Entrevista | Investigadores portugueses tentam “criar” arroz com vitaminas do complexo B

Professora Margarida Oliveira, investigadora no ITQB NOVA. Edição e imagem: Joaquim Miranda/CiB

No laboratório de Genómica de Plantas em Stress, no ITQB NOVA, em Oeiras, a Professora Margarida Oliveira e a sua equipa estudam estratégias de adaptação que permitem a algumas plantas sobreviver a stresses ambientais como o sal, a seca e a temperatura. O arroz é o foco principal, mas tem muito trabalho feito noutras plantas como a amendoeira e o sobreiro. E é graças ao trabalho de Doutoramento da sua primeira estudante (Célia Miguel) que o primeiro Protocolo de Transformação Genética da Amendoeira é português.

Entrevista: Margarida Paredes /CiB

Fotografia e vídeo:  Joaquim Miranda

Na investigação que desenvolve, qual é a componente mais virada para a biotecnologia?

O meu trabalho [no laboratório GPlantS – Genómica de Plantas em Stress] é muito virado para a investigação fundamental, porque os projetos inovadores para desenvolvimento de conhecimento obtêm mais facilmente financiamento da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) do que os projetos para aplicação.  

Mas já desenvolveu trabalho em arroz que foi aplicado no campo…

Sim, o nosso trabalho em arroz começou por ser investigação aplicada, em finais de 1999, para atender ao problema da anemia em Moçambique, em especial na população feminina. No âmbito de uma parceria tripartida entre Portugal, Moçambique e Filipinas, onde se localiza o IRRI – Instituto Internacional de Investigação do Arroz, tentámos melhorar os teores de ferro no endosperma do grão, expressando a proteína ferritina através de técnicas de engenharia genética. Este trabalho foi desenvolvido por outra estudante de Doutoramento (a Marta Vasconcelos) e publicado na Plant Science, merecendo-lhe um prémio internacional do CGIAR que a Marta foi receber ao México. Continuámos a investigação em arroz, mas desta vez focando-nos em problemas de interesse para Portugal. De facto, analisando a situação do arroz no nosso País a interrupção do Programa Nacional de Melhoramento de Arroz (nos anos 70, 80) levou a que a produção do sector só se tenha conseguido manter pela atividade de empresas importadoras de semente (sobretudo de Itália).

Créditos: Joaquim Miranda/CiB

Porque escolheu o arroz como foco principal de investigação?

Na verdade foi por influência de um amigo da India (Swapan Datta), na altura a trabalhar no IRRI, mas que já tinha estado vários anos a trabalhar no melhoramento de arroz no laboratório de Ingo Potrykus, o líder do projeto de desenvolvimento do “Golden Rice” [arroz dourado, enriquecido em pró-vitamina A]. Foi ele que me alertou para a parceria que havia entre Portugal, Moçambique e o IRRI para o Melhoramento do Arroz em Moçambique. Este trabalho em arroz alertou-me para o valor desta planta como modelo de estudo, não só por ter o genoma mais pequeno entre os principais cereais, mas também por ser a cultura que alimenta mais pessoas no mundo inteiro.

Percebo a importância de Moçambique ter variedades de arroz ricas em ferro. No caso de Portugal, para quê desenvolver arroz geneticamente modificado?

Há 20 anos atrás, a motivação para trabalhar em arroz para Portugal foi tentar contribuir para retomar e inovar o programa de melhoramento, olhando para variedades nacionais que os agricultores portugueses não comercializavam, mas que produziam para consumo próprio. Estas eram bem mais saborosas que as variedades italianas, embora com características agronómicas menos desejáveis (palha alta, baixa produtividade e maior sensibilidade às doenças).

Começámos com as variedades portuguesas Estrela A e Allorio, consideradas as mais saborosas pelos agricultores. Utilizando marcadores moleculares  e variedades dadoras que obtivemos do IRRI, fizemos melhoramento dirigido para aumentar a produtividade e a resistência à piriculariose, uma das doenças mais danosas para a cultura do arroz (causada pelo fungo Magnaporthe oryzae). Com a colaboração do colega Arlindo Lima (do ISA), conseguimos focar o trabalho nas estirpes mais virulentas deste fungo existentes em Portugal. As plantas melhoradas que obtivemos (por cruzamentos direccionados e seleção assistida por marcadores moleculares) foram testadas no Centro de Orizicultura [atual COTArroz] e no Mondego (Direção Regional de Agricultura, com o Eng. Serafim Andrade). Em paralelo começámos a olhar para outras situações problemáticas para o arroz, nomeadamente os stresses ambientais.

Quais?

Por exemplo, a salinidade, não só em regiões costeiras (oeste e sul) e margens de rios, mas também em alguns solos agrícolas. Embora, por exemplo, no Mondego a salinidade esteja bastante controlada pela irrigação, as alterações climáticas tendem a agravar o problema. No Sado, os maiores problemas de salinidade relacionam-se diretamente com a falta de água, com o facto de a seca a limitar muito a capacidade de diluição do sal. Em alguns solos no Tejo e no Sorraia também existem muitos problemas de salinidade, sobretudo pela qualidade dos solos e práticas agrícolas. As alterações climáticas – o aumento da temperatura e a redução da disponibilidade de água – certamente irão agravar o problema da salinidade. 

Que outros stresses ambientais afetam a produção de arroz em Portugal?

A temperatura, sobretudo o frio nas zonas mais a norte de produção. Embora não seja tão grave quanto a salinidade, o frio impede a cultura do arroz a norte do Mondego. Contudo, pelo interesse do arroz a nível mundial, temos vindo a estudar mecanismos de adaptação a vários stresses (défice hídrico, salinidade, temperatura sub-óptima, submersão) a fim de identificar estratégias e desenvolver ferramentas, que possam melhorar a produtividade em situações de stress ambiental, por exemplo recorrendo a técnicas de melhoramento dirigido (via seleção assistida por marcadores moleculares, engenharia genética ou edição de genomas).

Como é que a biotecnologia, neste caso a engenharia genética e a edição de genomas, pode ajudar a resolver esses problemas?

A engenharia genética é sem dúvida uma ferramenta poderosa para o melhorador, mas, na Europa, ainda é pouco compreendida e mal-aceite no mercado, o que limita o seu uso para conseguir introduzir melhorias. A edição do genoma ainda está em discussão, embora, na minha opinião, não faça sentido discutir uma técnica em vez de discutir o resultado final. Posso dizer-lhe que dos nossos estudos de resposta a stress ambiental, neste momento, já temos plantas com genes modificados por edição de genoma, em que não há qualquer alteração adicional além da mutação específica desejada (que poderia ter ocorrido espontaneamente ou por uma qualquer via). Isto significa que é impossível identificar nestas plantas qual a metodologia utilizada no melhoramento.

Créditos: Joaquim Miranda /CiB

Como assim?

A modificação genética final também podia ter ocorrido espontaneamente ou sido conseguida por mutagénese química ou por radiação (metodologias não sujeitas a legislação). Ou seja, certos métodos de edição genética não têm qualquer cicatriz que permita identificar o método de obtenção. Na minha opinião, querer legislar um produto final de origem vegetal com base na estratégia usada para o obter, não só não é inteligente, como é uma gestão danosa de recursos públicos que poderiam ser muito melhor utilizados para avaliar a qualidade do produto final.

Claro que não aplico esta filosofia a tudo. Quando o método de obtenção de um produto não respeita os direitos dos seres humanos ou dos animais, ou não acautela a sustentabilidade da natureza ou ambiental, a metodologia tem necessariamente de ser considerada.

E com a utilização da edição genética na planta do arroz o que pretende alcançar?

