miranda/CiB

Porque escolheu o arroz como foco principal de investigação?

Na verdade foi por influência de um amigo da India (Swapan Datta), na altura a trabalhar no IRRI, mas que já tinha estado vários anos a trabalhar no melhoramento de arroz no laboratório de Ingo Potrykus, o líder do projeto de desenvolvimento do “Golden Rice” [arroz dourado, enriquecido em pró-vitamina A]. Foi ele que me alertou para a parceria que havia entre Portugal, Moçambique e o IRRI para o Melhoramento do Arroz em Moçambique. Este trabalho em arroz alertou-me para o valor desta planta como modelo de estudo, não só por ter o genoma mais pequeno entre os principais cereais, mas também por ser a cultura que alimenta mais pessoas no mundo inteiro.

Percebo a importância de Moçambique ter variedades de arroz ricas em ferro. No caso de Portugal, para quê desenvolver arroz geneticamente modificado?

Há 20 anos atrás, a motivação para trabalhar em arroz para Portugal foi tentar contribuir para retomar e inovar o programa de melhoramento, olhando para variedades nacionais que os agricultores portugueses não comercializavam, mas que produziam para consumo próprio. Estas eram bem mais saborosas que as variedades italianas, embora com características agronómicas menos desejáveis (palha alta, baixa produtividade e maior sensibilidade às doenças).

Começámos com as variedades portuguesas Estrela A e Allorio, consideradas as mais saborosas pelos agricultores. Utilizando marcadores moleculares  e variedades dadoras que obtivemos do IRRI, fizemos melhoramento dirigido para aumentar a produtividade e a resistência à piriculariose, uma das doenças mais danosas para a cultura do arroz (causada pelo fungo Magnaporthe oryzae). Com a colaboração do colega Arlindo Lima (do ISA), conseguimos focar o trabalho nas estirpes mais virulentas deste fungo existentes em Portugal. As plantas melhoradas que obtivemos (por cruzamentos direccionados e seleção assistida por marcadores moleculares) foram testadas no Centro de Orizicultura [atual COTArroz] e no Mondego (Direção Regional de Agricultura, com o Eng. Serafim Andrade). Em paralelo começámos a olhar para outras situações problemáticas para o arroz, nomeadamente os stresses ambientais.

Quais?

Por exemplo, a salinidade, não só em regiões costeiras (oeste e sul) e margens de rios, mas também em alguns solos agrícolas. Embora, por exemplo, no Mondego a salinidade esteja bastante controlada pela irrigação, as alterações climáticas tendem a agravar o problema. No Sado, os maiores problemas de salinidade relacionam-se diretamente com a falta de água, com o facto de a seca a limitar muito a capacidade de diluição do sal. Em alguns solos no Tejo e no Sorraia também existem muitos problemas de salinidade, sobretudo pela qualidade dos solos e práticas agrícolas. As alterações climáticas – o aumento da temperatura e a redução da disponibilidade de água – certamente irão agravar o problema da salinidade. 

Que outros stresses ambientais afetam a produção de arroz em Portugal?

A temperatura, sobretudo o frio nas zonas mais a norte de produção. Embora não seja tão grave quanto a salinidade, o frio impede a cultura do arroz a norte do Mondego. Contudo, pelo interesse do arroz a nível mundial, temos vindo a estudar mecanismos de adaptação a vários stresses (défice hídrico, salinidade, temperatura sub-óptima, submersão) a fim de identificar estratégias e desenvolver ferramentas, que possam melhorar a produtividade em situações de stress ambiental, por exemplo recorrendo a técnicas de melhoramento dirigido (via seleção assistida por marcadores moleculares, engenharia genética ou edição de genomas).

Como é que a biotecnologia, neste caso a engenharia genética e a edição de genomas, pode ajudar a resolver esses problemas?

A engenharia genética é sem dúvida uma ferramenta poderosa para o melhorador, mas, na Europa, ainda é pouco compreendida e mal-aceite no mercado, o que limita o seu uso para conseguir introduzir melhorias. A edição do genoma ainda está em discussão, embora, na minha opinião, não faça sentido discutir uma técnica em vez de discutir o resultado final. Posso dizer-lhe que dos nossos estudos de resposta a stress ambiental, neste momento, já temos plantas com genes modificados por edição de genoma, em que não há qualquer alteração adicional além da mutação específica desejada (que poderia ter ocorrido espontaneamente ou por uma qualquer via). Isto significa que é impossível identificar nestas plantas qual a metodologia utilizada no melhoramento.

Créditos: Joaquim Miranda /CiB

Como assim?

A modificação genética final também podia ter ocorrido espontaneamente ou sido conseguida por mutagénese química ou por radiação (metodologias não sujeitas a legislação). Ou seja, certos métodos de edição genética não têm qualquer cicatriz que permita identificar o método de obtenção. Na minha opinião, querer legislar um produto final de origem vegetal com base na estratégia usada para o obter, não só não é inteligente, como é uma gestão danosa de recursos públicos que poderiam ser muito melhor utilizados para avaliar a qualidade do produto final.

Claro que não aplico esta filosofia a tudo. Quando o método de obtenção de um produto não respeita os direitos dos seres humanos ou dos animais, ou não acautela a sustentabilidade da natureza ou ambiental, a metodologia tem necessariamente de ser considerada.

E com a utilização da edição genética na planta do arroz o que pretende alcançar?

