Farm to Fork| CE apresenta estratégia para tornar cadeia alimentar mais sustentável

A Comissão Europeia (CE) apresentou, na semana passada, a Estratégia Farm to Fork ,(Do Prado ao Prato) que pretende tornar mais sustentável toda a cadeia alimentar na União Europeia. A investigação e inovação é um tema com uma abordagem geral em todo o documento , mas há uma parte que faz uma referência específica à biotecnologia.

”As alterações climáticas trazem novas ameaças à saúde das plantas. O desafio da sustentabilidade exige medidas para proteger melhor as plantas contra pragas e doenças emergentes e inovação. Novas técnicas inovadoras, incluindo biotecnologia e desenvolvimento de produtos de base biológica, podem desempenhar um papel no aumento da sustentabilidade, desde que sejam seguras para os consumidores e para o meio ambiente, trazendo benefícios para a sociedade como um todo. Também podem acelerar o processo de redução da dependência de pesticidas”, lê-se no documento.

Em resposta ao pedido dos Estados-Membros, o comunicado de imprensa da CE refere que a Comissão está a realizar um estudo que analisará o potencial das novas técnicas genómicas para melhorar a sustentabilidade ao longo da cadeia de abastecimento alimentar.

A estratégia dá importância à Investigação e inovação (I&I) como fatores-chave para acelerar a transição para sistemas alimentares sustentáveis, saudáveis ​​e inclusivos, da produção primária ao consumo, salientando que “A I&I pode ajudar a desenvolver e testar soluções, superar barreiras e descobrir novas oportunidades de mercado.”

Na Seção 1 da estratégia Farm to Fork , é explicada a necessidade urgente da implementação das medidas propostas. Na Seção 2 são dadas indicações de como se deve construir uma cadeia alimentar funcional quer para os consumidores, quer para os produtores, e mais sustentável do ponto de vista ambiental, com menos impactos no clima global. O modo como essa transição deve ser feita está especificado na Seção 3.

Para além da estratégia “Do Prado ao Prato” (A Farm to Fork Strategy for a fair, healthy and environmentally-friendly food system), a CE apresentou também, no mesmo dia, a estratégia para a Biodiversidade 2030 ( EU Biodiversity Strategy for 2030 Bringing nature back into our lives), que define metas vinculativas para regenerar rios e ecossistemas degradados, melhorar a saúde de espécies e habitats protegidos na UE, devolver polinizadores às terras agrícolas, reduzir a poluição, tornar as cidades mais verdes, aumentar a produção agrícola “biológica” e outras práticas agrícolas que respeitem a biodiversidade e melhorem a saúde das florestas europeias.

A estratégia para a biodiversidade apresenta medidas concretas para empreender a regeneração da biodiversidade da Europa até 2030, incluindo:

– A transformação de pelo menos 30% das terras e mares da Europa em áreas protegidas e efetivamente geridas;

– A transformação de 10% (no mínimo) da área agrícola na Europa em cenários paisagísticos com caraterísticas diversificadas.

Segundo o comunicado de imprensa da Comissão Europeia, ambas as Estratégias estão em consonância com o Pacto Verde da UE, propondo “ações e compromissos ambiciosos para acabar com a perda de biodiversidade, na Europa e no mundo, e transformar os sistemas alimentares europeus numa referência e exemplo a nível global”.  

Diz ainda o comunicado da CE que a Estratégia para a Biodiversidade 2030 “funcionará em conjunto com a nova Estratégia Farm to Fork e a nova Política Agrícola Comum (PAC)”. A CE “ garantirá que os planos estratégicos da PAC sejam avaliados com base em critérios climáticos e ambientais robustos e que os Estados-Membros estabeleçam valores nacionais explícitos para os objetivos relevantes estabelecidos na Estratégia para a Biodiversidade, bem como na Estratégia Farm to Fork. Esses planos devem levar a práticas sustentáveis, como agricultura de precisão, agricultura biológica, agroecologia, agro-silvicultura, pastagens permanentes pouco intensivas e padrões mais rigorosos de bem-estar animal”.

O CiB está a preparar uma reação à estratégia  Farm to Fork , que publicaremos aqui.

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Fusariose |Descoberto gene que permite produzir trigo resistente a fungo altamente destruidor  

fungo Fusarium
À esquerda, uma linha de trigo infetada pelo fungo Fusarium graminearum; à direita, uma linha de trigo saudável. Créditos da imagem: Guihua Bai / ARS.

