Transgénicos | Ativistas anti-OGM comprometem segurança alimentar em África com mentiras sobre culturas GM

 

agricultura em áfrica
Créditos da imagem: Pablo García Saldaña

Grupos de ativistas contra as culturas geneticamente modificadas, como a Greenpeace e outros, têm vindo a disseminar falsidades sobre os alimentos transgénicos. O alerta foi feito pela bióloga molecular sul-africana Jennifer Thomson, investigadora na Universidade da Cidade do Cabo.

 

Num episódio da série de podcasts chamada Talking Biotech, da autoria do cientista Kevin Folta, da Universidade da Flórida, EUA, a investigadora e bióloga molecular sul-africana da Universidade do Cabo Jennifer Thomson afirma que África tem o máximo a ganhar com a biotecnologia na agricultura, no entanto, alerta, os agricultores e os consumidores desse continente estão a ser altamente prejudicados por não terem acesso a grande parte das culturas geneticamente modificadas (GM).

Segundo a especialista, é essencialmente por razões políticas que se está a negar aos produtores agrícolas africanos esse acesso. Não são questões científicas e como prova disso apresenta o exemplo do que está a acontecer em muitos laboratórios africanos, onde se desenvolvem variedades de culturas GM resistentes a pragas e outras com mais vitaminas dos que as variedades convencionais. O problema, diz, é que essas experiências estão exclusivamente confinadas aos laboratórios onde se faz investigação, não sabendo prever quando ou se virão algum dia a ser cultivadas em plantações não experimentais e comercializadas.

Para Jennifer Thomsom, a resistência à biotecnologia reside, em boa medida, às “mensagens falsas” transmitidas por grupos norte-americanos e europeus anti-OGM, como a Greenpeace e outras influentes. Mensagens como “os alimentos transgénicos provocam cancro e infertilidade”, lamenta a investigadora, além de mentirosas, prejudicam as pessoas que mais poderiam beneficiar das vantagens da implementação da biotecnologia na agricultura.

jennifer Thomson
Jennifer Thomsom

De recordar que não é a primeira vez que os grupos ativistas anti-OGM são desmentidos por cientistas. Em 2016, por exemplo, 110 investigadores galardoados com o Prémio Nobel acusaram a Greenpeace e outras de cometer um crime contra a humanidade. Numa carta tornada pública, os subscritores afirmaram que estas organizações “apresentaram os transgénicos de forma incorreta, incluindo seus riscos, benefícios e impactos, e apoiaram a destruição criminosa de plantações aprovadas para testes e pesquisas.”

O texto pedia à Greenpeace que “reconhecesse as conclusões das instituições científicas competentes” e “abandonasse a sua campanha contra os organismos geneticamente modificados em geral e o arroz dourado em particular.” Os investigadores mencionaram vários estudos publicados nos últimos anos que mostram que as plantações de alimentos transgénicos são seguras e não muito diferentes das plantações normais.

Ouça aqui o podcast com a entrevista de Kevin Folta a Jennifer Thomsome siga o CiB no Twitter, no Facebook e no LinkedIn. No CiB, comunicamos biotecnologia.

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OGM | Milho transgénico está a transformar a vida dos agricultores nas Filipinas

Nas Filipinas, o milho Bt foi criado para ser resistente à broca asiática, Ostrinia furnacalis, uma das mais destruidoras do País. A tecnologia é uma solução prática e ecologicamente sustentável para os agricultores de milho mais pobres em todo o mundo, permitindo-lhes aumentar os rendimentos e diminuir o uso de pesticidas. Depois do milho, outras culturas transgénicas estarão a caminho, como o algodão Bt, a beringela Bt e o arroz dourado.

milho Bt
Créditos da imagem: Brasil agrícola

“Antes, eu não dormia bem quando semeava milho”, recorda o agricultor filipino Edwin Paraluman. “Sempre receei um dia acordar e encontrar o meu campo de milho totalmente destruído pela broca. Isso pode acontecer porque a broca, nas Filipinas, não respeita nenhuma estação. Onde houver milho, ela está sempre presente.”

Nenhum dos esforços empreendidos por Paraluman para reduzir as perdas na produção resultaram. “Ficava sempre a perder quando cultivava milho, até que chegou uma altura em que pensei seriamente em deixar de lado o milho e dedicar-me ao cultivo de vegetais, como abóbora, vagem e outros”, acrescentou.

Ano após ano, foi uma sucessão de perdas significativas na produção de milho para este Agricultor Filipino, para quem o cultivo de milho é um modo de sobrevivência há muitos anos, desde que era criança e vivia com os pais, também eles agricultores. Por isso é que a sua “alegria não teve limites” quando soube da existência de uma tecnologia que impede o ataque da broca do milho. Paraluman foi dos primeiros agricultores no seu País a adotar a tecnologia e a produzir milho Bt, geneticamente modificado, resistente a pragas.