Um dos nossos interesses é tentar perceber quais são as funções de diferentes alelos [variações específicas do gene, que determinam como é que uma determinada característica irá expressar-se] no comportamento da planta, sobretudo em resposta a stress ambiental. Havendo uma planta que apresenta uma característica melhor, em se identificando um alelo responsável por essa melhoria (eventualmente afetando um gene regulador de uma via metabólica), podemos usar uma variedade já aceite no mercado e, através da edição de genomas, introduzir adicionalmente apenas a pequena alteração que a pode dotar da vantagem acrescida (obviamente a comprovar por ensaios laboratoriais e de campo). Para estes estudos, o facto de haver já três mil variedades de arroz com o genoma sequenciado é uma vantagem adicional muito útil na nossa investigação. Temos atualmente várias linhas de estudo para caracterizar genes reguladores de vários comportamentos da planta e procuramos identificar pequenas mudanças nesses genes que causem efeitos benéficos (em termos de crescimento, produtividade, qualidade…).

A que resultados chegou nestes 20 anos de trabalho com arroz geneticamente modificado?

Na investigação fundamental, ou seja, no que respeita à produção de conhecimento, obtivemos muitos resultados. Por exemplo, e só para elencar alguns: desenvolvemos plantas de arroz resistentes à piriculariose, com palha mais baixa e maior capacidade de produção (as que resultaram do nosso trabalho inicial em arroz e que depois foram transferidas para o Programa Nacional de Melhoramento, para recuperar as qualidades organolépticas perdidas); identificámos vários mecanismos de resposta à salinidade e compreendemos agora melhor a razão de algumas variedades serem capazes de lidar melhor com o sal do que outras; e, por fim, desenvolvemos a ferramenta de edição de genoma que já está a funcionar muito bem em arroz. Chamo no entanto a atenção para o facto de que a modificação genética em causa só ocasionalmente se enquadra na categoria de “engenharia genética”. As plantas que cedemos ao programa foram obtidas por melhoramento convencional assistido por marcadores moleculares.

O laboratório trabalha em colaboração com o COTArroz, apoiando o Programa Nacional de Melhoramento Genético do Arroz. Na prática, este programa permite o quê?    

O Programa agora é liderado pela Dra. Ana Sofia Almeida (INIAV) em estrita colaboração com o COTArroz (Eng. Paula Marques). Já não fazemos seleção assistida por marcadores moleculares pois não temos financiamento específico para tal. Assim, atualmente, os cruzamentos são feitos no COTArroz e a seleção é feita só com avaliação fenotípica nos vários ambientes da cultura, do Mondego ao Sado, com intervenção de diversas entidades (COTArroz, DRAP Centro, e diversas associações de produtores).

Tendo em conta o posicionamento da União Europeia relativamente à autorização de novas variedades geneticamente modificadas, que expectativas tem relativamente ao trabalho que desenvolve em arroz? Acredita que chegará ao mercado?

Temos em curso diversos tipos de trabalho em arroz cujos resultados poderão chegar ao mercado, mais tarde ou mais cedo. Um deles é um pouco na linha do que foi feito com o arroz dourado. O arroz dourado incorpora genes novos de biossíntese do betacaroteno, uma fonte de Vitamina A, que lhe permitem produzir e acumular esta pró-vitamina ao nível do endosperma (mesmo após o polimento do grão). No caso do “nosso” arroz, estamos a estudar as vias biossintéticas da produção das vitaminas B1 e B2, porque no arroz ainda não estão claramente identificadas. Usamos informações de outros organismos, para reconstruir as vias biossintéticas destas vitaminas no arroz. O que sabemos é que o arroz branco (polido) tem muito pouca vitamina B1, B2 e B12.

Créditos: Joaquim Miranda

Há necessidade de o arroz ter esse aporte de vitaminas do complexo B?

Em Portugal não é particularmente relevante, pois a alimentação é diversificada, mas em países em desenvolvimento com alimentação fortemente dependente de arroz, as pessoas carecem destas vitaminas. Repare, também fazemos investigação em arroz para perceber a capacidade de resistência à submersão – uma situação que em Portugal não é crítica, mas que é problemática em alguns países asiáticos.

Portanto, estamos a tentar caracterizar as vias biossintéticas das vitaminas B1 e B2 e depois tentaremos enriquecer o arroz com essas vitaminas, não tanto para obter o produto final, mas sim como prova-de-conceito. 

Não tem receio que o “seu” arroz enriquecido com vitamina B1 e B2 fique 20 anos na gaveta, como aconteceu com o arroz dourado?

Se conseguirmos atingir o nosso objetivo, tenho a certeza que a solução será rapidamente pegada por países como a China. Contudo, quanto à aceitação da modificação genética na União Europeia (UE), ainda tenho esperança que os responsáveis e a sociedade em geral entendam que perdermos a capacidade de produzir plantas melhoradas não é opção. Para podermos inovar e progredir sem ser à sombra e na dependência dos países que usam a tecnologia avançada que já temos à disposição, a UE tem de também poder usar as mesmas ferramentas. Se a UE mantiver a política que tem seguido relativamente à aplicação da engenharia genética e da edição de genomas na agricultura, continuaremos a comprar aos outros aquilo que não estamos autorizados a produzir nós próprios. Agora, se a UE quiser acompanhar o mundo, deverá mudar a sua posição. A minha expectativa é que perceba que é completamente anticientífico rejeitar técnicas como a edição de genoma. Algumas destas técnicas são mesmo indetetáveis, não deixam marcas. Como é que se pode legislar algo que não se pode identificar? Por outro lado, a edição de genoma oferece elevado grau de precisão, a um nível nunca antes conseguido. A rejeição desta técnica pode ter muitas motivações, mas a apregoada segurança do consumidor está longe de ser a verdadeira ou de ter fundamentação científica.

Créditos: Joaquim Miranda /CiB

O arroz GM tem sido usado como modelo para dar resposta a questões relacionadas com os possíveis efeitos da engenharia genética. Há razões para preocupação?

Não, não há. Em parceria com o Instituto Ricardo Jorge (INSARJ), contribuímos para esclarecer sobre a potencial maior alergenicidade dos produtos geneticamente modificados. Foram feitos muitos estudos em arroz, soja e milho, envolvendo equipas multidisciplinares coordenadas pela Dra Rita Batista (INSARJ), e os resultados foram muito conclusivos:  o processo de engenharia genética que originou os produtos geneticamente modificados que estão comercializados não causou qualquer diferença em termos de alergenicidade. Claro que se introduzíssemos um alergéneo por engenharia genética, a planta modificada causaria alergia, mas não é isso que se faz! A engenharia genética é uma tecnologia muito direcionada e essas variáveis são monitorizadas.

O que pensa da morosidade no processo que envolve as variedades GM? Justifica-se?

Não, não se justifica, mas acontece por questões políticas e económicas. Invocam-se argumentos pseudocientíficos, como o princípio de precaução, para defender interesses económicos. Por vezes, impedir a entrada de determinados produtos GM na UE, significa garantir o mercado da produção nacional/europeia, embora a preços eventualmente mais elevados para o consumidor. Se a Europa continuar a rejeitar este tipo de estratégias, fica impossibilitada de acompanhar os avanços que se estão a fazer no resto do mundo neste domínio e de conseguir lançar para o mercado variedades melhoradas recorrendo a estas tecnologias. Isso significa que perdemos competitividade e que mais tarde ou mais cedo teremos que comprar ao estrangeiro produtos que agora não podemos desenvolver cá. Do ponto de vista estratégico e de segurança alimentar não é muito inteligente, já que existem soluções que permitem desenvolver produtos mais eficazes, mais seguros e mais amigos do ambiente.