Investigadores da Universidade Agrícola de Shandon, na China, e do Serviço de Investigação Agrícola, nos EUA, descobriram um gene – chamado Fhb7 – que pode ser usado para desenvolver variedades de trigo mais resistentes à Fusariose, uma grande ameaça para as colheitas de trigo em todo o mundo.

A descoberta e a clonagem do gene Fhb7 é um grande avanço no controlo da doença e para continuar a garantir o fornecimento global de trigo. Provocada pelo fungo patogénico Fusarium graminearum, que se instala nas sementes, a Fusariose é responsável por significativas perdas nas colheitas de trigo, sobretudo na Europa, nos Estados Unidos, na China, no Canadá, e em muitos outros países. Além do trigo, também ataca cereais como a cevada e a aveia.

Quando o patogénico cresce sem controlo nos grãos infectados, liberta micotoxinas que podem induzir vómitos nos seres humanos, além de perda de peso nos animais que se recusam a comer os grãos. Mais: a prevalência e a gravidade dos surtos de Fusariose também podem ser potencialmente exacerbadas pelas alterações climáticas e pela tendência crescente de aumentar a produção de milho e o plantio direto, porque isso, alertam os cientistas, pode levar a uma maior prevalência do patogénico nos campos agrícolas.

Para reduzir os danos causados ​​pela Fusariose, os produtores usam geralmente fungicidas. Mas se os autores deste estudo estiverem certos ao afirmarem que “o gene Fhb7 reduz efetivamente o ataque do fungo, desintoxicando as micotoxinas secretadas pelo patogénico”, melhores dias virão para a produção mundial não só de trigo como também de cevada e aveia.

Segundo os investigadores, este estudo lança uma nova luz sobre os mecanismos moleculares que podem tornar o trigo, a cevada e a aveia resistentes ao patogénico que causa a Fusariose. Os autores do estudo esperam que novas variedades de trigo com melhor resistência à doença, usando o Fhb7, estejam disponíveis daqui a alguns anos.

Para mais informações, leia o artigo científico publicado no dia 10 de abril na revista Science e USDA ARS.

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Edição do genoma | CRISPR-Cas12b é a nova ferramenta CRISPR 3 em 1

CRISPR-Cas12b
Créditos: National Institutes of Healthn

A maior parte das pessoas que já ouviram falar em CRISPR pensa em CRISPR-Cas9. No entanto, investigadores da Universidade de Maryland, nos EUA, estabeleceram um novo sistema CRISPR para a edição do genoma de plantas. O CRISPR-Cas12b é versátil, personalizável e permite a edição, a ativação e a repressão eficaz de genes. Tudo, num único sistema.

Liderada por Yiping Qi, a equipa de investigadores da Universidade de Maryland, nos EUA, está constantemente a explorar novas ferramentas CRISPR mais eficazes, mais eficientes e mais sofisticadas para ajudar a controlar as doenças e pragas em diferentes culturas agrícolas e a mitigar os efeitos das alterações climáticas. Numa publicação na Nature Plants, estes investigadores estabeleceram, pela primeira vez, um novo sistema CRISPR para edição do genoma de plantas. Chama-se CRISPR-Cas12b e além de versátil e personalizável, é uma espécie de três em um: edita, ativa e reprime os genes. Tudo isto num único sistema.

Segundo Qi, esta é a primeira demonstração do CRISPR-Cas12b para edição do genoma de plantas focado não apenas na edição, mas também na ativação e repressão dos genes – este conjunto completo de métodos não está presente noutros sistemas CRISPR para aplicação em plantas como o CRISPR-Cas9 e o CRISPR-Cas12a.

Embora o CRISPR-Ca12a seja muito semelhante ao CRISPR-Cas12b, nunca demonstrou uma forte capacidade na ativação de genes em plantas. Já o CRISPR-Cas12b é mais eficiente na ativação de genes e permite locais de segmentação mais amplos para a repressão genética, tornando-o útil nos casos em que a expressão genética de uma característica precisa de ser ativada, desativada ou recusada. Esta capacidade confere ao CRISPR-Cas12b uma vantagem sobre o CRISPR-Cas12a, principalmente quando a ativação do gene é o objetivo. O CRISPR-Cas12b mantém aquilo que o CRISPR-Cas12a poderia fazer pelas plantas, incluindo a capacidade de personalizar cortes e a regulação de genes numa ampla gama de aplicações.

