OGM | Não, não é verdade

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Uma breve consulta ao site GMO Answers revela que o desconhecimento dos consumidores sobre tudo o que respeita aos alimentos transgénicos ainda é grande. Desde a tecnologia utilizada aos produtos realmente disponíveis no mercado, as crenças, os mitos e as inverdades sobre as culturas geneticamente modificadas continuam a “dar mais cartas” do que a ciência. Não acredita? Veja estes quatro exemplos.

 

Arroz dourado não está à venda

A maioria das pessoas já deverá ter ouvido falar do  arroz dourado (golden rice, em inglês), desenvolvido pela primeira vez na passagem de milénio, causando um enorme impacto nas notícias. Talvez por isso muitas pessoas pensem que este produto biofortificado já é comercializado, mas não. Estamos em 2019 e ainda não está disponível. As razões são várias, mas a principal é a oposição “cega” e infundada de grupos ativistas.

De salientar que o arroz dourado foi apresentado no ano 2000 por Ingo Potrykus, Professor do Institute of Plant Sciences do Swiss Federal Institute of Technology (ETH), de Zurique, como “um excelente exemplo de engenharia genética de plantas” e como uma solução para um problema nutricional (carência de vitamina A), que afeta milhares de crianças nos países menos desenvolvidos. Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde, cerca de 670 mil crianças com menos de cinco anos morrem anualmente por não ingerirem vitamina A suficiente e entre 250 mil e meio milhão ficam cegas devido a esta deficiência.

Não existe trigo nem tomate transgénico

Contrariamente ao que muitas pessoas pensam, não existe trigo geneticamente modificado em mercado nenhum do mundo.  E também não há hoje tomate transgénico à venda; já houve, na década de 90, mas apenas por três anos. O tomate Flavr Savr, criado para ser menos perecível, acabou por ser retirado do mercado por causa do seu insucesso junto dos consumidores.

Uvas e melancia sem sementes não são OGM

Estávamos tão habituados a encontrar apenas frutas com sementes que quando as frutas sem sementes invadiram o mercado, muitas pessoas começaram logo a pensar que só poderiam ser resultado da modificação genética. Não é verdade. Embora toda a nossa comida seja geneticamente modificada (através da seleção natural, mas esta já seria outra conversa), as melancias sem sementes e as uvas sem grainha que encontramos atualmente à venda não são modificadas da mesma maneira que um OGM.

De resto, passada a desconfiança inicial, parece haver agora uma maior adesão dos consumidores às frutas sem sementes.

Os transgénicos não estão proibidos na Europa

Ao contrário da crença popular, os transgénicos não estão banidos em toda a Europa. Não só são cultivados em alguns países e com bastante sucesso –  veja-se neste relatório de Graham Brookes os casos de Portugal e Espanha -, como o seu cultivo está a ser seriamente considerado por agricultores de outros países europeus.

De referir que, apesar de haver grandes entraves à produção de OGM, a verdade é que a Europa importa vastas quantidades de culturas GM, como soja para ração animal.

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Manifesto |Para uma Europa mais “biotecnológica”

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Este conteúdo é parte do “Manifesto da Indústria de Biotecnologia 2019”, da EuropaBio

No dia 2 de julho, quando o “novo” Parlamento Europeu se reuniu para a sessão inaugural, em Estrasburgo, a EuropaBio publicou o seu Manifesto da Indústria de Biotecnologia 2019, convidando os decisores políticos da UE a abraçarem a ambição de construir uma Europa mais saudável. mais eficiente em termos de recursos e mais aberta à aplicação da biotecnologia, em especial na agricultura.

O documento apela também à promoção da ciência e inovação, através da tomada de decisões políticas baseadas na ciência e não em mitos e medos infundados.