Um dos nossos interesses é tentar perceber quais são as funções de diferentes alelos [variações específicas do gene, que determinam como é que uma determinada característica irá expressar-se] no comportamento da planta, sobretudo em resposta a stress ambiental. Havendo uma planta que apresenta uma característica melhor, em se identificando um alelo responsável por essa melhoria (eventualmente afetando um gene regulador de uma via metabólica), podemos usar uma variedade já aceite no mercado e, através da edição de genomas, introduzir adicionalmente apenas a pequena alteração que a pode dotar da vantagem acrescida (obviamente a comprovar por ensaios laboratoriais e de campo). Para estes estudos, o facto de haver já três mil variedades de arroz com o genoma sequenciado é uma vantagem adicional muito útil na nossa investigação. Temos atualmente várias linhas de estudo para caracterizar genes reguladores de vários comportamentos da planta e procuramos identificar pequenas mudanças nesses genes que causem efeitos benéficos (em termos de crescimento, produtividade, qualidade…).

A que resultados chegou nestes 20 anos de trabalho com arroz geneticamente modificado?

Na investigação fundamental, ou seja, no que respeita à produção de conhecimento, obtivemos muitos resultados. Por exemplo, e só para elencar alguns: desenvolvemos plantas de arroz resistentes à piriculariose, com palha mais baixa e maior capacidade de produção (as que resultaram do nosso trabalho inicial em arroz e que depois foram transferidas para o Programa Nacional de Melhoramento, para recuperar as qualidades organolépticas perdidas); identificámos vários mecanismos de resposta à salinidade e compreendemos agora melhor a razão de algumas variedades serem capazes de lidar melhor com o sal do que outras; e, por fim, desenvolvemos a ferramenta de edição de genoma que já está a funcionar muito bem em arroz. Chamo no entanto a atenção para o facto de que a modificação genética em causa só ocasionalmente se enquadra na categoria de “engenharia genética”. As plantas que cedemos ao programa foram obtidas por melhoramento convencional assistido por marcadores moleculares.

O laboratório trabalha em colaboração com o COTArroz, apoiando o Programa Nacional de Melhoramento Genético do Arroz. Na prática, este programa permite o quê?    

O Programa agora é liderado pela Dra. Ana Sofia Almeida (INIAV) em estrita colaboração com o COTArroz (Eng. Paula Marques). Já não fazemos seleção assistida por marcadores moleculares pois não temos financiamento específico para tal. Assim, atualmente, os cruzamentos são feitos no COTArroz e a seleção é feita só com avaliação fenotípica nos vários ambientes da cultura, do Mondego ao Sado, com intervenção de diversas entidades (COTArroz, DRAP Centro, e diversas associações de produtores).

Tendo em conta o posicionamento da União Europeia relativamente à autorização de novas variedades geneticamente modificadas, que expectativas tem relativamente ao trabalho que desenvolve em arroz? Acredita que chegará ao mercado?

Temos em curso diversos tipos de trabalho em arroz cujos resultados poderão chegar ao mercado, mais tarde ou mais cedo. Um deles é um pouco na linha do que foi feito com o arroz dourado. O arroz dourado incorpora genes novos de biossíntese do betacaroteno, uma fonte de Vitamina A, que lhe permitem produzir e acumular esta pró-vitamina ao nível do endosperma (mesmo após o polimento do grão). No caso do “nosso” arroz, estamos a estudar as vias biossintéticas da produção das vitaminas B1 e B2, porque no arroz ainda não estão claramente identificadas. Usamos informações de outros organismos, para reconstruir as vias biossintéticas destas vitaminas no arroz. O que sabemos é que o arroz branco (polido) tem muito pouca vitamina B1, B2 e B12.

Créditos: Joaquim Miranda

Há necessidade de o arroz ter esse aporte de vitaminas do complexo B?

Em Portugal não é particularmente relevante, pois a alimentação é diversificada, mas em países em desenvolvimento com alimentação fortemente dependente de arroz, as pessoas carecem destas vitaminas. Repare, também fazemos investigação em arroz para perceber a capacidade de resistência à submersão – uma situação que em Portugal não é crítica, mas que é problemática em alguns países asiáticos.

Portanto, estamos a tentar caracterizar as vias biossintéticas das vitaminas B1 e B2 e depois tentaremos enriquecer o arroz com essas vitaminas, não tanto para obter o produto final, mas sim como prova-de-conceito. 

Não tem receio que o “seu” arroz enriquecido com vitamina B1 e B2 fique 20 anos na gaveta, como aconteceu com o arroz dourado?

Se conseguirmos atingir o nosso objetivo, tenho a certeza que a solução será rapidamente pegada por países como a China. Contudo, quanto à aceitação da modificação genética na União Europeia (UE), ainda tenho esperança que os responsáveis e a sociedade em geral entendam que perdermos a capacidade de produzir plantas melhoradas não é opção. Para podermos inovar e progredir sem ser à sombra e na dependência dos países que usam a tecnologia avançada que já temos à disposição, a UE tem de também poder usar as mesmas ferramentas. Se a UE mantiver a política que tem seguido relativamente à aplicação da engenharia genética e da edição de genomas na agricultura, continuaremos a comprar aos outros aquilo que não estamos autorizados a produzir nós próprios. Agora, se a UE quiser acompanhar o mundo, deverá mudar a sua posição. A minha expectativa é que perceba que é completamente anticientífico rejeitar técnicas como a edição de genoma. Algumas destas técnicas são mesmo indetetáveis, não deixam marcas. Como é que se pode legislar algo que não se pode identificar? Por outro lado, a edição de genoma oferece elevado grau de precisão, a um nível nunca antes conseguido. A rejeição desta técnica pode ter muitas motivações, mas a apregoada segurança do consumidor está longe de ser a verdadeira ou de ter fundamentação científica.

