Evento | “Biotecnologia Vegetal para a Sustentabilidade e Economia Global”

 

ja-ma-216495-unsplash
Créditos da imagem: ja ma, Unsplash

A Biotecnologia Vegetal pode ajudar a enfrentar os desafios de produzir mais produtos alimentícios derivados de plantas e matérias-primas, em condições mais sustentáveis ​​do ponto de vista ambiental. No seminário “Biotecnologia Vegetal para a Sustentabilidade e Economia Global”, que amanhã terá lugar no Auditório do ITQB NOVA, em Oeiras, vários exemplos serão dados e discutidos.

Num cenário de alterações climáticas e perante a necessidade de aumentar a produção global de produtos à base de plantas, a biotecnologia vegetal está a fornecer cada vez mais ferramentas para enfrentar o desafio de produzir mais produtos alimentícios e matérias-primas, aumentando os cuidados para a sustentabilidade ambiental.

Se utilizadas de maneira adequada, as ferramentas disponíveis podem ajudar a preservar os ecossistemas do planeta e apoiar uma economia de base biológica.

Neste encontro, alguns exemplos muito relevantes de investigação aplicada realizadas em duas empresas – uma no sul da Europa (Espanha) e outra em África (Uganda) – serão dados pelos cientistas responsáveis ​​e discutidos à luz do impacto que a biotecnologia teve ou pode vir ter na produção, no meio ambiente e economia.

Organizado no âmbito das comemorações do Dia Internacional do Fascínio das Plantas, este evento está integrado no Programa Internacional de Doutorado “Plants for Life”e contará com vários palestrantes convidados, entre os quais William Otim-Nape, do Instituto de Inovações da África (Kampala, Uganda) e Alfredo Mateo, da Corteva Agriscience (Sevilha, Espanha), que compartilharão as suas experiências e irão mostrar-nos duas realidades muito diferentes.

Haverá ainda lugar para um workshop, no qual os alunos do “Plants for Life” contribuirão com três estudos de caso de ameaças bióticas que afetam a produção agrícola – estado da arte e abordagens para obter proteção contra a Tuta absoluta (Bárbara Rebelo e Matilde Lopes), a Puccinia graminis ou ferrugem do caule (Maria Faustino e Merijn Moens) e a Drosophila susuki ou drosófila de asas pintadas (Hugo Alves e Diana Barata).

A presidir a esta iniciativa estará Benvindo Maçãs, criador e diretor da Unidade de Biotecnologia e Recursos Genéticos, INIAV, Portugal, e Margarida Oliveira, directora da Unidade de Investigação da FCT “Biorecursos para a Sustentabilidade” e do Plant Functional Laboratório de Genómica do ITQB NOVA.

A participação é gratuita e aberta ao público.

Programa completo aqui.

Siga o CiB no Twitter, no Facebook e no LinkedIn

 

Anúncios

Edição de genoma | Carta aberta ao ministro da Agricultura

dna-163466_1280

A CAP-Confederação dos Agricultores de Portugal e o CiB-Centro de Informação de Biotecnologia subscrevem a carta aberta aos Membros da União Europeia, na qual manifestam a sua preocupação quanto ao acórdão do Tribunal de Justiça da UE sobre Mutagénese. A carta foi também enviada a ao ministro da Agricultura de Portugal, Luís Capoulas Santos, pelas mesmas organizações.

Ex.mo Senhor Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural,

Dr. Luís Capoulas Santos,

Em baixo segue tradução da carta aberta subscrita por 27 Organizações Europeias aos Estados Membros da União sobre o acórdão do Tribunal de Justiça da UE sobre Mutagénese, assunto para o qual chamamos a atenção de V. Exa., numa época em que a confiança na ciência e no trabalho dos cientistas é crucial para fazer face aos enormes desafios que a humanidade enfrenta na atualidade.