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Relatório | Soluções para enfrentar os três maiores desafios atuais

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Alimentar 10 mil milhões de pessoas de maneira sustentável até 2050 exige a aplicação de medidas urgentes para solucionar três grandes problemas: aumentar a produção de alimentos (em 56%), ocupar mais área de terra com culturas agrícolas (são necessários mais 593 milhões de hectares) e reduzir a emissão de gases com efeito de estufa (cerca de 12 toneladas).

O novo relatório do World Resources Institute (WRI) diz como. Uma das soluções apresentadas é o investimento nas novas técnicas de melhoramento de plantas, como a edição de genomas.

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Eurobarómetro | Preocupação com os OGM reduziu para metade em nove anos

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O mais recente estudo de opinião pública sobre segurança alimentar na Europa, publicado no mês passado, mostra, uma vez mais, que é falso o argumento amplamente promovido de que “90% dos europeus são contra os OGM”. Na verdade, apenas 27% dos inquiridos afirmam estar preocupados com os ingredientes geneticamente modificados (GM) incluídos em alimentos e bebidas. A edição de genoma é o que menos preocupações suscita (4%).

Entre as 15 maiores preocupações da população relativamente à segurança alimentar, especificadas na lista do Eurobarómetro de 2019, os OGM estão em 8º lugar – 27% dos inquiridos dizem estar preocupados com a sua presença nos alimentos. Uma percentagem consideravelmente inferior à registada no inquérito anterior, de 2010, tendo diminuído para metade (no estudo de 2010, os alimentos com ingredientes GM ocupavam o 4º lugar dos maiores receios, com 66% das pessoas a afirmarem estar apreensivas quanto aos eventuais efeitos na saúde).

A edição de genoma foi uma das questões incluídas no inquérito e é a que menos preocupações suscita (4%), embora também seja o tema que 22% das pessoas assume perceber menos.

Mais problemáticos para a maioria dos inquiridos são os vestígios de antibióticos, hormonas e esteróides (44%), os resíduos de pesticidas (39%) e os aditivos alimentares (36%).

Resultados detalhados e referências por país aqui.

Fontes:

.Relatório integral do Eurobarómetro  sobre a segurança alimentar na UE.

.Mapas interativos das preocupações sobre segurança alimentar em todos os países da UE.

.Relatório do Eurobarómetro de 2010 em várias línguas.

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Relatório do WRI | Edição de genoma é uma das soluções para a crise de alimentos

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A produção de alimentos com a ajuda de ferramentas biotecnológicas, como os OGM e a edição de genoma, são uma das soluções apresentadas no último relatório do World Resources Institute para responder à necessidade de mais alimentos com o aumento da população mundial, que até ao ano 2050, estima-se, ultrapassará os 10 mil milhões de pessoas.

Realizado em colaboração com o Banco Mundial e as Nações Unidas (ONU), o estudo do World Resources Institute (WRI), “Creating a Sustainable Food Future“, avança vinte e duas medidas que poderão mitigar os efeitos do aumento da população mundial, entre os quais a escassez de recursos alimentares.

Segundo o documento do WRI, se continuarmos a produzir como produzimos hoje, a utilizar as ferramentas atuais e a travar as potencialidades de outras ferramentas na área da biotecnologia, não haverá comida para tantas pessoas (mais de 10 mil milhões em 2050).

Para os investigadores deste estudo conduzido por Tim Searchinger (investigador do WRI e professor na Universidade de Princeton, EUA), a alimentação tal como a conhecemos deve sofrer alterações, quer na sua constituição, quer no modo como é produzida. Uma das soluções é dar mais espaço de manobra à engenharia genética, através da sua implementação fora dos laboratórios e da criação de leis menos restritivas à sua aplicação no terreno.

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Tim Searchinger, autor principal do estudo do WRI

Aumentar o investimento público nesta área é apontado como fundamental para o desenvolvimento de novas técnicas de melhoramento de plantas e para um futuro alimentar mais sustentável, como pode ler-se na página 24 do documento.

Leia aqui o relatório completo do World Resources Institute (WRI) e siga o CiB no Twitter, no Facebook e no LinkedIn. No CiB, comunicamos biotecnologia.