Créditos: Joaquim Miranda /CiB

O arroz GM tem sido usado como modelo para dar resposta a questões relacionadas com os possíveis efeitos da engenharia genética. Há razões para preocupação?

Não, não há. Em parceria com o Instituto Ricardo Jorge (INSARJ), contribuímos para esclarecer sobre a potencial maior alergenicidade dos produtos geneticamente modificados. Foram feitos muitos estudos em arroz, soja e milho, envolvendo equipas multidisciplinares coordenadas pela Dra Rita Batista (INSARJ), e os resultados foram muito conclusivos:  o processo de engenharia genética que originou os produtos geneticamente modificados que estão comercializados não causou qualquer diferença em termos de alergenicidade. Claro que se introduzíssemos um alergéneo por engenharia genética, a planta modificada causaria alergia, mas não é isso que se faz! A engenharia genética é uma tecnologia muito direcionada e essas variáveis são monitorizadas.

O que pensa da morosidade no processo que envolve as variedades GM? Justifica-se?

Não, não se justifica, mas acontece por questões políticas e económicas. Invocam-se argumentos pseudocientíficos, como o princípio de precaução, para defender interesses económicos. Por vezes, impedir a entrada de determinados produtos GM na UE, significa garantir o mercado da produção nacional/europeia, embora a preços eventualmente mais elevados para o consumidor. Se a Europa continuar a rejeitar este tipo de estratégias, fica impossibilitada de acompanhar os avanços que se estão a fazer no resto do mundo neste domínio e de conseguir lançar para o mercado variedades melhoradas recorrendo a estas tecnologias. Isso significa que perdemos competitividade e que mais tarde ou mais cedo teremos que comprar ao estrangeiro produtos que agora não podemos desenvolver cá. Do ponto de vista estratégico e de segurança alimentar não é muito inteligente, já que existem soluções que permitem desenvolver produtos mais eficazes, mais seguros e mais amigos do ambiente.

Com a edição do genoma, vale a pena continuar a investir na engenharia genética?

A edição de genomas também permite introduzir fragmentos de DNA de outros organismos ou de algum modo modificados, sendo, nesse aspeto, semelhante à engenharia genética, em que se faz corte e costura e se insere um gene novo que pode ser formado por vários pedacinhos oriundos de diferentes proveniências. A diferença é que na edição de genomas, se quisermos introduzir um gene específico, podemos direccioná-lo para o local certo onde o queremos ter. Uma das estratégias que a edição de genomas utiliza, permite introduzir apenas mutações pontuais sem deixar cicatriz da entrada de qualquer DNA estranho. Mas nem sempre as modificações pontuais permitem obter uma solução para determinado problema. A ferramenta é poderosa, só que não permite resolver tudo, tal como a engenharia genética também não permite resolver tudo. Uma tecnologia não substitui a outra, pode substituir parcialmente, mas não totalmente.  É nosso dever usar todas as tecnologias ao nosso alcance, da melhor forma, para resolver os problemas que a humanidade enfrenta.

Além do arroz, também tem interesse na amendoeira, estando a desenvolver várias ferramentas biotecnológicas e moleculares pioneiras. Que ferramentas são essas e para que servem exatamente? 

Temos vindo a trabalhar em muitas culturas diferentes. Na amendoeira, foram muitos anos de investigação e de desenvolvimento de ferramentas biotecnológicas, desde metodologias para identificar a presença de infeções virais até estratégias para introduzir resistência às mesmas. Descobrimos, por exemplo, que um dos vírus da amendoeira – o vírus do nanismo das prunóideas (frutos com caroço duro) – é transportado dentro dos grãos de pólen. Uma vez que a amendoeira é auto-incompatível e tem que ser polinizada por abelhas, isso significa que as abelhas podem transportar grãos de pólen infetados contaminando rapidamente pomares limpos de amendoeira. Também desenvolvemos várias ferramentas para caracterização molecular da diversidade existente nas coleções do Algarve e de Trás-os-Montes. Neste momento já estão desatualizadas, como é evidente, mas esse trabalho permitiu-nos, por exemplo, identificar variedades que supostamente eram diferentes e, afinal, eram a mesma e outras que estavam classificadas como a mesma e eram diferentes, o que em termos de gestão de coleções é importante. Temos também ferramentas moleculares para identificar alelos de auto-incompatibilidade e de auto-fertilidade (estes existentes nas variedades auto-compatíveis), uma preciosa ajuda para prever as combinações de variedades a introduzir no campo para garantir produção de semente. Claro que só isso não basta, e é também importante garantir a sobreposição dos tempos de floração.

À sua equipa se deve também o primeiro protocolo de transformação genética da amendoeira. O primeiro no mundo, é verdade?

É verdade, foi uma estudante minha de doutoramento, a Célia Miguel, que desenvolveu o primeiro protocolo de regeneração de plantas de amendoeira geneticamente transformadas. Até então, não havia qualquer método publicado, embora houvesse um artigo de revisão de um investigador da Universidade de Davis, na Califórnia, que referia ter obtido transformação genética da amendoeira. Mas a realidade é que, se esse trabalho foi mesmo feito, nunca ninguém o encontrou. Com o tempo melhorámos o nosso protocolo e desenvolvemos também métodos de engenharia genética para introduzir resistência ao vírus do nanismo das prunóideas.

Fizemos também um estudo mais fundamental para perceber quais são os genes que estão envolvidos na capacidade das células de se desdiferenciarem [regredirem a um estádio de “juventude”] conseguindo desenvolver-se quase como se fossem células de um embrião. Essa capacidade é muito importante na engenharia genética e depende muito das variedades com que trabalhamos, o que tem implicações evidentes na escolha daquelas que podemos melhorar.