 

Carta aberta sobre o acórdão do Tribunal de Justiça da UE sobre Mutagénese

Nós, as organizações europeias abaixo-assinadas, reiteramos a nossa preocupação relativamente ao acórdão do Tribunal Europeu de Justiça no processo C-528/16 (25 de julho de 2018), que interpreta as disposições da Diretiva OGM 2001/18 da EU de tal forma que os produtos resultantes de métodos inovadores de mutagénese direcionada poderão vir a ser indevidamente regulamentados ao abrigo da Diretiva dos OGM.

A introdução de mutações genéticas pontuais direcionadas em culturas e em outros organismos pode ajudar a alcançar importantes metas do desenvolvimento sustentável e contribuir para um ambiente mais limpo, para uma alimentação mais saudável e para a proteção da biodiversidade, tornando as culturas mais resilientes e mais resistentes às alterações climáticas.

O dispendioso e demorado processo de aprovação da UE para estes produtos, combinado com eventuais opt-out nacionais de cultivo, ao abrigo da Diretiva 2001/18, irá privar os agricultores e consumidores europeus dos seus benefícios. Além disso, o acórdão está já a dificultar a disponibilização de produtos inovadores de base biológica e soluções sustentáveis para a indústria, a agricultura e a saúde, que envolvem micro-organismos geneticamente editados. Alguns dos setores mais inovadores da UE ficarão efetivamente isolados do progresso científico e em desvantagem competitiva em comparação com um grupo de países em rápido crescimento e com legislação mais adequada.

Além de difícil de implementar, uma decisão concordante com o acórdão é virtualmente impossível de aplicar, dado que muitos dos produtos geneticamente editados não serão distinguíveis de produtos modificados por processos naturais ou por técnicas de melhoramento convencionais, como já foi reconfirmado pelo relatório “Detecção de produtos vegetais para alimentos e rações obtidos por novas técnicas de mutagénese”, realizado pelo Joint Research Center e publicado em 26 de março de 2019.

O relatório destaca dois aspetos de grande importância:

1) “Para alterações não-únicas que afetam um ou poucos pares de bases de DNA, um requerente pode não ser capaz de desenvolver um método específico para a identificação do evento.”

2) “Os produtos vegetais obtidos por edição de genoma podem entrar no mercado sem serem detetados. Além disso, se fosse detetado, no mercado da UE, um produto suspeito com uma alteração de DNA desconhecida ou não-única, seria difícil ou mesmo impossível fornecer prova em tribunal de que essa sequência modificada teria tido origem na edição intencional do genoma.”

Estamos plenamente de acordo com os investigadores, as partes interessadas e os parceiros comerciais, que se tornou urgente que a UE adapte a sua legislação ao progresso tecnológico atual, alinhando-a com a legislação vigente em outros países. Temos o compromisso de trabalhar em conjunto com decisores políticos e stakeholders para desenvolver uma mudança construtiva e direcionada. O nosso objetivo é ter regras práticas alicerçadas no conhecimento científico para os produtos resultantes dos mais recentes métodos de mutagénese, que estimulem a confiança do público. Isto iria desbloquear o caminho para soluções biotecnológicas diversificadas, inovadoras e de alta performance, em sectores como a criação de animais e plantas, agricultura, alimentação animal e humana, cuidados de saúde e produção de energia, contribuindo, assim, para a resiliência da Europa às alterações climáticas e beneficiando os consumidores, os pacientes e o ambiente.

Os produtos que também podem ser obtidos por métodos convencionais ou de processos espontâneos na natureza não devem estar sujeitos aos requisitos da Diretiva 2001/18 ou a outra regulamentação a ela associada. Desejamos enfatizar que esta posição é cada vez mais adotada num número crescente de países, a qual deverá igualmente criar segurança jurídica aos operadores da UE, evitando que os Estados-Membros adotem regras nacionais individuais para produtos resultantes de mutagénese convencional aleatória. Além disso, evitará que dois produtos ou organismos indistinguíveis sejam regulamentados de duas formas diferentes, o que abriria a porta à concorrência desleal, com as importações de países não pertencentes à UE.