Qi e a sua equipa foram capazes de redirecionar o sistema CRISPR-Cas12b para a edição do genoma multiplexado, possibilitando o direcionar múltiplos genes em simultâneo numa única etapa.

Mais informações na Nature Plants e no comunicado de imprensa da Universidade de Maryland

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Alimentação | Edição genética de plantas entre as soluções apontadas pelos cientistas

o futuro da alimentação SIC

Os efeitos das alterações climáticas na produção global de alimentos e o aumento da população previsto para daqui a poucos anos estão a pressionar as nações para encontrarem respostas a estes problemas emergentes. Ciência e indústria apresentam algumas soluções. Saiba quais n’ O futuro da alimentação, na Grande Reportagem SIC.

“Nas receitas que a ciência e a indústria preparam para o jantar de amanhã, a lista de ingredientes é diversa: carne produzida em laboratório a partir de células de animais. Edição genética de plantas. Proteínas vegetais que parecem proteínas animais. Insetos. Mudanças nos nossos hábitos de consumo e de produção que permitam reduzir o desperdício alimentar (1/3 de tudo o que produzimos acaba no lixo) e prevenir as doenças evitáveis que matam cada vez mais por excessos alimentares.”

1º episódio: https://sicnoticias.pt/…/2020-02-20-O-que-e-o-jantar-amanha-

“A agricultura pode reiventar-se para garantir alimentos para todos? A manipulação genética de plantas ajudará a reduzir o impacto no planeta? E a nanotecnologia, que papel terá na produção e distribuição de alimentos? Quando chegarão os insetos ao nosso prato? Em 2050, seremos 10 mil milhões de pessoas à mesa. Como garantir segurança alimentar, respeitando os limites do planeta? As respostas da ciência e da indústria no segundo episódio da Grande Reportagem SIC “O que é o jantar amanhã?”.

2º episódio: https://bit.ly/3cbXWPV

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Aquecimento global | Bactérias convertem CO2  em biomassa 

E.coli
Representação esquemática da E. coli quimio-autotrófica sintética projetada

Em Israel, os investigadores conseguiram transformar a bactéria E. Coli em organismos capazes de metabolizar um dos principais gases com efeito de estufa. Os resultados deste trabalho pioneiro na diminuição da emissão de CO2  foi publicado recentemente na Cell Reports.

Investigadores israelitas do Instituto de Ciência Weizmann, em Rehovot (perto de Telavive), conseguiram criar uma linhagem de bactérias capazes de metabolizar dióxido de carbono (CO2 ). O novo organismo pode ser usado em tecnologias de combate às emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE), como se lê nos resultados publicados há dias na revista científica Cell Reports.

Ao conseguirem alterar o metabolismo da bactéria Escheria coli (E.coli), a causa mais comum de infeções urinárias no mundo, os investigadores conseguiram que a E.coli converta carbono orgânico em CO2. “De uma perspectiva científica básica, queríamos ver se é possível uma transformação tão grande na dieta de bactérias — da dependência do açúcar à síntese de toda a biomassa do CO2. Além de testar a viabilidade de tal transformação no laboratório, queríamos saber quão extrema é a adaptação em termos de mudanças no modelo de DNA bacteriano”, explicou o investigador Shmuel Gleizer, do Instituto de Ciência Weizmann.

Mas esta capacidade da bactéria E. coli, que os investigadores já apelidaram de  ‘cavalo de batalha da biotecnologia’, não permite apenas reduzir a libertação de gases para a atmosfera. Acreditam os investigadores que é um passo importante também na produção mais sustentável de alimentos: “O nosso principal objetivo era criar uma plataforma científica que pudesse aprimorar a fixação de CO2, o que poderia ajudar a enfrentar os desafios relacionados com o aquecimento global das temperaturas provocado pelas emissões de CO2 e com a produção sustentável de alimentos e de combustíveis”, afirmou o biólogo de sistemas Ron Milo, um dos autores deste estudo.

Financiado pelo Conselho Europeu de Pesquisa, pela Fundação Israelite de Ciência e por outras seis entidades de incentivo à pesquisa dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, este estudo descreve, pela primeira vez, uma transformação bem-sucedida do modo de crescimento de uma bactéria. “Ensinar uma bactéria intestinal a replicar os truques das plantas era um verdadeiro tiro no escuro. Quando começamos o processo evolutivo direcionado, não tínhamos ideia das possibilidades de sucesso e não havia precedentes na literatura para nos guiar ou sugerir a viabilidade de uma transformação tão extrema. Foi surpreendente verificar, no fim, como foi relativamente pequeno o número de mudanças genéticas necessárias para fazer essa transição”, argumentou Shmuel Gleizer.