Na prática, qual é a importância desse trabalho?

É tentar utilizar esse conhecimento para melhorar o protocolo de transformação e regeneração da amendoeira. Se compararmos com as plantas modelo, o sucesso da regeneração de plantas transformadas de amendoeira é muito baixo, o que significa que se quisermos produzir 300 linhas de plantas transformadas (que não é muito) vamos precisar de trabalhar com milhares de pedacinhos de folhas (o material que transformamos e do qual regeneramos plantas completas). A eficiência do método de transformação pode ser crítica para se poder trabalhar com rapidez.

Créditos: Joaquim Miranda/CiB

Então, no campo ainda não há aplicação desse conhecimento?

Não, estamos muito longe desse passo. Não há autorizações para isso, nem a nível internacional.

Não sente frustração por ter alcançado conhecimento que pode ser aplicado e não é, por questões alheias à ciência?

Claro que sim, é justamente por essa razão que deixei de trabalhar em amendoeira. Mesmo sem usar engenharia genética tentei iniciar programas de melhoramento, quer com a Direção Regional de Agricultura do Algarve, quer depois com a Direção Regional de Agricultura de Trás-os-Montes, mas percebi que o interesse era muito relativo (além de que no norte a geada comprometia muitas vezes o sucesso dos cruzamentos controlados). Encontrei maior interesse no nosso trabalho por parte de investigadores e produtores da Austrália e da Califórnia. Por cá dava-se prioridade às variedades francesas. Acresce que aqui ao lado, na nossa vizinha Espanha, só em programas de melhoramento de amendoeira, havia três activos (em Tarragona, Murcia e Saragoça). A questão é esta, se a investigação aplicada que fazemos pelo nosso património genético não serve para os nossos (quem está no terreno a explorar as amendoeiras) e apenas vamos dar proveito a empresas, produtores e melhoradores estrangeiros que não pagam o nosso trabalho, então não vale a pena o nosso esforço. Por essa razão comecei a investir mais em arroz.

Tem ainda trabalho feito em sobreiro e purgueira. Nestes casos, também utilizou técnicas de engenharia genética?  

Na purgueira, aplicamos algumas técnicas de engenharia genética, mas apenas para validação funcional de genes envolvidos na fotossíntese. Uma vez que não havia um método eficaz de transformação genética da planta, utilizamos um método alternativo em que o agente de transformação era um vírus. Mas, reforço, apenas com o objetivo de análise funcional.

Pretendia produzir biodiesel a partir da purgueira. Não resultou?

De facto, a nossa ideia não era produzir biodiesel ou explorar os mecanismos da sua produção, mas sim explorar a conhecida capacidade da purgueira de aguentar a seca e investigar a base molecular do mecanismo de resistência. Fizemos uma parceria com uma empresa internacional estabelecida em Cabo Verde (onde iniciaram um Centro de Melhoramento), para obtermos semente de qualidade para os nossos estudos.  Sabíamos que apesar de estar espalhada por grande parte do hemisfério sul, a purgueira praticamente não apresenta diversidade genética, a não ser na América Central, zona de origem da espécie. Curiosamente, a responsabilidade dessa falta de diversidade é dos Portugueses, que na época das Descobertas levaram a purgueira para todos os lugares onde atracaram. Ou seja, as plantas introduzidas em África, Índia, Indonésia e outras zonas tropicais ou sub-tropicais têm praticamente todas o mesmo genótipo e apenas se encontra diversidade no México e América Central.

Mas como dizia, a purgueira pareceu-nos aliciante pela sua tolerância à secura, e uma vez que estávamos empenhados em estudar a resposta a este stress, pensámos que podia ser um bom modelo. Então, no âmbito de um projeto financiado pela FCT [Fundação para a Ciência e a Tecnologia], estudámos a purgueira, analisando a performance da planta em condições de stress e investigando a expressão de genes da raiz e da folha em condições controlo versus stress e em recuperação pós-stress. Verificámos que a planta tem uma capacidade extraordinária para lidar com a secura sem perder funcionalidades e arranjando mecanismos de protecção contra o excesso de luz solar e de aumento de temperatura que se verifica quando a planta não tem água para transpirar. Numa parceria com a Universidade de Hokkaido, no Japão, a nossa investigadora Helena Sapeta, encontrou indicações de que esta capacidade resulta de um acréscimo de pigmentos que protegem a maquinaria fotossintética da purgueira prevenindo a “queimadura solar”.

Relativamente ao sobreiro, em que consiste a investigação e qual é a finalidade?

Temos vindo a investir muito em sobreiro, quer incentivando a implementação de projetos nacionais (num programa financiado pela FCT há uns anos trás), para obter uma extensa coleção de genes expressos (em diversas condições de desenvolvimento, de stress, de diferentes tecidos, etc.), quer no apoio ao programa de sequenciação integral do genoma do sobreiro.

Em parceria com o Instituto Superior de Agronomia (equipa da colega Leonor Morais-Cecílio), também desenvolvemos estudos que nos permitem associar variações na qualidade da cortiça a variações epigenéticas (alterações na conformação do DNA, sem alteração na sequência das bases), potencialmente devidas a condições ambientais.   

Tem-nos interessado agora, particularmente, identificar as vias metabólicas da produção de suberina (o principal componente da cortiça) e sobretudo perceber como é que estas são afetadas pelo ambiente.