Pelo exposto, exortamos os Estados membros e a Comissão da UE a iniciar um processo de alteração legislativa que implemente regras favoráveis à inovação.

Com os melhores cumprimentos,

(Assinaturas de 27 Organizações Europeias)
Céline Duroc, Director General of MAIZ’EUROP’ for the Platform Agriculture and Progress

Patrick Fox, Secretary General Association of Manufacturers and Formulators of Enzyme Products

Dirk Carrez, Executive Director of Bio-based Industries Consortium

Marc Vermeulen, Executive Director of Specialty Chemicals, The European Chemical Industry Council

Marie-Christine Ribera, Director General, European Association of Sugar Manufacturers

Jérôme Bandry, Secretary General, CEMA – European Agricultural Machinery

Elisabeth Lacoste, Director C.I.B.E.-International Confederation of European Beet Growers

Iliana Axiotiades, Secretary General, European Association of Cereals, Rice, Feedstuffs, Oil Seeds, Olive Oil, Oils and Fats and Agrosupply Trade

Marc Casier, President, Confederation of European Yeast Producers

Ana Granados Chapatte, Director, European Forum of Farm Animal Breeders

Jean-Philippe Azoulay, Director General, European Crop Protection Association

Bernard Valluis, President, European Flour Milling Association

Patrick FOX, Secretary General, EFFCA – European Food and Feed Cultures Association

Thierry de l’ESCAILLE, Secretary General – CEO, European Landowners’ Organization
Raquel Izquierdo, Secretary General, European Potato Trade Association

Susanne Meyer, Secretary General, EUVEPRO – European Vegetable Protein Association

Garlich von Essen, Secretary General, ESA – European Seed Association

Joanna Dupont-Inglis, Secretary General, EuropaBio – The European Association for Bioindustries

Aleksandra Malyska, Executive Manager, European Technology Platform Plants for the Future

Nick Major, President, European Feed Manufacturers’ Federation

Joerg Seifert, Secretary General, FEFANA Asbl – EU Association of Specialty Feed Ingredients and their Mixtures

Ernesto Morgado, President, Federation of European Rice Millers

Nathalie Lecocq, Director General, FEDIOL – EU Vegetable Oil and Protein Meal Industry Association

Mella Frewen, Director General, FoodDrinkEurope

Jamie Fortescue, Managing Director, Starch Europe

Sylvie Mamias, Secretary General, UNION FLEURS

Alterações climáticas | Corais marinhos resistentes ao aumento das temperaturas?

cs_0322N_Coral_1280x720
Créditos da imagem: Mikaela Nordborg/Australian Institute of Marine

A ideia é radical, mas investigadores australianos acreditam que os corais podem tornar-se resistentes aos efeitos das alterações climáticas. No Simulador Nacional do Mar, em Townsville, na Austrália, está a fazer-se criação de corais para ver se isso é possível.

O aumento global das temperaturas está a colocar em perigo os recifes de coral em todo mundo. A apenas 75 quilómetros de Townsville, a Grande Barreira de Corais da Austrália (a maior do mundo) foi atingida por uma série de ondas de calor que mataram metade do seu coral. A ameaça fez com que uma geneticista de corais da Universidade de Melbourne, Madeleine Van Oppen, se tornasse numa das principais defensoras da criação de espécies de coral capazes de resistir ao aumento das temperaturas subaquáticas.

É com esse objetivo que a investigadora e a sua equipa estão a levar a cabo importantes experiências com corais no Simulador Nacional do Mar, reconhecido pelo seu trabalho em investigação e restauração de corais. Neste vasto centro de ciências marinhas, existem dezenas de tanques com água do mar e condições equiparadas às do oceano, hoje ou no futuro. Os cientistas não tiram os olhos desses grandes aquários, onde descansam diversos corais. Estão à espera de sinais de desova.

Van Oppen está a fazer criação de corais com técnicas tão antigas quanto o melhoramento de plantas e tão novas quanto as mais recentes ferramentas de edição de genes, esperando por resultados que possam ser transferidos do laboratório para o oceano.