Com a edição do genoma, vale a pena continuar a investir na engenharia genética?

A edição de genomas também permite introduzir fragmentos de DNA de outros organismos ou de algum modo modificados, sendo, nesse aspeto, semelhante à engenharia genética, em que se faz corte e costura e se insere um gene novo que pode ser formado por vários pedacinhos oriundos de diferentes proveniências. A diferença é que na edição de genomas, se quisermos introduzir um gene específico, podemos direccioná-lo para o local certo onde o queremos ter. Uma das estratégias que a edição de genomas utiliza, permite introduzir apenas mutações pontuais sem deixar cicatriz da entrada de qualquer DNA estranho. Mas nem sempre as modificações pontuais permitem obter uma solução para determinado problema. A ferramenta é poderosa, só que não permite resolver tudo, tal como a engenharia genética também não permite resolver tudo. Uma tecnologia não substitui a outra, pode substituir parcialmente, mas não totalmente.  É nosso dever usar todas as tecnologias ao nosso alcance, da melhor forma, para resolver os problemas que a humanidade enfrenta.

Além do arroz, também tem interesse na amendoeira, estando a desenvolver várias ferramentas biotecnológicas e moleculares pioneiras. Que ferramentas são essas e para que servem exatamente? 

Temos vindo a trabalhar em muitas culturas diferentes. Na amendoeira, foram muitos anos de investigação e de desenvolvimento de ferramentas biotecnológicas, desde metodologias para identificar a presença de infeções virais até estratégias para introduzir resistência às mesmas. Descobrimos, por exemplo, que um dos vírus da amendoeira – o vírus do nanismo das prunóideas (frutos com caroço duro) – é transportado dentro dos grãos de pólen. Uma vez que a amendoeira é auto-incompatível e tem que ser polinizada por abelhas, isso significa que as abelhas podem transportar grãos de pólen infetados contaminando rapidamente pomares limpos de amendoeira. Também desenvolvemos várias ferramentas para caracterização molecular da diversidade existente nas coleções do Algarve e de Trás-os-Montes. Neste momento já estão desatualizadas, como é evidente, mas esse trabalho permitiu-nos, por exemplo, identificar variedades que supostamente eram diferentes e, afinal, eram a mesma e outras que estavam classificadas como a mesma e eram diferentes, o que em termos de gestão de coleções é importante. Temos também ferramentas moleculares para identificar alelos de auto-incompatibilidade e de auto-fertilidade (estes existentes nas variedades auto-compatíveis), uma preciosa ajuda para prever as combinações de variedades a introduzir no campo para garantir produção de semente. Claro que só isso não basta, e é também importante garantir a sobreposição dos tempos de floração.

À sua equipa se deve também o primeiro protocolo de transformação genética da amendoeira. O primeiro no mundo, é verdade?

É verdade, foi uma estudante minha de doutoramento, a Célia Miguel, que desenvolveu o primeiro protocolo de regeneração de plantas de amendoeira geneticamente transformadas. Até então, não havia qualquer método publicado, embora houvesse um artigo de revisão de um investigador da Universidade de Davis, na Califórnia, que referia ter obtido transformação genética da amendoeira. Mas a realidade é que, se esse trabalho foi mesmo feito, nunca ninguém o encontrou. Com o tempo melhorámos o nosso protocolo e desenvolvemos também métodos de engenharia genética para introduzir resistência ao vírus do nanismo das prunóideas.

Fizemos também um estudo mais fundamental para perceber quais são os genes que estão envolvidos na capacidade das células de se desdiferenciarem [regredirem a um estádio de “juventude”] conseguindo desenvolver-se quase como se fossem células de um embrião. Essa capacidade é muito importante na engenharia genética e depende muito das variedades com que trabalhamos, o que tem implicações evidentes na escolha daquelas que podemos melhorar.

Na prática, qual é a importância desse trabalho?

É tentar utilizar esse conhecimento para melhorar o protocolo de transformação e regeneração da amendoeira. Se compararmos com as plantas modelo, o sucesso da regeneração de plantas transformadas de amendoeira é muito baixo, o que significa que se quisermos produzir 300 linhas de plantas transformadas (que não é muito) vamos precisar de trabalhar com milhares de pedacinhos de folhas (o material que transformamos e do qual regeneramos plantas completas). A eficiência do método de transformação pode ser crítica para se poder trabalhar com rapidez.

Créditos: Joaquim Miranda/CiB

Então, no campo ainda não há aplicação desse conhecimento?

Não, estamos muito longe desse passo. Não há autorizações para isso, nem a nível internacional.

Não sente frustração por ter alcançado conhecimento que pode ser aplicado e não é, por questões alheias à ciência?

Claro que sim, é justamente por essa razão que deixei de trabalhar em amendoeira. Mesmo sem usar engenharia genética tentei iniciar programas de melhoramento, quer com a Direção Regional de Agricultura do Algarve, quer depois com a Direção Regional de Agricultura de Trás-os-Montes, mas percebi que o interesse era muito relativo (além de que no norte a geada comprometia muitas vezes o sucesso dos cruzamentos controlados). Encontrei maior interesse no nosso trabalho por parte de investigadores e produtores da Austrália e da Califórnia. Por cá dava-se prioridade às variedades francesas. Acresce que aqui ao lado, na nossa vizinha Espanha, só em programas de melhoramento de amendoeira, havia três activos (em Tarragona, Murcia e Saragoça). A questão é esta, se a investigação aplicada que fazemos pelo nosso património genético não serve para os nossos (quem está no terreno a explorar as amendoeiras) e apenas vamos dar proveito a empresas, produtores e melhoradores estrangeiros que não pagam o nosso trabalho, então não vale a pena o nosso esforço. Por essa razão comecei a investir mais em arroz.

Tem ainda trabalho feito em sobreiro e purgueira. Nestes casos, também utilizou técnicas de engenharia genética?  

Na purgueira, aplicamos algumas técnicas de engenharia genética, mas apenas para validação funcional de genes envolvidos na fotossíntese. Uma vez que não havia um método eficaz de transformação genética da planta, utilizamos um método alternativo em que o agente de transformação era um vírus. Mas, reforço, apenas com o objetivo de análise funcional.

Pretendia produzir biodiesel a partir da purgueira. Não resultou?

De facto, a nossa ideia não era produzir biodiesel ou explorar os mecanismos da sua produção, mas sim explorar a conhecida capacidade da purgueira de aguentar a seca e investigar a base molecular do mecanismo de resistência. Fizemos uma parceria com uma empresa internacional estabelecida em Cabo Verde (onde iniciaram um Centro de Melhoramento), para obtermos semente de qualidade para os nossos estudos.  Sabíamos que apesar de estar espalhada por grande parte do hemisfério sul, a purgueira praticamente não apresenta diversidade genética, a não ser na América Central, zona de origem da espécie. Curiosamente, a responsabilidade dessa falta de diversidade é dos Portugueses, que na época das Descobertas levaram a purgueira para todos os lugares onde atracaram. Ou seja, as plantas introduzidas em África, Índia, Indonésia e outras zonas tropicais ou sub-tropicais têm praticamente todas o mesmo genótipo e apenas se encontra diversidade no México e América Central.