Apesar dos resultados otimistas, são necessários mais investigações antes de se considerar o uso industrial desta descoberta. É que, como também é revelado no estudo, “o consumo de formiato por bactérias liberta mais CO2 do que o consumido pela fixação de carbono.”

Em investigações futuras, os cientistas querem encontrar uma solução para o problema das emissões de CO2 através da produção de energia renovável. “Isto abre uma nova e empolgante perspetiva de usar bactérias manipuladas para transformar produtos, que consideramos resíduos, em combustível, alimentos ou outros compostos de interesse. Também pode servir para entender e melhorar as máquinas moleculares que são a base da produção de alimentos e ajudar no futuro a aumentar a produtividade na agricultura”, acrescentou Ron Milo.

Leia o estudo original aqui.

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Media|CiB promove ação de formação sobre edição do genoma

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Créditos da imagem: Natali_Mis

Tal como em anos anteriores, o CiB-Centro de Informação de Biotecnologia vai realizar mais um workshop de formação para jornalistas e comunicadores de ciência, desta vez sobre “Edição do genoma- aplicações na medicina e na produção de alimentos”. Esta ação de formação terá lugar na manhã do dia 18 de novembro, no ITQB NOVA, em Oeiras, e contará como formadores Ana Sofia Coroadinha e Pedro Fevereiro, investigadores e professores auxiliares no ITQB NOVA.

O CiB – Centro de Informação de Biotecnologia convida todos os jornalistas, em especial os que trabalham na área da medicina, agricultura, nutrição e ambiente, a participar no workshop de formação para jornalistas sobre “Edição de genomas – aplicações na medicina e na alimentação”, que se realizará no dia 18 de novembro, entre as 11:00H e as 13:00H, no 4º piso do ITQB NOVA-Instituto de Biotecnologia Química e Biológica António Xavier, da Universidade Nova de Lisboa, em Oeiras.

A formação aos jornalistas estará a cargo de Ana Sofia Coroadinha, Professora Auxiliar e investigadora no ITQB NOVA/IBET, que irá falar sobre “As potencialidades da edição de DNA na cura de doenças genéticas”, e de Pedro Fevereiro, Professor Auxiliar e investigador no ITQB NOVA, com o tema “CRISPR-Cas9 e outras ferramentas de edição de genomas para uma produção de alimentos mais sustentável.”

A edição de genomas é um tema controverso, não obstante os resultados bastante promissores em diferentes áreas de aplicação. Na medicina, permite perspetivar a correção de 89% das doenças genéticas humanas conhecidas. Na agricultura, esta tecnologia garante uma produção mais sustentável de alimentos e um aumento da eficiência do melhoramento vegetal, o que, atualmente, se afigura pertinente e da maior importância para fazer face aos efeitos das alterações climáticas e do aumento da população mundial. A edição de genomas é apontada pelos investigadores como uma das chaves cruciais para muitos dos problemas relacionados com a medicina, produção de alimentos e ambiente.

Sobre os oradores:

Ana Sofia Coroadinha é Professora Auxiliar no ITQB NOVA/IBET, tendo como principal área de investigação o desenvolvimento e aprimoramento de linhas de células animais para a produção de biofármacos complexos, como proteínas recombinantes e partículas virais recombinantes para vacinas e terapia genética.

Pedro Fevereiro é Professor Auxiliar com Agregação do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e diretor do Laboratório de Biotecnologia de Células Vegetais no ITQB NOVA, tendo como áreas de investigação a Biotecnologia Vegetal, Engenharia Genética Vegetal, Diversidade Molecular e Genética de Plantas e Purificação e Caracterização de Enzimas Vegetais

 

Localização do ITQB Nova:

Avenida da República, Oeiras

http://www.itqb.unl.pt/contacts/itqb_location

Para mais informações e confirmação de presença, por favor contacte:

Carla Amaro

Gabinete de Comunicação | Communication Office

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CiB – Centro de Informação de Biotecnologia, Portugal
E-mail – gabcom@cibpt.org

Tel. +351 21 446 9768 // +351 91 266 3482

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Opinião | Não faz sentido ignorar a ciência: OGM e o dilema do PE*