 

Opinião | “OGM e edição de genes são talvez a maior esperança para um futuro mais saudável e sustentável”

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Há mais de dez mil anos que os seres humanos modificam geneticamente as plantas. Isso significa que quase tudo o que comemos foi geneticamente modificado através de métodos como a reprodução seletiva e cruzamentos. Mas os métodos agrícolas modernos estão a ser rejeitados por causa de ideias irrealistas e romantizadas que preconizam um futuro melhor e mais “natural”. E isso coloca-nos um grande problema, como explica o especialista em nutrição e estudos alimentares Taylor Wallace, num artigo de opinião publicado no jornal digital norte-americano The Detroit News.

Créditos da fotografia: Ken Lambert / TNS

No mesmo artigo, o professor-adjunto do Departamento de Nutrição e Estudos Alimentares da George Mason University, nos EUA, e CEO principal do Think Healthy Group afirma que “a evidência diz-se que os OGM e a edição de genes representam, talvez, a maior esperança para um mundo mais saudável e sustentável.”

Wallace, que também é editor das publicações Dietery SuplementsAmerican College of Nutrition, não tem dúvidas de que agora, mais do que nunca, precisamos da ciência e da tecnologia para produzir alimentos e enfrentar os desafios globais crescentes como o aumento da população e a necessidade de ter mais e melhores colheitas.

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Taylor Wallace

“A ciência e as tecnologias agrícolas permitem-nos hoje uma abundância sem precedentes de alimentos seguros, saudáveis e nutritivos”. No entanto, lamenta o especialista em nutrição, os consumidores nunca foram tão dominados por dúvidas e preocupações infundadas, alimentadas em todo o mundo por grupos de ativistas anti-tecnologia.

Artigo completo (em inglês) aqui.

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Debate | 20 anos de biotecnologia e medicamentos órfãos em Portugal

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Especialistas de vários países vão falar sobre 20 anos de biotecnologia e de medicamentos órfãos em Portugal. O encontro será esta terça-feira, 7 de maio, na Nova School of Business and Economics (NOVA SBE), em Carcavelos, e é promovido pela P-BIO, Associação Portuguesa de Bioindústria no âmbito do Biomeet.

Os medicamentos órfãos em Portugal é o tema que vai preencher a manhã do Biomeet, esta terça-feira, 7 de maio, nas instalações da Nova School of Business and Economics (NOVA SBE), em Carcavelos. Promovido pela P-Bio, Associação Portuguesa de Bioindústria, que comemora 20 anos de atividade, este encontro anual será dividido em duas sessões de discussão.

A primeira contará com a intervenção de Luís Brito Avô, do Centro Hospitalar Lisboa Norte, José Aranda da Silva, ex-presidente do Infarmed e Joaquim Brites, presidente da Associação Portuguesa de Neuromusculares. Esta sessão irá ainda contar com a apresentação do “Livro Branco dos Medicamentos Órfãos”, por Francisco Batel Marques, da AIBILI e com uma apresentação sobre terapia genética, por Ian Winburn, Global Medical Affairs Lead da Pfizer.

A segunda sessão terá lugar na parte da tarde e contará com a presença de Eurico Brilhante Dias, Secretário de Estado da Internacionalização, Daniel Traça, diretor da NOVA SBE e Filipe Assoreira, presidente da P-Bio, e será dedicado aos 20 anos da associação e da biotecnologia em Portugal.

Também à tarde, secretária geral da EuropaBio, falará da perspetiva europeia da Biotecnologia, a que se seguirá a apresentação do estudo de caracterização do setor da biotecnologia em Portugal, por João Carlos Cerejeira, da Universidade do Minho.

O BIOMEET 2019 terminará com um debate de balanço dos últimos 20 anos de biotecnologia em Portugal e com a discussão das perspetivas futuras.