Créditos: Joaquim Miranda/CiB

MARGARIDA OLIVEIRA tem Doutoramento e Agregação em Biologia pela Universidade de Lisboa e é Professora Associada com Agregação na Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB NOVA). Lidera o grupo de investigação de Genómica Funcional de Plantas da unidade GPlantS – Genómica de Plantas em Stress, no ITQB NOVA, em Oeiras. Estuda o efeito de fatores ambientais na regulação da expressão génica e no desenvolvimento das plantas, combinando diferentes abordagens do nível morfo-fisiológico ao genómico.

Esta entrevista é um conteúdo CiB. Foi publicado em primeira mão na revista Vida Rural de junho (págs 6 a 17).

Ensino e Ciência | DGE responde a Carta Aberta do CiB

Slide transmitido numa aula de Ciências Naturais na tele escola

Como reação à Carta Aberta enviada a 14 de maio pelo CiB-Centro de Informação de Biotecnologia aos ministros da Educação e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior sobre uma aula de Ciências Naturais para os 7º e 8º anos, no âmbito do Programa Estudo em Casa, a Direção Geral da Educação (DGE) respondeu ao fim da tarde de ontem, dia 17 de junho, o seguinte:

Exmo. Senhor Pedro Fevereiro,

Em resposta à vossa missiva, que mereceu toda a nossa atenção, agradecemos os contributos e a partilha de pontos de vista que nos enriquecem bem como o processo educativo.

A situação reporta-se a tema abordado na aula de Ciências Naturais de 7.º e 8.º ano, no dia 13 de maio, em que se pretendeu salientar os potenciais impactos da exploração de Recursos Agropecuários, referindo-se à agricultura e pecuária a nível mundial/global e não especificamente à situação a nível da Europa ou mesmo de Portugal.

Acrescenta-se ainda que os recurso apresentados se basearam em diferentes manuais escolares, de diferentes editoras, validados cientificamente pelas comissões científicas de diferentes instituições de ensino superior.

Como é do conhecimento geral e a partir das fontes científicas consultadas, a utilização de OGM para consumo humano não é consensual.

Assim, durante a aula de Ciência Naturais de 7.º e 8.º ano, a exploração do tema já referido teve como objetivo salientar riscos/consequências/prejuízos que possam advir das situações discriminadas.

Salienta-se assim, que o objetivo da aula não está associado à defesa de uma outra posição, mas sim de dar ferramentas aos alunos para que possam de forma crítica consolidar a sua posição em relação a esta e outras matérias, em que existe diversidade de posições em fontes científicas.

Com os melhores cumprimentos,

Cristina Palma

Chefe de Equipa

Acompanhamento e Monitorização de Desenvolvimento Curricular (AMDC)

Direção-Geral da Educação

A resposta do CiB à DGE é a seguinte:

Exma senhora Drª,

Muito obrigado pela resposta relativa à Carta Aberta que escrevi ao Senhor Ministro da Educação

Embora compreenda as explicações que me enviou, não consigo conciliá-las nem com o que julgo ser uma adequada formação em Biologia e em Ciências Naturais, nem com os conhecimentos científicos que conheço e partilho com investigadores e professores nacionais e internacionais da minha área científica.

Sei que vários manuais se referem às questões em apreço da mesma forma como as mesmas foram apresentadas. Não só questiono desde há vários anos a qualidade científica dos conteúdos e da revisão feita a estes manuais (confesso que também já revi um deles e tive o cuidado de adequar a informação à realidade científica atual), mas também questiono a forma como esta (e outras) questão(ões) é (são) apresentada(s) aos alunos.

Do ponto de vista científico não existem (ao contrário do que me transmite) dados na literatura que comprovem qualquer risco para a saúde humana no consumo de variedades OGM aprovadas pelas entidades oficiais. Esta realidade é facilmente comprovada pela ausência de qualquer episódio de saúde pública ou animal, a nível mundial, derivado direta ou indiretamente do consumo de produtos alimentares derivados de variedades melhoradas com recurso a esta tecnologia. Na realidade qualquer avaliador de risco teria atualmente dificuldade em fazer um cálculo, já que todos os riscos referidos são potenciais, mas nunca verificados ou cientificamente suportados. O risco que existe é o da utilização propositada da tecnologia para produzir algo malévolo – mas isso não é diferente de todas as outras tecnologias existentes.

Por outro lado, é claro que a controvérsia existente não tem origem científica, mas sim sócio-económico-política e, portanto, não deve ser transportada para a formação de jovens como fatos científicos.

Do ponto de vista pedagógico convém referir que a formação em Ciências Naturais e em Biologia deve ser não só atualizada, mas também apresentada de uma forma não dogmática: não se pode simplesmente repetir dogmas e obrigar os alunos a responder de acordo com um dogma. Mesmo aos níveis mais básicos o que é fundamental é aprender a pensar (neste caso pensar Ciências Naturais) e não apenas “gravar” dados, para serem repetidos sem reflexão.

Neste caso particular, mesmo considerando a referência ao nível mundial (como me refere), é preciso discriminar entre diferentes regiões do mundo. Dar a noção de que a atividade agrícola, é, em geral, incompetente e que propositadamente prejudica o ambiente é, do meu ponto de vista (perdoe-me a franqueza), leviano. Em particular na atual pandemia é a manutenção da atividade agrícola que pode manter a segurança alimentar que é fundamental para a sobrevivências das sociedades humanas. O mesmo cuidado se deveria aplicar, por exemplo, às questões das relativas à gestão da biodiversidade, onde tipicamente se referem as desgraças, mas não todas as situações em que a atividade humana, incluindo a atividade agrícola, permite aumentar a biodiversidade e preservar a sustentabilidade dos sistemas.