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Crédito da imagem: MJ Graphics / Shutterstock 

“A Europa parece cada vez mais preparada para enfrentar os desafios do século XXI e liderar o caminho para um futuro “mais verde” e mais sustentável. Em lado nenhum isso é mais visível do que nas aspirações da nova Comissão Europeia de delinear um “Acordo Verde” e uma estratégia “Farm to Fork” com o objetivo de garantir o acesso da Europa a alimentos seguros, nutritivos e sustentáveis ​​num futuro próximo. Mas que papel o Parlamento Europeu (PE) pode desempenhar perante as recentes “objeções” sem fundamento contra os OGM (Organismos Geneticamente Modificados)?

As universidades europeias de Ciência afirmaram: “Há evidências convincentes de que as variedades agrícolas geneticamente modificadas (GM) podem contribuir alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável, com benefícios para agricultores, consumidores, economia e meio ambiente”. [1] Além disso, um relatório da Organização para a Agricultura e a Alimentação de 2016 [2] confirma que as biotecnologias agrícolas podem ajudar os pequenos produtores a serem mais resilientes e adaptarem-se às mudanças climáticas. Mas os europeus, incluindo alguns membros do PE, estão, no entanto, confusos. Desconfiam dos OGM, desconfiam dos organismos da UE encarregados da sua avaliação e desconfiam da ciência em geral.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), a Comissão Europeia e mais de 280 instituições científicas e técnicas em todo o mundo [3] declararam que os OGM são pelo menos tão seguros quanto as variedades agrícolas convencionais. Além disso, em quase 25 anos de comercialização, mostraram que os OGM oferecem uma infinidade de benefícios: permitem, por exemplo, que os agricultores cultivem mais alimentos usando menos recursos, como água, terra e energia, do que as culturas convencionais ou até biológicas. Significa que os agricultores que escolhem cultivar variedades GM – onde, face às características do solo e do clima, é conveniente usá-las – estão a preservar a biodiversidade em redor e a mitigar alguns dos efeitos das mudanças climáticas. Os benefícios da utilização de variedades agrícolas transgénicas estão bem documentados, mesmo na Europa, apesar do cultivo de OGM ser muito limitado neste território. Em Espanha, nos últimos 21 anos, o milho GM provou aumentou os rendimentos dos agricultores [4], tornando o País menos dependente das importações de milho. Resultados semelhantes foram observadas na Roménia entre 1999 e 2006, antes da proibição da soja GM neste País como resultado da sua adesão à UE. [5]

O recém-eleito Parlamento Europeu (PE) deverá trazer consigo um raio de esperança. Espero que a Europa tome medidas adequadas ao conhecimento científico atual para enfrentar os desafios globais, entre os quais as alterações climáticas e a insegurança alimentar. E os OGM – e a biotecnologia em geral – podem e devem fazer parte da solução. Infelizmente, após uma alteração de mais de 60% dos deputados europeus, as objeções do PE aos OGM, que começaram há vários anos, continuaram, com alguns deputados atribuindo as culpas aos OGM por muitos dos desafios globais que enfrentamos hoje.

As evidências mostram que o cultivo de OGM levou a uma redução de 37% na aplicação de produtos químicos agrícolas e mostram muito mais quando se trata de culturas GM resistentes a insetos. [6] O seu uso aumentou muito a segurança agrícola e ambiental: por exemplo, nos países em desenvolvimento, reduziu significativamente as taxas de suicídio e de intoxicação por pesticidas em pequenas propriedades agrícolas [7].

Acresce que o aumento da produção por hectare associado aos OGM poupa a pressão nas terras vizinhas, incluindo as florestas tropicais. Seja para alimentação animal ou para consumo humano direto, faz sentido fazer um cultivo eficiente para evitar a conversão adicional da terra. Um relatório recente do ISAAA [8] mostra que, entre 1996 e 2016, as culturas biotecnológicas pouparam 183 milhões de hectares de terra (22,5 milhões de hectares de terra apenas em 2016), conservando a biodiversidade e reduzindo as emissões de CO2. Em 2016, a poupança nas emissões de dióxido de carbono foi de 27,1 bilhões de kg, o equivalente a retirar 16,7 milhões de veículos das estradas a cada ano.