Em antecipação a este evento, a P-BIO, em parceria com o BioData.pt, organiza ainda no dia 6 de maio, no Instituto Gulbenkian da Ciência, em Oeiras, o Fórum BioData.pt Empresas, um fórum de gestão avançada de dados para a criação valor, que vai juntar quatro empresas nacionais com atividade ligada ao sector da saúde, do mar, da agricultura e da bioindústria, para partilharem a sua experiência e necessidades na curadoria, gestão e utilização de biodados. Haverá ainda uma discussão aberta com a audiência sobre as potencialidades de utilização de ferramentas de bioinformática para maximizar o potencial dos biodados, com vista à criação de valor.

Veja programa do Biomeet e faça a sua inscrição aqui.

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Trioza erytreae | Biotecnologia pode ajudar a combater doença que ataca os citrinos

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Créditos da imagem: Agricultura e Mar

A Trioza erytreae, o insecto vector que transporta a bactéria Candidatus Liberibacter causadora da doença conhecida por “citrus greening”, foi um dos muitos temas em debate no Seminário “Controlo biológico e técnicas alternativas de proteção das culturas”, que se realizou a 11 de abril na Escola Superior Agrária de Santarém. Sendo uma doença que pode destruir uma plantação inteira de citrininos, os produtores nacionais de laranja, tangerina e limão estão preocupados com a sua disseminação, causada pela psila africana dos citrinos, cuja presença em Portugal foi detetada no norte, em 2015. Sem cura, esta doença pode ser evitada através de medidas de controlo biológico e de novas técnicas com recurso à biotecnologia, como o RNAi e a edição de genoma.

 

Os produtores portugueses de citrinos estão preocupados com a possibilidade de disseminação, em Portugal, da praga de quarentena Trioza erytreae, em especial no Algarve, onde se concentra 70% da produção nacional de citrinos. O receio não é infundado, já que a Direção Geral de Alimentação e Veterinária procedeu ontem à atualização da zona demarcada relativa a esta praga, que inclui novas freguesias nos concelhos de Oliveira de Azeméis (Ossela), Ponte de Lima (Arca; Ponte de Lima), São João da Madeira (São João da Madeira), Alcobaça (Cela), Lourinhã (Miragaia e Marteleira; Santa Bárbara; Vimeiro).

A sua presença no espaço da União Europeia era até agora conhecida apenas na Ilha da Madeira e Canárias. Em dezembro de 2014, Espanha notificou a primeira deteção desta praga no seu território continental na zona da Galiza, onde ocorreram vários focos na zona de Pontevedra. Na sequência da notificação daqueles focos e dada a sua proximidade com o Norte de Portugal, foi levada a cabo uma vigilância suplementar particularmente dirigida àquela região, tendo sido detetada, em janeiro de 2015, a presença deste inseto em citrinos isolados em jardins particulares na área do Grande Porto.

Também designada como psila africana dos citrinos, a Trioza erytreae é um inseto vetor da bactéria Candidatus Liberibacter africanus, que causa a doença Huanglongbing, conhecida igualmente como Citrus greening, e para a qual não existe cura.

A capacidade de destruição da Trioza erytreae foi um dos temas em debate no Seminário “Controlo biológico e técnicas alternativas de proteção das culturas”, que se realizou a 11 de abril na Escola Superior Agrária de Santarém. Promovido pela DGVA, o objetivo deste encontro prendeu-se com a crescente necessidade de proteção das culturas contra pragas e doenças, nomeadamente devido à retirada do mercado de um elevado número de produtos fitofarmacêuticos.

Para além de Paula Carvalho, Subdiretora-geral da DGAV, que apresentou o “Plano de Ação Nacional para o Uso Sustentável de produtos Fitofarmacêuticos (1ª revisão) 2018-2023”, e de Bárbara Oliveira, da Direção de Serviços de Meios de Defesa Sanitária e que falou de “Biopesticidas no contexto do Regulamento nº 1107/2009”, este encontro (ver programa) contou com a intervenção de vários investigadores, entre os quais o investigador espanhol Alejandro Tena, do Instituto Valenciano de Investigações Agrárias (IVIA), e Pedro Fevereiro, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Chefe do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA e presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia.