Mas como dizia, a purgueira pareceu-nos aliciante pela sua tolerância à secura, e uma vez que estávamos empenhados em estudar a resposta a este stress, pensámos que podia ser um bom modelo. Então, no âmbito de um projeto financiado pela FCT [Fundação para a Ciência e a Tecnologia], estudámos a purgueira, analisando a performance da planta em condições de stress e investigando a expressão de genes da raiz e da folha em condições controlo versus stress e em recuperação pós-stress. Verificámos que a planta tem uma capacidade extraordinária para lidar com a secura sem perder funcionalidades e arranjando mecanismos de protecção contra o excesso de luz solar e de aumento de temperatura que se verifica quando a planta não tem água para transpirar. Numa parceria com a Universidade de Hokkaido, no Japão, a nossa investigadora Helena Sapeta, encontrou indicações de que esta capacidade resulta de um acréscimo de pigmentos que protegem a maquinaria fotossintética da purgueira prevenindo a “queimadura solar”.

Relativamente ao sobreiro, em que consiste a investigação e qual é a finalidade?

Temos vindo a investir muito em sobreiro, quer incentivando a implementação de projetos nacionais (num programa financiado pela FCT há uns anos trás), para obter uma extensa coleção de genes expressos (em diversas condições de desenvolvimento, de stress, de diferentes tecidos, etc.), quer no apoio ao programa de sequenciação integral do genoma do sobreiro.

Em parceria com o Instituto Superior de Agronomia (equipa da colega Leonor Morais-Cecílio), também desenvolvemos estudos que nos permitem associar variações na qualidade da cortiça a variações epigenéticas (alterações na conformação do DNA, sem alteração na sequência das bases), potencialmente devidas a condições ambientais.   

Tem-nos interessado agora, particularmente, identificar as vias metabólicas da produção de suberina (o principal componente da cortiça) e sobretudo perceber como é que estas são afetadas pelo ambiente.

Créditos: Joaquim Miranda/CiB

MARGARIDA OLIVEIRA tem Doutoramento e Agregação em Biologia pela Universidade de Lisboa e é Professora Associada com Agregação na Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB NOVA). Lidera o grupo de investigação de Genómica Funcional de Plantas da unidade GPlantS – Genómica de Plantas em Stress, no ITQB NOVA, em Oeiras. Estuda o efeito de fatores ambientais na regulação da expressão génica e no desenvolvimento das plantas, combinando diferentes abordagens do nível morfo-fisiológico ao genómico.

Esta entrevista é um conteúdo CiB. Foi publicado em primeira mão na revista Vida Rural de junho (págs 6 a 17).

Pragas e doenças|”Temos três anos para conseguir pelo menos duas soluções capazes de funcionar em condições reais”

“Há novas pragas e doenças para as quais não existe atualmente nenhuma planta resistente e nenhum pesticida que as consiga controlar”. – Parte de um excerto da entrevista de Pedro Fevereiro, diretor-geral executivo do Laboratório Colaborativo InnovPlantProtect (InPP), na edição de maio da Voz do Campo.  

Leia o excerto completo, publicado na edição online da revista a 12 de maio.

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Pragas e doenças | InnovPlantProtect criado para desenvolver soluções biológicas inovadoras

Entrv PF Voz do Campo maio papel

Leia a Grande Entrevista ao Professor Pedro Fevereiro sobre o novo Laboratório Colaborativo InnovPlantProtect, em Elvas, construído para dar resposta ao grande desafio da produção agrícola: o controlo de pragas e doenças, responsáveis pela perda global de 40% a 60% das culturas.

Com a crescente pressão do aumento da população mundial e dos efeitos das alterações climáticas, agora como nunca é crucial proteger as culturas agrícolas das pragas e doenças. O InnovPlantProtect, o primeiro Laboratório Colaborativo em Portugal nesta área, está a trabalhar para desenvolver soluções biológicas inovadoras (biopesticidas) e novas variedades resistentes a pragas e doenças.

Esta entrevista foi publicada em primeira mão na edição impressa de maio e na edição online da revista Voz do Campo.

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Opinião | Que lições aprendemos com o debate sobre os OGM?

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Artigo original publicado no Agroportal

 

Artigo de Opinião
Que lições aprendemos com o debate sobre os OGM?

Por Pedro Fevereiro (*) | Agroportal.pt
Julho 2018

 

No passado mês de Junho, na Feira Nacional da Agricultura, em Santarém, decorreu a Conferência Internacional sobre o tema em título. Desde 1998, ano em que os primeiros carregamentos de milho geneticamente modificado chegaram à Europa, que defendo que as variedades agrícolas melhoradas com recurso à engenharia genética devem ser adotadas em Portugal e na Europa. Neste texto, e no seguimento da Conferência a que assisti, pretendo apresentar um pouco do que aprendi deste então para cá.

Este texto tem de ser enquadrado pela realidade Europeia: a maioria dos países europeus continua a rejeitar o uso da tecnologia do DNA recombinante como método para introduzir melhorias nas características das culturas agrícolas e florestais. Apesar da regulação mais exigente e mais estrita de todo o mundo, a Europa não aprova o cultivo de variedades melhoradas com esta tecnologia, mesmo depois de ultrapassados todos os crivos técnicos e científicos. O único evento aprovado para cultivo introduzido em variedades de milho permitindo a resistência a brocas, é “velho” de 20 anos e apenas utilizado em 3 países europeus, sendo um deles Portugal. Pese embora todas as restrições a Europa importa de países terceiros matéria prima produzida com variedades melhoradas com esta tecnologia, e depende dessa importação para fazer sobreviver os seus sectores pecuário, suinícola e avícola.

Este texto enquadra-se ainda numa nova realidade: a de que existem novas metodologias moleculares de melhoramento (Novas Técnicas de Melhoramento, em Inglês – NBT – “New Breeding Techniques”), que utilizam a edição precisa do DNA, ou o controlo da expressão de genes, para introduzir características desejáveis nas culturas agrícolas. Presentemente a Europa está envolvida numa discussão sem prazo e sem perspectiva sobre a possibilidade de vir a regulamentar estas novas tecnologias e se estas tecnologias devem “cair” na alçada da diretiva que regulamenta o uso de OGM.

Antes de apresentar a minha lista, devo referir que reconheço que os aspetos que refiro estão, sobretudo, relacionados com a minha experiência como cidadão português e que poderia ter percepções diferentes se a minha experiência fosse a de uma realidade de outro país Europeu. Também referir que o texto representa somente a minha perspectiva pessoal. Finalmente esta lista não segue nenhuma ordem de importância.

1 – O pós-modernismo, o movimento verde e o movimento antiglobalização articularam as suas estratégias para se oporem à utilização dos produtos agrícolas desta tecnologia. As suas mensagens, mesmo quando anticientíficas, ou falsamente científicas, são suficientemente atraentes para um vasto público, sobretudo citadino, que as considera associadas à necessidade de proteger o ambiente e de ter um estilo de vida considerado mais saudável. São também fáceis de assumir pelos órgãos de comunicação social, que para além de as associar a uma agenda “ambientalista”, as utiliza por serem negativas e sensacionalistas. As mensagens e atitudes veiculadas por esta estratégia são assumidas por membros de todas as correntes políticas.

2 – A comunicação desta tecnologia e dos seus produtos ao público em geral implicou simplificações e em geral a sua idilização. Neste processo de comunicação foi esquecida toda a história da domesticação e de melhoramento das culturas agrícolas. Foi também esquecido que uma parte substancial da população europeia atual não tem ligação ao campo e à agricultura e não compreende a necessidade de se produzir mais e de uma forma mais eficiente e sustentável. De resto ainda há não muitos anos era comum dizer-se na Europa que não era necessário aumentar a produtividade e eficiência agrícola.