Hoje em dia, a realidade na Europa é que a maioria das pessoas usa algodão GM e come uma variedade de produtos alimentares produzidos com a ajuda da biotecnologia, incluindo OGM. Além dos muitos benefícios que os consumidores europeus usufruem todos os dias, os agricultores de outros continentes (da América, África e Ásia) estão a ser empoderados pela biotecnologia, entre os quais milhões de pequenos agricultores asiáticos que cultivam transgénicos. Embora, historicamente, os OGM tenham sido usados ​​para produzir soja, milho e colza para alimentação animal, atualmente os OGM também são usados ​​para consumo humano, melhorando a saúde e a nutrição das pessoas, evitando o desperdício de alimentos e tornando as culturas mais resistentes à seca e às doenças.

Então, por que ninguém fala dos benefícios dos OGM?

O facto é que, embora o Parlamento Eropeu esteja parcialmente implicado nas campanhas de desinformação de alguns ativistas anti-OGM, aceitando-as, os estados membros da UE também estão aquém das suas responsabilidades. Apesar de já beneficiarem das vantagens económicas dos OGM, países como Alemanha, França, Itália e Polónia não votaram a favor da aprovação de produtos OGM seguros, nem para importação. Este comportamento eleitoral, a que se soma a falta de apoio do PE e o fracasso geral das instituições da UE em combater a desinformação sobre os OGM, é a principal razão pela qual a Europa expulsou efetivamente a inovação agrícola nesse campo, o que prejudica e mina a confiança nos procedimentos de avaliação de segurança alimentar da UE. Uma decisão do Tribunal de Justiça da UE de julho de 2018, em que equipara os OGM aos produtos em que foi aplicada a edição de genoma, torna esta situação ainda mais insustentável.

Embora a Europa possa, em certa medida, permitir-se – temporariamente – ignorar a ciência e a tecnologia, é irresponsável e injusto demonizar os OGM e impedir que o mundo em desenvolvimento faça uso desses produtos. Em tempos como estes, é necessário que os líderes políticos defendam a ciência e apoiem os factos científicos divulgados pelas agências da UE responsáveis ​​por avaliar a segurança dos OGM. O Parlamento Europeu deve agora definir uma nova direção para a inovação na agricultura, apoiando, inclusive, a aprovação de produtos GM seguros, de acordo com evidências e procedimentos democraticamente adotados.

Chegou a hora de uma nova geração de decisores políticos europeus aproveitar todo o potencial dos OGM em benefício das pessoas e do planeta. A EuropaBio, representando a indústria de biotecnologia, está comprometida em comunicar esses benefícios. Instamos todos os decisores políticos, que pensam que a ciência pode e deve desempenhar um papel positivo na sociedade, a ler o nosso manifesto de biotecnologia agrícola e a juntarem-se a nós nessa missão.”

*Este texto é uma tradução integral de um artigo (em inglês) escrito por Beat Späth, diretor de biotecnologia agrícola da EuropaBio, e publicado no Euroactiv.

Mais informações em:

An antidote to fear-based politics?

GMOs: Time to stand up for EU law and innovation

EU nations should overcome GMO hypocrisy

[1] http://www.easac.eu/home/reports-and-statements/detail-view/article/planting-the.html

[2] http://www.fao.org/3/a-i6030e.pdf

[3] http://www.siquierotransgenicos.cl/2015/06/13/more-than-240-organizations-and-scientific-institutions-support-the-safety-of-gm-crops/

[4] https://gmoinfo.eu/eu/articles.php?article=Insect-resistant-GM-maize-has-benefited-farmers-and-the-environment-in-Iberia-

[5] https://www.europabio.org/sites/default/files/EU_protein_GAP_WCover.pdf (p.17)

[6] https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0111629https://www.e-elgar.com/shop/handbook-on-agriculture-biotechnology-and-development and https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0921800911002400

[7] https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/pbi.13261

[8] http://isaaa.org/resources/publications/briefs/54/executivesummary/default.asp

Utopias| Os “ambientalistas simplórios” e os seus paradoxos

Já aqui partilhámos o artigo de opinião oportuno e provocador do jornalista Luís Ribeiro, publicado na revista Visão no dia 5 de junho de 2019. O mesmo artigo foi recentemente lido na íntegra pelo  jornalista da SIC José Gomes Ferreira, no programa “Negócios da Semana”, a pretexto da proibição da carne de vaca no refeitório da Universidade de Coimbra. Vale a pena assistir ao programa.