Portanto quando me refere que se exploraram riscos/consequências/prejuízos, dever-se-ia, a meu ver, terem sido explorados, também, os benefícios e vantagens da atividade agrícola e da utilização das variedades melhoradas com recurso a tecnologias modernas.

Formar cidadãos não comunicando fatos científicos corretos e derivando dessa má comunicação conclusões dogmáticas, a que os alunos são obrigados a aderir (através dos processos de avaliação) não é, a meu ver, adequado. Sinceramente a sua resposta não me descansa, até porque tenho dois filhos adolescentes em formação.

Na expetativa de que possa transmitir esta minha opinião a outros responsáveis da DGE e do Ministério, e mantendo-me disponível para suportar a minha perspetiva de uma forma construtiva, e sublinhando a necessidade urgente de se rever o currículo e conteúdos da formação em Ciências da Natureza e Biologia,

Com os meus cumprimentos

Pedro Fevereiro

Presidente da Direção do Centro de Informação de Biotecnologia

Edição do genoma | Lista de produtos e projetos de investigação

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A edição do genoma é uma ferramenta tecnológica com potencial para solucionar problemas e responder a necessidades diversas nas áreas da agricultura, indústria e saúde. Não é de estranhar, por isso, que por todo o mundo os investigadores estejam a usar esta tecnologia para desenvolver múltiplos projetos e produtos biotecnológicos.

Existem mais de 200 produtos e projetos de investigação relacionados com edição do genoma e
outras novas tecnologias genómicas (NGT-New Genomics Technologies). Saiba
quais, nesta lista compilada pela EuropaBio, o maior grupo de indústrias de biotecnologia da Europa.

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Documentário|”La Senda del Azar”, história do olival intensivo

Estreia no dia 25 de junho o documentário “La Senda del Azar” (“O caminho da Sorte”) sobre o cultivo super-intensivo da oliveira. Uma história retratada por produtores em Portugal, Espanha, França, Itália, Chile e no Estado norte-americano da Califórnia, pioneiros daquela que é considerada a “maior revolução agrícola”. Os testemunhos foram recolhidos durante um ano e o resultado final pode imaginar-se neste trailler.

Vinte e cinco anos chegaram para alterar uma longa história com três mil anos, a história da oliveira e do modo como se produzia azeitona. Através de testemunhos reais, que dão a cara e a voz da sua experiência, produtores de vários países, entre os quais Portugal, Espanha, França, Itália, Chile e Estados Unidos contam como se tornaram pioneiros de um negócio sustentado no olival intensivo.

Para visionar o filme completo, registe-se em https://www.agromillora.com/evento/la-senda-del-azar/

Estreia mundial marcada para as:
18:00 h – Hora de Espanha
17:00 h – Hora Portugal
12:00 h – Hora do Chile

Veja ou trailer oficial e inscreva-se.

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Alterações climáticas | Mais insetos e aumento das perdas agrícolas

O percevejo marmoreado já se encontra na Europa. E uma das pragas que começa a ter proporções alarmantes em todo o mundo e para o qual não existe controlo eficaz. Imagem: © DR

Estudos recentes mostram que o aquecimento global pode aumentar o número de pragas de insetos e alterar os seus padrões de migração, o que pode representar uma ameaça ainda maior à produção agrícola global. Um tema para refletir neste Dia Mundial do Meio Ambiente.


Os insetos são e sempre foram um grande problema para os agricultores em todo o mundo. Se não forem controlados, podem dizimar colheitas inteiras, reduzir a produção e afetar a qualidade e segurança dos alimentos. Com as alterações climáticas, a situação tende a piorar. Segundo os resultados de investigações recentes, o aquecimento global pode aumentar o número de pragas de insetos e alterar os seus padrões de migração, que representa uma ameaça ainda maior à produção agrícola global.

A subida de apenas 2 graus na temperatura global pode provocar um aumento das perdas de produtividade de trigo (46%), de arroz (19%) e milho (31%) nas perdas de produtividade. Isto, no que se refere a perdas relacionadas com pragas de insetos.

Neste mapa elaborado pela CropLife international, saiba quais as regiões do mundo (cores quentes) em que as pragas podem tornar-se um desafio ainda maior por causa das alterações climáticas.  

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CRISPR | Investigadores estão a desenvolver alfaces resistentes ao calor

Na Califórnia, o calor é uma ameaça constante à produção de alfaces. E com o aumento da temperatura global devido às alterações climáticas, a situação tende a piorar. No entanto, uma variedade de alface selvagem encontrada há 40 anos nas proximidades de um posto de gasolina está a alimentar as esperanças dos produtores de alface deste Estado norte-americano, porque pode ser a chave para desenvolver plantas resistentes às temperaturas altas.  

Ao passar por um terreno baldio ao lado de um posto de gasolina, no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, uma investigadora da Universidade da Califórnia, reparou numa variedade de alface selvagem que crescia fresca e viçosa, apesar do calor tórrido que se fazia sentir. Esta descoberta foi há 40 anos. Hoje, os investigadores da UC Davis estão a usar técnicas avançadas de melhoramento de plantas para desenvolver variedades de alface com a mesma tolerância ao calor que a variedade selvagem encontrada na década de 1980.

Saiba mais neste vídeo da Associação Americana de Comércio de sementes e da Crop Life International.