3 – A população urbana não tem conhecimento dos processos de domesticação e melhoramento das culturas, mas também, na sua grande maioria, não tem conhecimentos suficientes de biologia molecular e não compreende que as novas tecnologias são evoluções dos métodos de melhoramento praticados há centenas de anos. O público em geral não compreendem que não faz sentido falar de “integridade do DNA”, quando o conhecimento atual nos diz que esta molécula está em constante mutação, que os genomas dos diferentes organismos partilham entre si os mesmos componentes, que o genoma de qualquer espécie é constituído, por vezes em mais de 50% por componentes virais e que durante a evolução existiu (e continua a existir) transferencial horizontal de genes (entre espécies que não se cruzam sexualmente entre si). Toda esta informação, recolhida nos últimos 15 anos, associada à sequenciação e estudo dos genomas, não teve reflexo na regulamentação europeia desta tecnologia, que por isso se encontra obsoleta, mas que analisada pelo público em geral apresenta uma imagem de grande perigosidade para os produtos desta tecnologia.

4 – A população urbana não se revê nas atividades agrícolas e portanto não compreende a necessidade de se desenvolverem variedades vegetais que permitam ganhos efetivos de produtividade, resilientes às condições edafoclimáticas e adaptáveis às condições locais. O baixo custo dos produtos alimentares não reflete as dificuldades de produção no campo, as exigências que a regulamentação coloca à produção, os preços ao produtor, as cargas horários do trabalho rural, entre outras situações.

5 – A apresentação da Agro-Biotecnologia como um modo de produção agrícola condiciona a discussão e a aceitação de novos métodos de melhoramento. A Agro-Biotecnologia não é um modo de produção agrícola! É um conjunto de métodos de melhoramento molecular que aumentou a precisão com que se ajustam as características das culturas às necessidades da produção, da comercialização, do consumo e da saúde humana e animal. As variedades melhoradas com esta tecnologia são utilizáveis em qualquer modo de produção – convencional, proteção integrada, orgânico.

6 – Os decisores políticos regem-se por critérios diferentes dos critérios científicos e isso não pode ser ignorado. A exigência de que as decisões políticas sejam tomadas de acordo com o conhecimento científico é um equívoco. No entanto é inaceitável que se justifiquem decisões políticas com informações científicas falsas, desatualizadas ou que não se aplicam à situação a legislar. Há ainda que notar que muitos decisores políticos se regem por percepções, na perspectiva de que se não o fizerem perderão votos para os seus partidos. No entanto estas percepções não são, em geral, testadas.

7 – A excessiva regulamentação e legalismo que envolve a adopção de variedades melhoradas com recurso à engenharia genética tem origens que não podem ser ignoradas e que condicionam o desbloqueamento da situação atual. Não foram apenas os movimentos ditos “anti-transgénicos” que condicionaram a regulamentação atual. Na sua génese estiveram também interesses corporativos que aumentaram os níveis de exigência para reduzirem níveis de concorrência. Por outro lado a perspectiva de uma revisão morosa e politicamente sensível da regulamentação tem impedido o envolvimento de decisores políticos na revisão da regulamentação, motivável pelas experiências positivas da produção e consumo dos produtos desta tecnologia.

8 – Os opositores que desenvolvem estratégias contra o uso da Biotecnologia na Agricultura não são nem incultos nem incompetentes. A perspectiva de que “se as pessoas tiverem mais conhecimento científico esta tecnologia será vista de outra forma” não é verdadeira. Inquéritos suficientemente robustos demonstram que a concordância com o uso desta tecnologia não está associada à falta de literacia científica. De notar que o conhecimento científico está atualmente disponível para qualquer pessoa.

9 – A formação ao nível do ensino básico e secundário transcreve, muitas vezes sem justificação científica, a perspectiva negativa que se enraizou na sociedade urbana relativamente a esta tecnologia. Esta realidade releva a pouca formação ao nível da biologia molecular e da biotecnologia da maioria dos professores e também a forma pouco cuidada como os manuais escolares abordam esta temática. Mas esta realidade enforma as decisões que virão a ser tomadas pelas gerações mais jovens.

10 – Uma parte significativa das pessoas tem medo de debater esta temática. Uma parte daqueles que a debatem e que chegam à conclusão que ela é aceitável temem opor-se à visão, sobretudo urbana, de que “os OGM” são inimigos do ambiente.

11 – O valor económico gerado pelo “não” à aceitação da tecnologia é já relevante a vários níveis. Uma alteração da regulamentação que permita o uso da tecnologia na Europa criará mudanças importantes, que condicionará a vida de muitos cidadãos e que contrariará estratégias comerciais, como aquelas que são assumidas por grandes grupos distribuidores, relativas à não comercialização de produtos ditos “OGM”.

12 – A exigência de certezas absolutas sobre o não risco para a saúde humana e animal dos produtos desta tecnologia condiciona o debate sobre a sua utilização. Ninguém pode dar garantia absoluta de que não existe risco. No entanto, em mais de 20 anos de utilização, não é possível fazer um cálculo do risco, visto não ter existido qualquer incidente na saúde humana ou animal devido ao uso dos produtos desta tecnologia.

O que aprendi então com o debate sobre a utilização dos OGM? Que existe um conjunto de idiossincrasias sócio/político/económicas que impedem a evolução deste debate, e que nada têm a ver com o conhecimento científico atual ou com a prática da utilização dos produtos do melhoramento molecular de precisão.

O debate sobre a adoção das Novas Técnicas de Melhoramento está já inquinado pelas percepções criadas pelo debate sobre os “OGM”. Sendo um conjunto de tecnologias derivadas da anterior, sofrerá o mesmo tipo de argumentos para a sua não adoção na Europa.

Só um debate honesto, incluindo todas as partes, livre de preconceitos, aceitando a rápida evolução dos conhecimentos científicos e observando a prática da utilização destas tecnologias permitirá um passo em frente. Espero que Portugal contribua para que esse passo em frente possa ser dado na Europa.

(*) Pedro Fevereiro,
Biólogo, Professor Auxiliar, Agregado

Nota 1 – O Professor Doutor Pedro Fevereiro é também Presidente da Direcção do CiB – Centro de Informação de Biotecnologia

NOTA 2 – O original deste artigo aqui partilhado integralmente foi publicado no Agroportal.pt

Vídeo | O natural não é necessariamente bom | Por David Marçal em TEDxPorto

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Vídeo TEDx 
O natural não é necessariamente bom

A comunicação TEDx de David Marçal, em Português, aborda um tema muito relevante na sociedade actual, maioritariamente vivendo em ambiente urbano no qual abundam os mitos sobre o que é natural, demonizando-se muitas vezes o que as pessoas consideram que não é natural.

[…] como bioquímico sempre achei muito curiosa uma certa ideia que existe acerca dos produtos naturais, que é a sua bondade intrinsica. Um produto natural é bom, porque é natural. Um produto químico é mau, porque é químico. E isso não é necessáriamente verdade. Mas sabem que não gera muita simpatia vir aqui falar destas coisas. Toda a gente gosta da natureza e dizer isto é quase como se eu fosse contra o pôr-do-sol. E na verdade eu adoro pores do sol. […]

Ao longo da sua explicação, David Marçal dá vários exemplos, incluindo o do milho biológico e da insulina geneticamente modificada fundamental para a saúde de diabéticos. Será que são naturais?