Saiba mais aqui.

Siga o CiB no Twitter @cibpt e no Facebook @cib.portugal.

 

 

Vinho | Edição genética das uvas é uma das soluções para enfrentar as alterações climáticas

Na conferência que trouxe Al Gore à cidade do Porto falou-se de alterações climáticas e dos seus efeitos na produção vinícola. Uma das muitas soluções apresentadas é a edição de genoma das uvas para as tornar mais resistentes ao aumento da temperatura e adaptar o seu ciclo de amadurecimento.

Na conferência Climate Change Leadership – Porto Soluções para a Indústria do Vinho, que termina hoje na Alfândega do Porto, uma preocupação comum em todas as palestras foi a forma como as alterações climáticas afetam a indústria do vinho: o aumento da temperatura tem condicionado as etapas de amadurecimento das uvas, a seca tem-se tornado mais preocupante e isso reflete-se até nos incêndios, que se têm acentuado com o aumento da temperatura global e têm destruído vinhas. Ainda assim, acredita o director de viticultura da Organização Internacional da Vinha e do Vinho, Alejandro Fuentes Espinoza, “as alterações climáticas são tanto uma ameaça como uma oportunidade para o sector vitivinicultural. É necessário fazer adaptações” com recurso a várias soluções, entre as quais a edição de genomas.

Além do antigo vice-Presidente norte-americano e ativista ambiental, Al Gore, e de dezenas de especialistas nacionais e internacionais, está também presente na conferência Climate Change Leadership o investigador suíço José Voullamoz, para quem “a edição genética pode ajudar a salvar certas castas de uva”, como a Pinot Noir. Mas, para isso, defende o especialista, “é preciso reduzir o estigma” em relação à aplicação desta tecnologia na agricultura.

Mais detalhes sobre o que foi debatido na conferência Climate Change Leadershipneste artigo do jornal Público.

Siga o CiB no Twitter @cibpt e no Facebook @cib.portugal.

OGM | Milho transgénico pode ajudar a compensar os efeitos das alterações climáticas

Segundo um estudo que analisou 35 anos de produção de milho e 35 anos de dados sobre o clima em oito estados norte-americanos, tecnologias como a engenharia genética podem ajudar a compensar os efeitos do aumento global da temperatura.

Os investigadores norte-americanos Jesse Tack, da Universidade do Estado do Kansas, e Ariel Ortiz-Bobea, da Universidade de Cornell, publicaram recentemente um estudo na revista Environmental Research Letters, no qual analisam o impacto das alterações climáticas na produção de milho transgénico em oito estados do centro-oeste dos Estados Unidos.

O estudo mostra claramente que as variedades de milho melhoradas pela tecnologia moderna podem contribuir positivamente para superar as preocupações emergentes com as alterações climáticas.

Neste estudo, os investigadores analisaram 35 anos de produção de milho geneticamente modificado (GE) e as condições climáticas durante esse tempo e descobriram que a tecnologia pode compensar os efeitos de temperaturas mais altas e outros impactos relacionados com o clima.

Essas e outras tecnologias “podem ser uma estratégia frutífera para contrabalançar as alterações climáticas”, afirmaram os investigadores, pelo que técnicas de engenharia genética recentemente desenvolvidas, como o CRISPR, terão provavelmente um papel crucial no futuro.

O estudo mostrou que o rendimento aumentou em quase 70% durante o período de adoção rápida, ou seja, de 0,94% de ganhos aproximados ao ano antes de 1996 para 1,6% depois de 1996.

Leia o estudo integral aqui.

Siga o CiB no Twitter, Facebook e no Linkedin

Estudo | OGM podem mitigar impactos das alterações climáticas

As culturas de milho geneticamente modificado são mais produtivas que as variedades não trangénicas.

Novas investigações sugerem que os ganhos conseguidos pela utilização da engenharia genética na agricultura serão imprescindíveis para reduzir os efeitos das alterações climáticas. Os agricultores têm de produzir mais e com menos perdas para enfrentar esse enorme desafio.