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Alejandro Tena, investigador do Instituto Valenciano de Investigações Agrárias (IVIA)

Convidado para falar da “Luta biológica contra a Trioza erytreae”, Alejandro Tena alertou para o falhanço dos programas de erradicação da praga nas ilhas da Madeira e Canárias e sublinhou a insustentabilidade económica das estratégias de controlo baseadas em substâncias químicas. “Além de caras, podem desencadear o aumento de outras pragas e ter impacto negativo no meio ambiente”, afirmou o investigador espanhol, para quem “a adoção de medidas rigorosas de quarentena é fundamental para as áreas livres da psila africana dos citrinos”. Acrescentou que “essas medidas provavelmente representam as estratégias de prevenção mais eficazes para a contenção de psilídeos, porque a expansão geográfica de psilídeos em citrinos é devida, em grande medida, às atividades humanas, especialmente pelo transporte de plantas e frutas recém-colhidas de áreas infestadas para áreas não infestadas. Muitos inimigos naturais podem contribuir para a redução de suas populações e consequente disseminação.”

Para Alejandro Tena, o controlo biológico de conservação deve ser enfatizado, sobretudo em áreas onde o psilídeo não é abundante. Também defendeu “a implementação de programas clássicos de controlo biológico em áreas livres de Huanglongbing, através da introdução de parasitóides efetivos de psilídeo cítrico africano”. Em áreas onde a doença Huanglongbing foi detectada, A. Tena disse que “o controlo biológico é difícil de aplicar, mas um rigoroso programa de controle químico direcionado ao psilídeo pode complementar essa estratégia.”

O Algarve continua a ser a capital da laranja em Portugal, com 17 mil hectares de citrinos plantados e uma produção anual de 250 a 300 mil toneladas, segundo dados da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve. Se a Trioza erytreae alcançar esta região de Portugal, os danos serão devastadores. Não havendo cura, os produtores poderão tentar minimizar o impacto da doença com a aplicação das medidas defendidas pelo investigador do Instituto Valenciano de Investigações Agrárias.

Mas existem outras soluções, como avançou o investigador do ITQB NOVA, Pedro Fevereiro, que neste seminário na Escola Superior Agrária de Santarém falou sobre novas técnicas de melhoramento de plantas, em especial o RNA de interferência (RNAi) e a edição de genoma.

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Pedro Fevereiro, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Chefe do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA e presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia.

Para o Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, qualquer uma destas ferramentas, já disponíveis graças aos avanços recentes na área da agrobiotecnologia, poderia ser aplicada para mitigar os efeitos da Trioza na produção de citrinos, no Algarve ou em qualquer parte do mundo onde a doença seja uma forte ameaça: “ A utilização de RNAs que impedem que RNAs mensageiros medeiem a síntese de proteínas da produção de neuropéptidos ou de enzimas do metabolismo das gorduras destes insectos seria uma arma biológica possível para fazer face ao avanço da psila africana. Outra metodologia seria a utilização de meios de controlo por introdução nos insectos de genes letais (gene drive), com recurso à edição do seu genoma, já que, sendo um insecto exótico, não faz parte do ecossistema e, portanto, a sua contenção por esta forma não acarretaria prejuízos ambientais.” 

Este encontro no Auditório da Escola Ágrária de Santarém encerrou com uma mesa redonda sobre os “Novos desafios na proteção das culturas”, moderada por Eduardo Diniz, diretor-geral do GPP-Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral, e com as intervenções de representantes da DGAV, CAP-Confederação dos Agricultores de Portugal, CNA- Confederação Nacional da Agricultura, ANIPLA- Associação Nacional da Indústria para a proteção das Plantas, AGROBIO-Associação Portuguesa de Agricultura Biológica e laboratório colaborativo InnovPlantProtect.