Video_TEDx_DavidMarcal_Milho

[…] Por exemplo, o milho de agricultura biológica deve ser considerado um produto natural? Mesmo que consideremos que ele não foi modificado geneticamente por modernas técnicas de biologia molecular, o milho como nós o conhecemos não existe natureza. Ele é o resultado de milhares e milhares de anos de seleção de sementes feitos por gerações sucessivas de agricultores. O milho que existe na natureza é na verdade bastante diferente do que nós conhecemos. É uma espécie muito mais pequenina. Mas, vamos tornar as coisas ainda mais interessantes. É possível modificar geneticamente bactérias para elas produzirem insulina humana. Essa insulina é igualzinha à produzida pelo pâncreas humano. É uma proteína feita de aminoácidos, cada um deles constítuido por átomos de carbono, de hidrogénio, oxigénio e azoto. Para os diabéticos essa insulina serve perfeitamente. Portanto, podemos perguntar: será que essa insulina produzida por organismos geneticamente modificados é natural? […]

Video_TEDx_DavidMarcal_InsulinaGM

Resumo desta comunicação “O natural não é necessariamente bom”
de David Marçal 

«Em certos meios está instalado um apartheid que segrega os produtos naturais dos “produtos químicos”. O argumento é tautológico: os produtos naturais são bons porque são naturais. E os produtos químicos são maus porque são químicos. E, como em todas as boas histórias, os bons resolvem os problemas causados pelos vilões. A primeira ideia para tornar esta história um pouco mais verdadeira é a de que um produto natural é necessariamente um produto químico. Num sentido lato, os produtos naturais são compostos produzidos por um qualquer organismo vivo. O colesterol (produzido por todos os animais) e a penicilina (produzida por um fungo) são produtos naturais. Os produtos naturais não são necessariamente perigosos, mas por vezes podem causar problemas graves de saúde. Em muitos casos os seus riscos são desconhecidos. Os remédios à base de produtos naturais não passam pelo exigente processo de ensaios clínicos necessários para a aprovação de um medicamento convencional. É desconhecida a sua eficácia e segurança e a sua toma comporta riscos que não estão avaliados.»

VISIONAR VÍDEO COMPLETO

 

MAIS INFORMAÇÃO

David Marçal doutorou-se em 2008 em Bioquímica pela Universidade Nova de Lisboa. É redator científico na Ciência Viva (Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica) e coordenador da rede GPS.PT (Global Portuguese Scientists). Publicou, em coautoria com Carlos Fiolhais, os livros “”Darwin aos tiros e outras histórias de ciência”, “Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência” e “A ciência e os seus inimigos”. É também coordenador e autor do livro “Toda a Ciência (menos as partes chatas)” e assinou o ensaio “Pseudociência”. É autor de centenas de artigos na comunicação social, espetáculos e em programas de televisão sobre ciência. Já foi distinguido com os prémios Químicos Jovens (da Sociedade Portuguesa de Química), Ideias Verdes (da Fundação Luso e pelo Jornal Expresso) e COMCEPT (da Comunidade Céptica Portuguesa).

 

 

Opinião – As dez mentiras sobre os OGM

As dez mentiras sobre os OGM - Por Marcel Kuntz 2017

As dez mentiras sobre os OGM

Por Marcel Kuntz*

Os Dicionários Oxford elegeram “pós-verdade” (traduzido do Inglês “post-truth”) como a “Palavra do Ano” de 2016. A expressão “pós-verdade” é definida como “relacionar ou salientar circunstâncias em que os apelos à emoções ou crenças pessoais são mais importantes na formação da opinião pública do que os factos objectivos”. Os Dicionários Oxford comentam que “nesta era de pós-verdades políticas, torna-se fácil escolher os dados que mais convêm e induzir as conclusões pretendidas”. Os autores parecem aludir ao referendo sobre o Brexit e às eleições presidenciais dos Estados Unidos da América e, provavelmente, a outros governos qualificados como “populistas”.

Contudo, esta definição de “pós-verdade” aplica-se também ao que se tem passado nos últimos 20 anos no domínio científico e tecnológico.

Proponho ilustrar a minha tese usando como exemplo os “OGM” e as 10 “melhores” pós-verdades que lhes são, muitas vezes, associadas.

1 – A primeira não é literalmente uma “pós-verdade”, mas sim a demonstração de uma imaginação sem limites da União Europeia, quando se trata de implementar uma legislação tão absurda como contra produtiva. Em 1990, os Estado Membros criaram o conceito de “OGM” [a sigla para Organismos Geneticamente Modificados]. A Directiva enumera todos os métodos que permitem o melhoramento das características de um organismo (por exemplo, uma planta) para responder às necessidades do Homem (por exemplo, necessidades agrícolas), para depois os excluir de todos nos anexos desta mesma Directiva. Todos, excepto uma técnica, a mais recente, sobre a qual passarão a pesar, sem prova de uma qualquer necessidade científica, restrições associadas a avaliações complexas e dispendiosas. Devemos, portanto, ter presente que um OGM é legalmente definido pelo método da sua obtenção e não pelas suas propriedades, o que seria mais relevante e adequado.

2 – Para mim, a melhor demonstração da “pós-verdade” sobre os OGM é a afirmação de que estes são estéreis. Este mito advém de uma extrapolação abusiva: das patentes que descrevem abordagens para a produção de sementes estéreis. No entanto, no terreno, nenhuma cultura é estéril nesta categoria regulamentar de “OGM”.

3 – A “pós-verdade” não necessita de ser coerente: estas alegações de esterilidade estão em manifesta contradição com outras que afirmam que os OGM vão disseminar-se por todo o lado. É, portanto, preciso escolher entre: os OGM são “estéreis” ou são “invasivos”! Na verdade, nenhum dos casos é verdadeiro.

4 – O agricultor deixaria de ter o direito de voltar a semear uma parte da sua colheita por causa das patentes. Este argumento permitiu aos opositores mobilizar uma parte da Sociedade Civil contra os OGM dramatizando a temática da “propriedade” das sementes, e do “controlo da nossa alimentação”. No entanto tudo isto é falso: de facto, a legislação Europeia sobre as patentes associadas a descobertas biotecnológicas permite ao agricultor produzir sementes para uso próprio (ver a Directiva Europeia 98/44/EC e o artigo 14 do regulamento (CE) n° 2100/94).

5 – Uma mentira relacionada com a anterior é a de que um agricultor poderia ser forçado a pagar direitos sempre que um OGM germina, por acaso, na sua propriedade. Na realidade, em nenhum país um agricultor pagou direitos, se vestígios de OGM foram detectados no seu campo, por exemplo, como consequência de uma polinização acidental proveniente de um campo vizinho. Este mito foi construído em torno do agricultor canadiano Percy Schmeiser. Os lobbies anti-OGM exploraram habilmente a narrativa sobre o “pequeno bom agricultor” (David) e a “grande maléfica multinacional” (Golias) no seguimento de um processo judicial da Monsanto contra Scheimer. Na realidade, a justiça canadiana estabeleceu que esse agricultor tentou deliberadamente apropriar-se de sementes sem pagar os direitos devidos, de acordo com a legislação canadiana.

6 – Os OGM seriam uma farsa, pois não aumentariam as produtividades. Convém salientar que estes organismos foram melhorados sobretudo para evitar perdas de produtividade causadas por insectos herbívoros ou por ervas daninhas. A realidade é que cerca de 18 milhões de agricultores de 26 países (incluindo 19 países em desenvolvimento) escolheram livremente utilizar variedades GM (o que não é o caso da maioria dos agricultores dos países europeus).