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F2F e Biodiversidade | Estratégias colocam em risco produção e competitividade agrícola da UE

Em comunicado de imprensa enviado às redações, o CiB-Centro de Informação de Biotecnologia reagiu às estratégias da Comissão Europeia “Do Prado ao Prato” e “Biodiversidade 2030”. Sobre o uso das novas tecnologias, incluindo a biotecnologia e o desenvolvimento de produtos de base biológica, o CIB espera que a visão apresentada seja levada à prática, assegurando aos agricultores a liberdade de escolherem as tecnologias que melhor se adequam à sua exploração. No entanto, a implementação de muitas outras medidas colocarão em risco a produção e a competitividade dos produtores da União Europeia face aos produtores de países fora da UE que não estão sujeitos às mesmas regras.

A Comissão Europeia (CE) apresentou, na semana passada, a “Estratégia Do Prado ao Prato” (Farm to Fork ou F2F) e a “Estratégia para a Biodiversidade 2030” (EU Biodiversity Strategy for 2030). Em linhas gerais, na “Estratégia Do Prado ao Prato”, a CE pretende tornar mais sustentável toda a cadeia alimentar nos países da União Europeia, através de ações que permitam “reduzir a pegada ambiental e climática do Setor Agroalimentar da UE e reforçar a sua resiliência, protegendo a saúde dos consumidores e garantindo os meios de subsistência dos agentes económicos”. Na Estratégia para a Biodiversidade 2030, a CE pretende “contrariar os efeitos de perda de biodiversidade, como o uso insustentável do solo e do mar, a sobre-exploração dos recursos naturais, a contaminação e as espécies exóticas invasoras. Outro dos objetivos é prevenir e reforçar a resistência a pandemias futuras e trazer oportunidades de negócio e investimento para a recuperação da economia da UE”. 

A Investigação e Inovação são referidas, em ambos os documentos, como tendo um papel importante. Na Estratégia Do Prado ao Prato, reconhece-se que “as novas tecnologias, incluindo a biotecnologia e o desenvolvimento de produtos de base biológica, podem desempenhar um papel no aumento da sustentabilidade, desde que sejam seguras para os consumidores e para o meio ambiente, trazendo benefícios para a sociedade como um todo. Também podem acelerar o processo de redução da dependência de pesticidas”.

Neste sentido, e em resposta ao pedido dos Estados-Membros, “a Comissão está a realizar um estudo que analisará o potencial das novas técnicas genómicas para melhorar a sustentabilidade ao longo da cadeia de abastecimento alimentar.” O CiB espera que esta visão seja levada à prática e que as decisões políticas sejam consentâneas com o uso seguro e com o conhecimento científico atual dos produtos da biotecnologia, assegurando a preocupação de dar aos agricultores a liberdade de escolher as tecnologias que melhor se adequarão à sua exploração.

Entre as muitas medidas propostas na “Estratégia Do Prado ao Prato”, a “redução em 50% do uso e risco dos produtos fitofarmacêuticos”, a redução em 20%, no mínimo, no uso de fertilizantes”, “a redução em 50% das vendas dos antimicrobianos utilizados na pecuária e na aquacultura” e aumentar as terras agrícolas com produção biológica dos atuais 8% para 25%” são as primeiras grandes ambições para 2030. 

Tudo muito certo, não se levantasse uma questão fundamental: é exequível para os produtores nacionais implementarem todas as medidas propostas? A concretização das metas e grandes objetivos têm de ter um orçamento adequado à altura das ambições. Caso contrário, estaremos perante uma estratégia completamente irrealista, até porque a reforma da PAC terá de incorporar necessariamente estas metas e ambições, desde logo nos Planos Estratégicos dos Estados-membros.            

Sem rodeios, a resposta é Não. Sem grandes apoios financeiros não será exequível. E não se trata sequer de apenas pedir apoios. As exigências da Estratégia do “Prado para o Prato” são muito grandes e porquê? Porque os produtores nacionais terão que produzir o mesmo mas com menos e sem ferramentas alternativas às que a Estratégia lhes retira, agravado pelas novas ameaças emergentes de pragas e doenças ainda sem soluções no seu combate. 

Preocupado com o futuro do setor agrícola nacional, o CiB-Centro de Informação de Biotecnologia levanta sérias questões a que a “Estratégia Do Prado ao Prato” não dá resposta e que podem colocar em risco a produção de alimentos, não só em Portugal como na União Europeia e podem levar a uma perda de competitividade nas produções e da importância da atividade agrícola e agroalimentar, com o abandono das zonas rurais. Isto, com a agravante de que assistimos a fenómenos imparáveis como a globalização e o aumento da população mundial. Perguntamos: “Qual é o papel da União Europeia nos sistemas de abastecimento à escala global? Como garantir que as metas vão ser atingidas nos nossos principais parceiros e concorrentes nos mercados internacionais e uma equidade nas regras de importação? Seremos capazes de impor taxas para os produtos importados desses países, sem ter em conta as regras da OMC-Organização Mundial do Comércio? Até porque, para além do peso das exportações, que continuarão a ser essenciais, importamos muitas matérias-primas de Países Terceiros. 

Como grandes linhas para atingir os objetivos da “Estratégia para a Biodiversidade 2030”, a CE propõe: “regenerar os rios e os ecossistemas degradados”, “melhorar a saúde das espécies e dos habitats protegidos da UE”, “devolver polinizadores às terras agrícolas”, “reduzir a contaminação”, “tornar as cidades mais ecológicas”, “aumentar a agricultura biológica e outras práticas agrícolas respeitosas da biodiversidade” e “melhorar a saúde das florestas na UE”. E como se propõe a CE concretizar estes objetivos? Em concreto, através da “conversão, no mínimo, de 30% das terras e mares da Europa em zonas protegidas administradas com eficácia e da “devolução em mais de 10% da superfície agrícola de elementos paisagísticos muito variados”. 