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Biotecnologia | Porque sim na medicina, porque não na agricultura?


A introdução de culturas geneticamente modificadas (OGM) em 1996 desencadeou uma reação violenta por parte de ativistas ambientais e de consumidores preocupados com o facto de a “manipulação da natureza” poder levar a consequências potencialmente terríveis e imprevistas. No entanto, quase não se ouviram protestos públicos quando as técnicas de engenharia genética foram desenvolvidas pela primeira vez na década de 1970 para comercializar produtos farmacêuticos, como a insulina geneticamente modificada. O que leva à questão: por que razão as pessoas vêm a biotecnologia na agricultura de uma forma diferente da biotecnologia na medicina?

Dizem os especialistas que a opinião pública acolhe mais favoravelmente a aplicação da biotecnologia na medicina do que na agricultura porque sente os seus benefícios diretos na prevenção e tratamento de doenças graves. Os benefícios da biotecnologia em culturas agrícolas – como o aumento dos rendimentos e a redução dos custos de produção – são primeiro sentidos pelo agricultor, permanecendo invisíveis aos consumidores e, por isso, por eles subvalorizados.

Além disso, “o movimento anti-OGM capitalizou a ignorância dos consumidores com uma campanha de marketing eficaz contra os transgénicos, financiada em grande parte por defensores dos alimentos orgânicos e organizações ambientais”, lê-se num artigo da Genetic Literacy Project.

Apesar das amplas evidências de que as culturas geneticamente modificadas não ameaçam a saúde humana, grande parte do público em geral, no mundo inteiro, mantém o ceticismo em relação à biotecnologia na agricultura. Apesar dos investigadores serem favoráveis às culturas GM e garantirem a sua segurança e benefícios ambientais e económicos – um estudo de 2015, da Pew Research Center, descobriu que 88% dos investigadores da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) acreditam que a tecnologia é perfeitamente segura -, pouco mais de 50% dos consumidores nos Estados Unidos, onde a aplicação da tecnologia na agricultura até é das mais significativas no mundo, dizem que evitariam comprar alimentos rotulados como “transgénicos” ou submetidos a “modificação genética”, de acordo com uma investigação de junho de 2018.

Mas quando em causa estão avanços na medicina, os consumidores norte-americanos não são tão apreensivos. No mesmo estudo de 2015, que também considerou as opiniões sobre a aplicação da biotecnologia na medicina, os consumidores mostram-se claramente divididos em relação ao que pensam sobre a engenharia genética. Ainda que o procedimento nos OGM não envolva mais do que mover um ou mais genes de um animal ou planta para outro animal ou planta, muitas pessoas consideram os OGM artificiais e uma violação da ordem da natureza, especialmente quando se trata de algo tão pessoal e visceral quanto a comida. E quanto à introdução de culturas agrícolas editadas por CRISPR, não está claro como o público responderá a essa nova tecnologia, mas os ativistas anti-OGM já estão a soar o alarme sobre os supostos perigos da edição de genomas.

A ver vamos. Certo é que o uso de transgénicos na medicina cria muito pouca controvérsia e o curioso é que o processo para desenvolver um produto médico é quase idêntico ao que é usado para criar uma semente transgénica. Ambos são o resultado de processos de triagem muito longos e cuidadosos para encontrar as moléculas e as proteínas corretas, bem como os genes que as codificam.

Em ambos os casos, vários organismos são engenhados para os fins a que se destinam. As bactérias são os organismos que mais se utiliza neste processo, uma vez que são mais fáceis de cultivar e ampliar para produção. No entanto, dependendo da complexidade da estrutura molecular da droga, outros organismos, como leveduras e células de mamíferos, também podem ser usados ​​para chegar ao produto final.