7 – Existiriam estudos que teriam demonstrado a existência de efeitos tóxicos dos OGM na alimentação. Se fosse o caso e sabendo que numerosos países usam OGM para alimentar o seu gado desde 1996, tal teria sido constatado pelos criadores de gado e veterinários há muitos anos atrás. Para perceber as manipulações efectuadas sobre este assunto, basta examinar as fotografias disseminadas pelo investigador e activista Séralini em Setembro de 2012: todo o mundo viu na internet as fotos de ratos com tumores monstruosos. Serão eles uma prova? Vejamos as fotos com mais detalhe: um rato terá sido alimentado com um OGM, outro com um herbicida e o terceiro terá sido alimentado com OGM e com o herbicida (durante 2 anos, tempo superior à expectativa da sua média de vida). Mas, onde estão os ratos controlo ou testemunhas (sem terem consumido OGM ou sem terem ingerido o herbicida)? Os ratos controlo nunca foram mostrados pelo seguinte motivo: também tinham tumores, simplesmente, porque esta linhagem de ratos desenvolve tumores quando começa a envelhecer.

8 – Outra “pós-verdade”: não se sabe nada sobre os insecticidas produzidos pelos OGM. De facto, algumas culturas (como o milho MON810, que obteve autorização Europeia em 1998) foram melhoradas para produzir internamente uma proteína com efeitos extremamente específicos contra certos insectos herbívoros (as brocas no caso do milho). O mesmo princípio activo combate igualmente as pragas de insectos na agricultura (inclusive na agricultura biológica) e na jardinagem, neste caso através da pulverização. E isto há seis décadas! Sem que se tenha detectado qualquer problema!

9 – Induzirão os OGM o desenvolvimento de “super” ervas daninhas? De facto, se se utilizar o mesmo herbicida (ou qualquer outro produto) ano após ano, serão selecionadas populações tolerantes a esse herbicida nas plantas-alvo. Nada de novo, nem específico quando se utilizam OGM. É o que acontece com todos os herbicidas utilizados. O problema advém de uma má gestão agrícola destes procedimentos e não do facto de se utilizar, ou não, uma variedade considerada dentro da categoria jurídica “OGM”.

10 – Os OGM não seriam suficientemente estudados ou seriam estudados apenas pelas empresas. De facto, as avaliações impostas pela presente legislação Europeia são desproporcionadas e continuam a ser cada vez mais exigentes, sem razão científica. Independentemente das empresas, a investigação pública em muitos países realizou estudos em todos os domínios (nomeadamente nas áreas da saúde e do ambiente). Foram efectuados milhares de estudos. Um dos exemplos são os estudos toxicológicos levados a cabo pelo projecto europeu GRACE, cuja execução foi especificamente solicitada pela Comissão Europeia. Estes estudos demonstram não existir justificação para qualquer tipo de alarmismos.

A “pós-verdade” usa uma estratégia deliberada, infelizmente muitas vezes com sucesso, aplicada em muitos domínios técnicos, desde a Biologia (as biotecnologias verdes como os OGM, mas também as vacinas), à Química (os pesticidas são um grande clássico dos apregoadores do medo) ou ainda à Física (especialmente no domínio da energia). O ponto comum? O desejo de introduzir areia na engrenagem da economia por alguns activistas políticos. Ou explorar temores demagógicos. Ou retirar empresas concorrentes do mercados. Estas três vertentes aparecem muitas vezes associadas. De facto a “pós-verdade” é uma das maiores ameaças actuais à democracia.

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* Marcel Kuntz – Formado em Biologia, Director de investigação do CNRS, Professor na Universidade Grenole-Alpes (UGA), especialista em biotecnologias agrícolas. Desenvolve também trabalho sobre as relações entre ciência e sociedade, numa perspectiva histórica.

Artigo disponível em Polaco e em Francês

 

 

7 Mar | Prof. Montagu | “Pai” da 1º Planta Transgénica no ITQB, Oeiras

Marc Van Montagu
Marc Van Montagu | Por ViB

Seminário 
Plant Sciences: Discover, Innovate, communicate with Society
7 Março 2016 – 11h30 | Marc Van Montagu

O Professor Doutor Marc Van Montagu, considerado o “Pai” da primeira planta transgénica, estará em Portugal no próximo dia 7 de Março de 2016, pelas 11h30, para apresentar o seminário Plant Sciences: Discover, Innovate, communicate with Society, no ITQB NOVA, em Oeiras (na antiga Estação Agronómica Nacional).

Montagu e o seu colega Jeff Schell descobriram o mecanismo de transferência de genes entre a bactéria Agrobaterium e plantas, do que resultou o desenvolvimento da primeira planta transgénica. Essa descoberta abriu caminho para a tremenda evolução da investigação em Plantas durante as últimas três décadas. Em 2013, Marc Van Montagu recebeu o World Food Prize 2013, considerado um prémio equivalente a um “Nobel” na área da Alimentação e da Agricultura. O Professor Montagu é o mais reconhecido cientista vivo na área das Plantas.

Este seminário realiza-se no âmbito da Cerimónia de Abertura do 2º ano do Programa de Doutoramento “Plants for Life” do ITQB NOVA – Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa.

A entrada é livre. Instruções para chegar ao ITQB AQUI

 

MAIS INFORMAÇÕES

Montagu-e-a-equipa-ha-30-anos-sofiafrazoa-2013
Fotografia de uma antiga foto de Marc Van Montagu e equipa de investigadores há mais de 30 anos | Por Sofia Frazoa, 2013

 

Transgénicos: Resposta do CiB a deputado do PAN

Maçaroca de Milho convencional com broca - CiB
Exemplo de Maçaroca de Milho Transgénico (geneticamente modificado) versus Maçaroca de Milho Convencional atacada por broca e fungos (pragas).

Resposta do Presidente do CiB – Centro de Informação de Biotecnologia e investigador de Biotecnologia de Plantas (FCUL e ITQB NOVA), Professor Doutor Pedro Fevereiro, ao artigo de opinião do deputado André Silva do PAN (publicado no jornal Público.pt):

O Centro de Informação de Biotecnologia (CiB) foi ouvido pela Comissão de Agricultura da Assembleia da República, onde em 10 minutos (não mais) teve que responder a cerca de 40 perguntas de 5 deputados diferentes, entre os quais o senhor André Silva. Deputado que apesar de solicitado, se recusou a receber o CiB para discutir o tema em questão. Grotesco é, portanto, a queixa de que não lhe foi dada resposta. Quando a pergunta mais relevante era se o presidente do CiB era pago pela “Monsanto”. Grotesca é a perspectiva de que apenas os OGM são sujeitos ao uso de pesticidas. Grotesca é a continua desinformação que é veiculada por arautos do “ambientalismo purificador” enquanto usam plataformas informáticas que permitem lucros milionários. Grotesca é a forma trauliteira com que se dirigem a terceiros, porque alcandorados a deputados, sem respeito pelo trabalho e opinião dos outros. Grotesco é o facto de transmitir mensagens falsas, sem qualquer suporte científico e técnico. Grotesco é não saber e não querer saber nada de agricultura e de alimentação e poder estar sentado numa comissão sobre o tema. Grotesco é deturpar informações e dizer que na Argentina há problemas com o glifosato, quando em Portugal 70% de todos os herbicidas utilizados são à base de glifosato, por este ser o menos tóxico de todos os disponíveis no mercado. E que é utilizado em jardins públicos e privados, sem qualquer prejuízo para a saúde humana e animal quando devidamente utilizado. Grotesco é pensar que pode falar pelos agricultores, sem os ouvir e sem saber da sua experiência do uso das variedades geneticamente modificadas. Claro: da sua poltrona citadina e confortável, é bem simples divulgar balelas e esperar retorno, na forma de votos, na expectativa que a demagogia funcione.

O artigo original de André Silva no Público.pt está disponível AQUI

 

Artigo de Opinião – OGM: Bom Senso ou Hipocrisia?

Opiniao Jaime Picarra - 5fev2016

OGM: Bom Senso ou Hipocrisia?