O problema é que as estratégias apresentadas são ambiciosas e muito baseadas em metas e não em caminhos, que se não forem acompanhadas da preocupação de que todos, os que do sector agrícola vivem, mantenham ou melhorem os seus rendimentos, poderão ter um impacto deveras negativo no mundo rural dos países e muito particularmente de Portugal. Tal obrigará a um êxodo rural maior para as grandes cidades, acentuando, ainda mais, a degradação dos ecossistemas.  Para os agricultores em geral, e de Portugal em especial, as linhas gerais apresentadas geram alguma preocupação, porque “reduzir o uso de fitofármacos em 50% e dos fertilizantes em, pelo menos, 20%”, sem alternativas viáveis para os substituir, pode comprometer, em muito, a competitividade das explorações agrícolas europeias e portuguesas, que competem com produtos vindos de países terceiros, onde os produtores não enfrentam iguais condicionantes e exigências. Produtos importados são produzidos mediante regras e recurso a fitofármacos não estão autorizados na EU. 

De lembrar que, nos últimos anos, os agricultores já viram reduzido o número de substâncias ativas para controle de pragas, doenças e infestantes, comprometendo o seu nível de produção e a possibilidade da tão necessária diversificação de culturas, tendo, no entanto, respondido, de forma eficaz, às exigências de um uso mais profissional e sustentável de fitofármacos e fertilizantes – com formação profissional obrigatória para todos os aplicadores, mediante a implementação de Boas Praticas de na aplicação de fitofármacos, no controlo apertado de equipamentos de aplicação e do uso de fitofármacos, entre outos, o que lhes permitiu fornecer produtos seguros, suficientes e com qualidade reconhecida a nível mundial. 

É importante a Comissão Europeia não menorizar que, para os agricultores europeus, a disponibilidade ou não de uma ferramenta para proteger as suas culturas pode fazer toda a diferença em termos económicos. 

Aspetos em falta na Estratégia são também os procedimentos de análise e autorização baseados na ciência, que deveriam ser mais implementados. Se o fossem, provavelmente a CE concluiria que muitos fitofármacos não teriam de ser retirados do mercado, sobretudo os mais essenciais para a produção agrícola. 

Se a União Europeia reduzir a sua capacidade produtiva, o sector agrícola não conseguirá enfrentar uma procura crescente por alimentos, forragens e produção não alimentar. O que levanta mais uma questão: As medidas propostas não contrariam as necessidades de abastecimento na União Europeia? Contrariam. Quadruplicar a área da UE em agricultura biológica” – menos produtiva do que a agricultura convencional em mais de 30% – “converter, no mínimo, 30% das terras e mares da Europa em zonas protegidas administradas com eficácia – por quem? E devolver em mais de 10% da superfície agrícola elementos paisagísticos muito variados – são medidas que retirarão área para produção agrícola”, levando-nos a pensar que a UE verá comprometido o seu objetivo de garantir uma maior autossuficiência do espaço europeu em alimentos. Modos de produção menos produtivos, uma agricultura convencional com menos ferramentas para produzir na mesma medida de hoje, e menos área dedicada à agricultura só poderão ter como consequência uma redução na capacidade exportadora da agricultura da União Europeia, e, ainda, um aumento na sua dependência do exterior com o consequente aumento do risco de insegurança alimentar. 

De resto, os agricultores têm vindo a implementar, nas suas explorações, práticas mais sustentáveis, bem como uma crescente prestação de serviços aos ecossistemas. Não será por acaso que as normas de segurança alimentar da UE estão entre as mais altas do mundo. A agricultura e a agroindústria europeias já têm vindo a apostar nesta estratégia, preocupados com as emissões dos GEE, o bem-estar animal, a sustentabilidade, a eficiência da utilização de recursos. Ou seja, nada disto é novo e disso são exemplo os inúmeros Centros de Competência e a partilha de projetos que envolvem as empresas, universidades e investigação. A preocupação com os consumidores também tem promovido diferentes tipos de oferta, bem como e a autorregulação, porque queremos ter sistemas de produção e de consumo sustentáveis. 

A UE deveria estar preocupada, a todo o momento, em aumentar a competitividade da sua agricultura e não em sobrecarregá-la com exigências, monetariamente dispendiosas e sem alternativas viáveis, sem ter a certeza do exato impacto que as suas intenções podem ter no sector. Também, não deverão ser os agricultores os únicos a suportar os custos com uma maior preocupação ambiental e climática na UE. 

A CE, ao defender, justamente, no seu documento, que os consumidores devem ter acesso a dietas “sãs”, deverá ter consciência de que a escolha do que é uma dieta saudável se deve basear em recomendações fundamentadas na ciência e não em modas ou agendas comerciais, que, em muito, podem prejudicar o rendimento das explorações agrícolas, ao inviabilizar, sem justificação séria, as reduzidas alternativas que muitas explorações têm em Portugal.   

Para concluir, se alguma lição pode ser retirada da crise que enfrentamos com a COVID-19 é que a UE não pode arriscar-se a não ter alimentos numa outra crise futura. Porque, na próxima crise, poderemos não ter alimentos suficientes. As metas e ambições necessitam de tempo, de harmonização à escala global, de investimento em novas tecnologias e, sobretudo, de um orçamento adequado para o processo de transição. 

Gabriela Cruz, produtora, associada do CiB 

Jaime Piçarra, Presidente da Mesa da Assembleia Geral do CiB 

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