Num estudo publicado há dias no jornal científico Environmental Research Letters, investigadores norte-americanos da Universidade de Cornell, em Nova Iorque, e da Universidade de Economia Agrícola, no Kansas, afirmam que o uso de novas tecnologias na agricultura pode ajudar a compensar as perdas que as alterações climáticas inevitavelmente irão causar na produção de alimentos no mundo inteiro, mas especialmente nas regiões onde essas tecnologias ainda são praticamente inexistentes.

As previsões indicam que os países da África e da Ásia serão os mais afetados pela mudança global das temperaturas e, mesmo assim, os governos desses países, “pressionados pela intensa oposição liderada por ativistas anti-OGM, continuam a hesitar adotar novas tecnologias de melhoramento de plantas”, lê-se num artigo da revista Alliance For Science sobre este estudo científico.

Afirmam os autores do estudo, Ariel Ortiz-Bobea, professor na Universidade de Cornell, e Jesse Tack, professor na Universidade do Kansas, que “apesar das previsões que apontam para um crescimento sustentado da produção de milho nos Estados Unidos, o negócio poderá estagnar, o que terá sérias implicações noutras culturas e noutros países”, uma vez que existem muitos países onde a adoção de tecnologia é escassa ou a produção de culturas transgénicas é pura e simplesmente proibida.

“Se os ganhos relativos de produtividade estimados nos Estados Unidos são um indicador do potencial das novas tecnologias se aplicadas a outras culturas e noutros países, então a produção de culturas transgénicas pode constituir uma estratégia de adaptação frutífera para contrabalançar os efeitos das mudanças climáticas”, concluem.

Leia o artigo na Alliance For Science AQUIe o estudo original publicado na Environmental Research Letters AQUI

  

InnovPlantProtect vai desenvolver novas estratégias para proteção de plantas

Pedro Fevereiro, diretor do Plant Cell Biotechnology Laboratory do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB), esteve envolvido diretamente na criação do laboratório colaborativo InnovPlantProtect que vai funcionar em Elvas, no INIAV, a partir de 2020. O projeto vai trabalhar no sentido de encontrar soluções inovadoras para pragas e doenças existentes e que também começam a surgir devido às alterações climáticas.

Texto: Emília Freire l Fotografia: Rodrigo Cabrita

Entrevista já publicada nas edições impressa e online da Vida Rural ( https://goo.gl/o3fJYd)

Créditos: Rodrigo Cabrita

O que vai ser o InnovPlantProtect?

Vai ser um laboratório colaborativo, ou seja uma estrutura privada sem fins lucrativos, gerido por uma associação, que se vai dedicar a desenvolver novas estratégias para a proteger as plantas de pragas e doenças.

A associação tem diversos tipos de sócios: duas grandes empresas multinacionais (a Bayer e a Syngenta), uma empresa agrícola nacional (a Fertiprado), associações de produtores (a ANPOC), a ANPROMIS, a Casa do Arroz e a FNOP), bem como instituto de investigação (ITQB NOVA e CEBAL), além do INIAV e do município de Elvas. Todas estas instituições, algumas delas com caraterísticas bastante distintas, juntaram-se para desenvolver este laboratório.

E porquê desenvolver novas soluções para a proteção das plantas?

Existem várias razões e uma delas é a contestação aos métodos tradicionais. Os fitofármacos de origem química – em parte por causa dos impactos ambientais mas também pelos seus perfis toxicológicos e porque existe um movimento, sobretudo na Europa, para desenvolver métodos mais naturais –, estão a ser proibidos ou questionados.

Portanto o InnovPlantProtect vai desenvolver soluções não-químicas?

Depende do que se considera químico. Serão soluções químico-biológicas porque vão ser baseadas sobretudo em ácidos nucleicos e proteínas.