As Filipinas são o primeiro País do sudeste asiático a aprovar, para comercialização, uma cultura geneticamente modificada para alimentação humana e ração animal. E o Bangladesh foi o primeiro País do sul da Ásia a aprovar, também para comercialização, o cultivo de beringela Bt resistente a pragas.

O milho Bt nas Filipinas foi criado para ser resistente à broca do milho asiática, Ostrinia furnacalis, uma das mais destruidoras do País. A tecnologia apresenta-se também como uma solução prática e ecologicamente sustentável para os agricultores de milho mais pobres em todo o mundo, permitindo-lhes aumentar os rendimentos e diminuir o uso de pesticidas.

Paraluman compartilhou a sua experiência na Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, em novembro de 2018, afirmando que o cultivo de milho Bt mudou a sua vida para melhor. Disse ter ganho paz de espírito e mais tempo para se dedicar a outras coisas, como cuidar da sua família e fazer trabalhos paralelos.

“Em dezembro de 2003, o milho Bt foi aprovado para comercialização e eu fui o primeiro agricultor a lançar as sementes na terra. A primeira vez que semeei milho Bt, fiquei tão impressionado que em sete hectares cultivados não vi nenhuma broca de milho”, lembrou. “Não tive mais danos no meu milho. Adotei o milho geneticamente modificado e isso mudou minha vida. Antes, a minha casa era muito pequena, mas agora é muito grande. Agora, tenho um bom rendimento, pelo que posso proporcionar à minha família coisas que antes não podia. Partilho a minha história com outros agricultores para que eles conheçam as vantagens desta tecnologia.”

Paraluman refutou alegações de que as culturas geneticamente modificadas causam problemas de saúde. “Não é verdade o que dizem e eu sou a prova disso, porque tenho cultivado e comido milho Bt nos últimos catorze anos e continuo forte e saudável”, observou. A adoção da tecnologia Bt tornou as Filipinas auto-suficientes na produção de milho”garantiu o agricultor. O país não importa mais milho e os agricultores planeiam exportar o excedente das colheitas.

Rhodora Aldemita, diretora do Centro Global de Conhecimento em Biotecnologia Agrícola do ISAAA, o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agro Biotecnológicas, disse que antes da adoção da tecnologia, os agricultores nas Filipinas registavam habitualmente uma perda da produção de milho para a broca na ordem de 30 a 50 por cento. “O problema da broca do milho nas Filipinas tinha um efeito devastador na produção”, disse Aldemita. “O custo do milho subiu porque éramos obrigados a importar, precisávamos de alimentos para o gado. Quando obtivemos a aprovação para cultivo [do milho transgénico], os agricultores começaram a semeá-lo em 2003. Os que adotaram a tecnologia passaram a palavra a outros agricultores porque verificaram que os benefícios eram enormes. A mensagem espalhou-se como fogo em mato seco. Já não é necessário fazer tantas pulverizações e o trabalho de gestão das culturas nos campos é mínimo.

“Atualmente, nas Filipinas, são mais de 400 mil os agricultores que trabalham com milho Bt. E “outros produtos Bt estão a caminho, como o algodão Bt, a beringela Bt e o arroz dourado”, disse Paraluman, esperando que esse dia não tarde. “A população nas Filipinas é de mais de 107 milhões e a nossa área cultivável está a diminuir. Por essa razão, a agricultura precisa de tecnologia moderna. Só assim poderemos cultivar e colher mais em menos menos terra”, acrescentou.

Este artigo foi escrito por Nkechi Isaac e publicado na Alliance for Science.

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Recursos | Alimentos GM são a salvação?

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Além de benéficos para a saúde, os alimentos geneticamente modificados (GM) estão a ser considerados uma solução inteligente para enfrentar a iminente crise de recursos alimentares. Saiba porquê, neste artigo publicado na revista Mens Health.

Porque é que as cenouras são cor de laranja? A pergunta é séria, não é uma piada de Michael McIntyre, e a resposta resume o que está em jogo na produção de alimentos geneticamente modificados: ciência, moda e, acima de tudo, política.

Serão os benefícios dos alimentos GM demasiado grandes para deixarmos uma oposição ingénua descartá-los completamente?


Os benefícios dos alimentos transgénicos serão assim tão grandes para deixarmos a oposição instintiva e ingénua descartá-los completamente? Os nossos antepassados conheciam as cenouras, mas nesse tempo as cenouras não como nós as conhecemos hoje. Eram pequenas e grossas como rabanetes e em vez de cor de laranja eram amarelas, brancas, roxas ou vermelhas.