A título de exemplo: os investigadores usam a biotecnologia para analisar novas doenças e produzir vacinas para nos proteger. Como afirma Jeff Bessen, químico da Universidade de Harvard, “muitas vacinas e produtos farmacêuticos de alto rendimento contêm proteínas como ingrediente principal. As proteínas são muito caras e delicadas para fabricar a partir do zero, mas as células vivas precisam de produzir proteínas para sobreviver e podem ser induzidas a produzir proteínas médicas a granel, exigindo pouco mais do que as instruções do DNA e o caldo açucarado como combustível. Uma vez que estas plantas genéticas são inseridas nas células, muitas vacinas e drogas são tecnicamente um produto transgénico.”


Este gráfico mostra quantas vacinas são feitas com recurso a engenharia genética. Crédito de imagem: GenScript

Não obstante as técnicas usadas para modificar os organismos na fabricação de drogas e na criação de novas culturas agrícolas sejam semelhantes, a intenção que prevalece em cada uma das áreas não poderia ser mais diferente. As empresas farmacêuticas procuram fabricar medicamentos destinados a tratar ou curar uma doença. As empresas agrícolas acrescentam características às plantas que ajudarão de forma direta os agricultores, sem prejuízo dos consumidores e do meio ambiente. Pelo contrário, não faltam estuds que mostram os benefícios para o consumidor e para o ambiente, na medida em que uma cultura GM não precisa de tantos produtos químicos para fazer face a doenças e pragas como uma cultura convencional.

O próximo passo é inserir os genes candidatos na cultura apropriada. Começa então a operação meticulosa de selecionar o organismo ou planta que expressa a característica desejada. Isto leva-nos à última semelhança entre as culturas biotecnológicas e as drogas: ambas passam por um processo de aprovação de vários anos. No caso de um medicamento, o processo de aprovação consiste em verificar que a droga é eficaz e segura, ou seja, que faz o que foi projetada para fazer, com efeitos colaterais mínimos. No caso de uma cultura agrícola, o processo de aprovação depende, basicamernte, da garantia de que os alimentos são tão seguros como os alimentos não OGM e que não reptresentam riscos para o meio ambiente.

Na investigação do Pew Research Center, os invrestigadores perguntaram aos consumidores se a utilização da biotecnologia para produzir orgãos artificiais era uma utilização apropriada dos avanços na medicina. 74% respondeu sim.
Créditos da imagem: Genetic Literacy Project.

As culturas transgénicas atualmente aprovadas não representam preocupações de saúde ou ambientais maiores do que suas contrapartes não transgénicas. Mas o processo de aprovação tem sido tão politizado que leva, em média, 13 anos e 130 milhões de dólares para obter uma cultura aprovada. No caso dos animais, leva mais tempo. O único animal de bioengenharia a ser aprovado – o salmão da AquaBounty – levou 17 anos e ainda não está no mercado graças a uma luta política liderada pela senadora do Alasca Lisa Murkowski, que teme que o salmão transgénico do Atlântico ameace o salmão selvagem do Pacífico.

Em suma: a opinião favorável ou desfavorável dos consumidores sobre a biotecnologia está associada ao seu benefício direto. A aplicação da biotecnologia na medicina acolhe simpatias e aceitação porque as inovações médicas têm impactos imediatos e palpáveis ​​na saúde pública. Veja-se ao exemplo da diabetes, que já foi uma ‘sentença de morte’ e agora é uma doença controlável graças à insulina produzida com bactérias geneticamente modificadas. Outras terapias aprovadas pela FDA e que envolvem a engenharia genética estão também disponíveis para silenciar os efeitos da leucemia e do linfoma, responsáveis pela morte de mais de 40 mil pessoas por ano.

Reforçando a convicção de que o público aceita melhor a botecnologia quando experimenta benefícios diretos, um estudo de 2016 publicado no PLOS One mostra que 68% dos consumidores estão dispostos a aceitar engenharia genética quando usada ​​para melhorar a saúde humana. A aceitação cai para 49% quando a engenharia genética é aplicada à agricultura.

Mais informação aqui e aqui.

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