E vão-se tentar também desenvolver novas variedades de plantas que apresentem caraterísticas de resistência própria a algumas pragas e doenças e métodos para compreender, não só, a evolução das pragas mas também como é que estes novos métodos são capazes de controlar essas pragas. Isto num contexto importante que é o das alterações climáticas que trazem o aparecimento de novas pragas e doenças, que vêm de outras regiões, como o norte de África ou até do norte da Europa.

São pragas e doenças para as quais as soluções não estão adaptadas às condições do nosso país?

Para algumas não existe mesmo solução nenhuma. Por exemplo, para a traça da Guatemala que afeta a batata, e que pode entrar em Portugal via Galiza, não há forma de controlo. No caso também da Drosófila Susuki, que afeta principalmente fruteiras, que veio do norte de África e que já está em Portugal, tem ciclos de vida tão curtos que são menores do que os intervalos de segurança de aplicação dos fitofármacos existentes.

Mas há mais casos e vão surgir mais fungos e bactérias nos próximos anos devido a estas alterações relacionadas com a subida da temperatura média, variações da humidade do ar e chuvas bruscas e depois episódios de secas.

Créditos: Rodrigo Cabrita

Este laboratório vai funcionar em Elvas, no INIAV, em espaço que já existe ou novo?

Em espaço que já existe, que o INIAV vai disponibilizar mas que vai ser reestruturada com o apoio da Câmara Municipal de Elvas. A decisão teve a ver com vários fatores, nomeadamente o facto de o programa Colab não financiar infraestruturas, mas também por poder ficar associado à Estação de Melhoramento de Plantas. O que é muito importante do ponto de vista da interação porque a Estação trabalha com plantas, tem ensaios de campo e tem uma tradição muito interessante na investigação do melhoramento de plantas e que todos os parceiros consideram que é útil valorizar e revitalizar. Além disso, Elvas também é uma zona onde existe alguma atividade associativa por parte dos agricultores, por isso consideramos que é interessante para criar sinergias e desenvolver inovação na agricultura.

Saliento que chamamos ‘laboratório’ mas na prática vai ser uma unidade de desenvolvimento de soluções, não um laboratório ‘tradicional’ de investigação. O que vai fazer é agarrar no conhecimento existente e juntá-lo de forma a desenvolver soluções que serão patenteadas e depois licenciadas para serem comercializadas.

As empresas que fazem parte da associação terão prioridade?

Em princípio sim, se estiverem interessadas. Será exatamente por isso que as empresas se associaram ao projeto.

O InnovPlantProtect vai funcionar com os investigadores das unidades de investigação ou vai ter pessoal próprio?

Os laboratórios colaborativos são instalados numa perspetiva de autonomia relativamente às unidades públicas de investigação. Ou seja: são instituições privadas que têm de contratar os seus próprios colaboradores, sejam investigadores, técnicos e outros, de forma a poderem funcionar de forma completamente autónoma.

Neste laboratório, a perspetiva é ter, ao fim de cinco/seis anos, cerca de 50 pessoas contratadas, em diversas categorias. O que não quer dizer que o laboratório não venha a desenvolver projetos em cooperação com diversas unidades de investigação, uma vez que nunca será suficientemente grande para abarcar todas as valências.

E vão trabalhar também em colaboração com as associações de produtores para identificar os principais problemas que os preocupam nesta área?

Certamente. Esse é um aspeto importante do Colab, porque é precisamente direcionado para a resolução de problemas, para avaliarmos quais são os problemas que realmente existem e quais as soluções que podemos desenvolver para os resolver. E isso vai ter de ser decidido a cada momento pelos associados: quais são os objetivos específicos a cada momento. Não nos poderemos dedicar a dez pragas diferentes, por isso vai ter de se decidir que ‘resolvemos este e este problema agora’, uma vez que nem o financiamento nem as capacidades são ilimitados.

Isto é um projeto com um horizonte temporal limitado?

Não, o horizonte não é limitado. A ideia é garantir a sustentabilidade sem financiamento público desta unidade, por isso enquanto houver sustentabilidade o laboratório poderá funcionar.

Mas o financiamento deste programa Colab é limitado no tempo?

Sim, tem um limite de cinco anos.