Jaime Piçarra (Eng. Agrónomo)
AgroVida – Semanário Económico

5 Fevereiro 2016

Depois de 20 anos de utilização a nível mundial, com crescente adoção nos principais países exportadores de matérias-primas para a alimentação animal, a Biotecnologia Agrícola, mais concretamente, os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) continuam a ser objeto de grande controvérsia, numa discussão que já nada tem de científico, sendo claramente política e ideológica. Curiosamente, a biotecnologia é utilizada em inúmeros setores, desde logo na saúde (insulina), sem que ninguém a questione. Na União Europeia, o milho transgénico foi autorizado em 1998 e em Portugal, em 2005, há exatamente 10 anos, iniciou-se o seu cultivo regular. Depois de intermináveis debates e inúmeros estudos, com larga experiência de campo e de consumo a nível mundial, a controvérsia tende a subir de tom na Europa, como se fosse possível não ter em conta toda a experiência e monitorização, os interesses de produtores, utilizadores e consumidores, o impacto no ambiente, nos mercados e na competitividade dos sectores, o direito á informação, à liberdade de escolha e, sobretudo, as avaliações científicas efectuadas pela EFSA, a Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos.

Será que podemos ignorar que estas plantas são cultivadas por 18 milhões de agricultores em todo o mundo, 90% dos quais pequenos agricultores, em 181.5 milhões de hectares? Que as principais matérias-primas para a alimentação animal, desde logo a soja, que a Europa não produz, é cerca de 90% GM? Que vivemos numa economia globalizada, com normas estabelecidas na OMC, ou em acordos comerciais bilaterais, e que temos um Mercado Único na União Europeia? Que estão definidas regras muito claras de rotulagem para os alimentos compostos para animais e para os géneros alimentícios? Que os eventos autorizados para cultivo e importação, são avaliados com grande rigor, não só na União Europeia como nos países exportadores (Estados Unidos, Argentina, Brasil, Canadá… que connosco competem nos mercados do leite, carne e ovos), sendo apenas autorizados quando se comprovam que não têm maiores riscos e são tão seguros para a saúde, humana ou animal e ambiente, como os seus congéneres convencionais? Que Portugal tem uma legislação sobre a coexistência que é particularmente exigente, quer para os que optam pela agricultura convencional, pelo milho geneticamente modificado (cujas práticas e formação assumem grande rigor e responsabilidade) ou pela agricultura biológica, não se tendo verificado quaisquer incidentes que ponham em causa a eficácia da mesma?

Nos últimos meses, o dossier dos OGM conheceu uma evolução significativa, com sinais contraditórios: ao nível do cultivo, a decisão de proibir ou autorizar, passou para a competência dos Estados-membros (EM); a introdução de uma proposta da Comissão no sentido de deixar ao critério de cada País a possibilidade de importar matérias-primas GM; a constatação, da parte do Provedor Europeu de Justiça, de que a Comissão atrasou deliberadamente as aprovações de novos eventos devido à ausência de consensos dos EM, recomendando o rigoroso cumprimento da Lei; em Portugal, já em janeiro de 2016, a apresentação de vários projetos de Lei visando a proibição da cultura de milho geneticamente modificado; por último, a apresentação, em Bruxelas, de um parecer dos serviços jurídicos do Conselho que considera que a proposta da Comissão é contrária aos princípios do Mercado Único e da OMC, reforçando os argumentos, de todas as organizações europeias e do Parlamento Europeu, que, pelo impacto fortemente negativo para os interesses da União, se assumiram contra o projecto de Bruxelas, solicitando à Comissão a sua urgente retirada.

Felizmente, no nosso País, a Assembleia da República recusou a proibição pretendida pelo Bloco, PCP, PEV e PAN, demonstrando um enorme bom senso e uma aposta no conhecimento, na ciência e investigação, na liberdade de escolha e na melhoria da competitividade da agricultura e do sector agroalimentar. Sem esquecer a precaução, a avaliação e monitorização.

Numa Sociedade que julga ser possível viver com risco zero, o debate na Europa tem sido marcado pelo ruído e pela manipulação. Por movimentos que recusam tudo o que não seja coerente com a sua linha de pensamento e que consideram apenas como aceitável as suas regras, em nome do ambiente, do bem-estar animal ou da saúde pública. Mas essas bandeiras, não são, não podem ser, exclusivos dos que defendem a agricultura biológica, dos ambientalistas ou dos partidos de esquerda. São de todos aqueles que, tal como nós, se preocupam com o futuro da Agricultura enquanto motor da economia nacional, da Sustentabilidade. Da utilização de todas as tecnologias que permitam a criação de emprego e de riqueza, a construção de uma Sociedade melhor.

Por agora, parece ter ganho o bom senso mas a hipocrisia espreita a todo o momento, podendo acrescentar mais crise à crise. De valores e atraso tecnológico. É que o dossier dos OGM, qual “via-sacra”, continuará no centro da agenda política.

Versão também disponível em ESPANHOL e em INGLÊS

OGM – “E agora, que vão dizer os opositores aos Transgénicos?” por António Coutinho

Artigo de Opinião de António Coutinho (ex-director do Instituto Gulbenkian de Ciência 1998-2012, presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa) no Jornal Observador
Artigo de Opinião de António Coutinho – ex-director do Instituto Gulbenkian de Ciência 1998-2012, presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa – no Jornal Observador

“E agora, que vão dizer os opositores aos TRANSGÉNICOS?”

4 Agosto 2015 – António Coutinho in Jornal Observador

Por António Coutinho, ex-director do Instituto Gulbenkian de Ciência 1998-2012, presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa

«Lobby muito poderoso e vocal, promotor frequente de arruaças, o “movimento anti-transgénico” é fruto de uma total irracionalidade. “Se os factos acima não são suficientes, podemos juntar muitos outros. Aqui ficam os mais óbvios.»

Há ambientalistas que respeitam a racionalidade e conhecem a ciência, mas também há ambientalistas que se guiam apenas por chavões adoptados de interesses politiqueiros ou mesmo arruaceiros, sem fazerem a mínima ideia do que estão a falar. Têm o seu direito, naturalmente, longe de mim a ideia de proibir esta, entre tantas outras, irracionalidades. Na batalha contra a ignorância e a superstição não há melhor arma que a educação. E terá de ser por aí que os faremos desaparecer. Preocupa-me, todavia, que o “peso” mediático e consequentemente político dos lobbies que constituem tem graves consequências para o progresso do conhecimento e da economia.

A invenção da agricultura há uns 10.000 anos foi dos passos mais críticos na história da humanidade, permitindo entre muitas outras coisas, a sedentarização, a emergência das cidades e da cultura, da filosofia e da ciência. Como é bem sabido, a agricultura trouxe aos que a praticavam uma enorme vantagem competitiva, como o demonstra a sua progressão inexorável do crescente fértil até ao ocidente da Europa: os agricultores não ensinaram o que sabiam aos caçadores-recolectores, ou estes não quiseram (ou não souberam) aprender.

Os agricultores foram avançando e substituindo os povos anteriores nos espaços que eles ocupavam, alterando para sempre a composição genética das populações europeias. Mas a agricultura não foi inventada apenas no Médio Oriente; sabemos que apareceu independentemente em pelo menos mais uns 4 ou 5 lugares por esse mundo, dando de novo lugar à proeminência dos seus praticantes. O mesmo se passa, de resto, com espécies “sociais” de outros animais: muitas dezenas de espécies de formigas “inventaram” a agricultura e, também aqui, nenhuma destas “reverteu” para uma forma de vida e organização social sem agricultura.

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