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Testes|Pastagens de azevém transgénico reduzem emissão de gases com efeito de estufa

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Investigadores da AgResearch começam a colher o azevém HME (altos níveis de energia metabolizada), cultivado em campos experimentais nos Estados Unidos. Créditos da imagem: AgResearch

Investigadores da AgResearch estão a fazer progressos nos ensaios de campo com azevém geneticamete modificado (GM). O objetivo é conseguir produzir esta gramínea forrageira com elevados níveis de energia metabolizada (HME) que permita reduzir as excreções de nitrogénio dos animais as emissões de gases com efeito de estufa.

Diminuir a libertação de gases que contribuem para o efeito de estufa é um grande problema para os agricultores, porque também se confrontam com a necessidade global de mitigar as consequências das alterações climáticas, o que não é fácil no setor agrícola, tantas vezes apontado como um dos maiores responsáveis pela degradação ambiental.

Mas este problema estar brevemente ultrapassado se a equipa de investigadores liderada pela AgResearch continuar a fazer progressos nos ensaios de campo com azevém geneticamete modificado (GM), que estão a ser realizados em pastagens nos Estados Unidos. Para já, garantem os cientistas, os resultados dos testes são encorajadores.

Todos os estudos até agora efetuados demonstraram que ao azevém geneticamente modificado estão associados benefícios ambientais e de produtividade, permitindo a diminuição das excreções de nitrogénio dos animais e, como tal, a redução da lixiviação de nitrato e das emissões de gases com efeito de estufa.

Neste caso, os investigadores estão a fazer ensaios de azevém GM com altos níveis de energia metabolizadora (HME) para descobrir se esta gramídea potencialmente sustentável do ponto de vista ambiental terá no campo o mesmo desempenho demonstrado em testes em ambientes controlados. O objetivo é “conseguir produzir azevém com as características que melhor se adaptem às condições climáticas e às propriedades do solo da Nova Zelândia”, afirma o investigador principal da AgResearch, Greg Bryan, acrescentando que no âmbito deste ensaio a sua equipa está também a  introduzir genes nas plantas que possuem padrões genéticos mais simples, que facilitarão futuros programas de melhoramento.”

Embora os resultados dos testes sejam encorajadores, Greg Bryan prefere ser cauteloso, mantendo um otimismo contido: “Trata-se de uma investigação desafiante mas também muito complexa e de longo prazo. São precisos vários anos para criar a característica HME (altos níveis de energia metabolizadora) em variedades selecionadas de azevém. Temos de testar o seu desempenho a cada passo e a caminhada é longa.”

Saiba mais neste vídeo e artigo do canal neo zelandês Newshub.

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September 2019 1
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Carta | Investigadores pedem plantação de árvores transgénicas

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Créditos da imagem: Brodie Vissers /Burst

Numa carta publicada na revista Science, quinze investigadores de vários países solicitam às organizações florestais internacionais a suspensão da proibição de plantações de árvores geneticamente modificadas (GM) em áreas florestais com certificado de sustentabilidade. Como argumento, alegam que as árvores transgénicas podem ajudar a enfrentar os desafios ambientais atuais e melhorar a manutenção de uma floresta sustentável.

“Essa restrição não faz sentido”, assegura a investigadora Sofia Valenzuela, bioquímica da Universidade de Concepción, no Chile, referindo-se à lei que proíbe o cultivo de árvores GM em áreas florestais com certificação sustentável. “As organizações sem fins lucrativos como a FSC-Forest Stewardship Council, com sede na Alemanha, atestam a gestão sustentável das florestas, colocando nos produtos feitos a partir de árvores – uma resma de papel, uma caixa de papelão, madeira – o seu logótipo.”

Um dos requisitos para obter a certificação de sustentabilidade é ser uma árvore não-GM, o que, para a investigadora chilena, trava a investigação e priva a população de usufruir dos benefícios de uma tecnologia com um grande potencial para solucionar muitos dos problemas prementes que as florestas enfrentam.

Valenzuela e mais catorze investigadores que assinam a carta publicada no dia 23 de agosto na Science garantem também que a produtividade da plantação de árvores como o eucalipto poderia aumentar significativamente com eucaliptos geneticamente modificados para alcançarem um crescimento rápido.

Mais informação no artigo da Science, no ISAAA, no FSC e no PEFC-Programme for the Endorsement of Forest Certification, que, juntamente com o FSC, certificou mais de 440 milhões de hectares de floresta no mundo.

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September 2019