Por isso o projeto tem cinco anos para ser sustentável, baseando-se no licenciamento das soluções patenteadas até lá?

Sim, mas também com projetos internacionais ou com projetos específicos desenvolvidos com a empresa A ou B. Tem de funcionar como uma empresa que vai vender Provas de Conceito, que terão de ser protegidas, por patentes, e licenciadas aos associados ou colocadas no mercado.

Quando está previsto começar a funcionar e como vai ser dirigido o InnovPlantProtect?

A associação vai ter de contratar um diretor e esse diretor terá a responsabilidade de desenvolver os processos de contratação e coordenar toda a atividade da instituição.

Idealmente gostaríamos de já ter alguma coisa para mostrar no Dia do Agricultor [15 de maio de 2019] mas parece que até final de 2019 as obras não ficarão concluídas. No entanto, é provável que nessa altura já haja, pelo menos, indicação de quem vai ser o diretor da unidade, porque temos de constituir formalmente a associação até ao final deste ano e no princípio do próximo ano terá de haver uma decisão relativamente à direção.

Falando agora um pouco do trabalho que o laboratório que dirige aqui no ITQB tem vindo a desenvolver, também na área mais agrícola, que projetos gostaria de destacar?

Há três projetos que espelham uma parte daquilo que fazemos. No âmbito do programa de Melhoramento e Biodiversidade, que foi lançado pelo Ministério da Agricultura em julho, ganhámos dois projetos sendo que um – o Programa de Conservação e Melhoramento Genético da Oliveira – é para seleção de oliveira, feito em colaboração com a BLC3 de Coimbra. O que estamos a fazer é tentar encontrar dentro da variedade Galega genótipos que tenham, não só maior capacidade produtiva, mas também maior resistência à gafa.

A Galega esteve esquecida durante muito tempo…

Pois… até tive algumas ‘discussões’ com alguns produtores que diziam que os investigadores não ligavam nenhuma à Galega, mas é preciso frisar que para investigarmos é preciso haver financiamento e quando é o próprio Ministério da Agricultura que não quer saber… as coisas são muito complicadas.

Em que consiste então este projeto?

Percorremos já uma boa parte do País onde existe Galega e selecionamos olivais menos antigos e outros muito antigos para tentar encontrar variabilidade genética, que existe e está identificada. E depois, dentro dessa variabilidade, temos de conseguir selecionar as plantas que consideramos ótimas e apresentam resistência à gafa, com finalidade de fazermos posteriormente multiplicação e resolver os problemas de enraizamento que a variedade costuma ter com enxertia, que aliás já se fazia há muito na oliveira.

E os outros projetos?

Um outro é com a Fertiprado – o Programa de Conservação e Melhoramento de Espécies Forrageiras e Pratenses. Queremos dar continuidade ao projeto do Micropropelite [através do qual se desenvolveu um novo procedimento que permite obter, por micropropagação, clones de várias espécies. Estes clones são testados, cruzados e multiplicados para se obterem novas variedades] e ampliar a base genética de seleção de variedades de leguminosas forrageiras com que a Fertiprado está a trabalhar. O programa tem, por um lado, uma parte de pesquisa no campo e seleção de genótipos interessantes e, por outro lado, uma parte de melhoramento em que tentaremos fazer cruzamentos controlados.

E o último programa?

É um programa na área da viticultura, com os viveiros Plansel, que é feito em colaboração com o INIAV Dois Portos, que tem várias componentes: o estudo da diversidade genética, inclusive com a pesquisa e caraterização de populações de Vitis Silvestris, e da resposta dessa diversidade genética ao oídio, através da análise da maior ou menor resistência no campo mas igualmente ao nível molecular, e também o estudo dos aspetos relacionados com a enxertia e a compatibilidade ou incompatibilidade de porta-enxertos, para depois ter ferramentas moleculares para selecionar os melhores pares porta-enxerto/enxerto.

Entrevista publicada na edição impressa e no site da revista Vida Rural 
https://goo.gl/o3fJYd