No século XVII, a Holanda tinha os principais tecnólogos de vegetais do mundo e a cenoura foi um dos alimentos básicos que os holandeses decidiram “melhorar”. Através de técnicas de produção seletivas, tornaram-na mais doce e menos lenhosa. Ao longo do tempo, a cenoura tornou-se no vegetal de raiz cor de laranja que atualmente se produz em todo o mundo. A sua cor, diz a lenda, estará associada a razões políticas: os holandeses quiseram homenagear o seu governante de então, Guilherme I, Príncipe de Orange, defensor da fé protestante e, a partir de 1689, também rei da Inglaterra.

O que é o CRISPR?

A sigla pode soar ao nome de uma start-up de alimentos sem glúten no leste de Londres, mas CRISPR é um novo sistema molecular que os investigadores podem usar para manipular o DNA mais rapidamente e de forma simples e precisa do que nunca.

Assim como o CRISPR é capaz de enriquecer os frutos com mais nutrientes e tornar os grãos resistentes aos efeitos das alterações climáticas, também poderá um dia ser usado em embriões humanos, embora, neste caso, se coloquem considerações éticas significativas.

O melhoramento seletivo é modificação genética: é a engenharia do DNA, o código dentro das células. Os seus resultados são visíveis no corredor de vegetais de qualquer supermercado e em animais domésticos. É o que faz um cão Dachshund ter uma aparência tão diferente da de um Great Dane, apesar de pertencerem à mesma espécie. Isso é evolução, acelerada e dirigida da maneira que nós, humanos, queremos – no caso dos cães, criar um animal socialmente amigável e de companhia, com um comportamento distinto dos lobos.

O cavalo de corrida puro é o produto de mais de três séculos de ajustes de DNA, emparelhando o melhor macho com a melhor fêmea. Apesar do entusiasmo da sua própria família por essa forma específica de modificação genética, o príncipe Charlos de Inglaterra opôs-se aos seres humanos que brincam com a natureza fazendo-se passar por Deus. Mas, como o cientista Richard Dawkins rebateu: “Nós temos vindo a fazer de Deus há séculos!”

Design inteligente

O problema com a aquisição de poderes divinos é que provavelmente faremos uso deles. Quando as técnicas de alteração de genes transitaram das estufas para os laboratórios, os investigadores concentraram-se em ajudar os produtores, criando plantas com maior produtividade, reduzindo a sua dependência de pesticidas e desenvolvendo frutos e vegetais com um prazo de validade mais longo. É por isso que temos hoje cogumelos que não são castanhos e tomates que estão mais uniformemente espaçados nos galhos da planta, para que possam ser colhidos mais facilmente pelas máquinas. E, no reino animal, já temos salmão que cresce duas vezes mais depressa.

 

O problema com a aquisição de poderes divinos é que provavelmente faremos uso deles

Mas a última safra é diferente. Os novos organismos geneticamente modificados (OGMs) prometem benefícios para todos nós, consumidores. Produzir alimentos mais saudáveis tornou-se o objetivo primordial dos usuários comerciais da tecnologia, até porque é uma maneira de conquistar os mais céticos. Temos trigo cujo glúten não afeta os que sofrem de doença celíaca, temos abacaxi (“milenar rosa”) enriquecido com licopeno e nutrientes anticancerígenos e temos pão branco desenvolvido para ser mais rico em fibra. O trabalho de Deus está em progressão e parece improvável que até mesmo o príncipe Carlos possa travá-lo.

Na próxima década, o número de novos cultivos focados na promoção e manutenção da saúde deverá aumentar exponencialmente. Isso é parcialmente resultado de uma nova técnica de edição de DNA, CRISPR (abreviação de “repetições palindrómicas curtas, agrupadas e regularmente interespaçadas”) que trabalha com características nativas de uma maneira que poderia ocorrer na natureza, mas com uma precisão sem precedentes. Isso difere dos métodos anteriores de modificação genética, nos quais uma cópia de um gene de um organismo seria colocada noutro, com o qual não se poderia reproduzir naturalmente.

Na “ponta afiada” desta nova tecnologia está Geoff Graham, vice-presidente de criação de plantas da empresa norte-americana Corteva Agriscience, que criou óleos vegetais modificados para conter níveis mais altos de gorduras monoinsaturadas.

“O CRISPR e a modificação genética podem ser usados para melhorar a qualidade nutricional”, afirma. “Por exemplo, CRISPR está a ser usado no tomate para torná-lo mais saudável, aumentando os níveis de Gaba [ácido gama-aminobutírico, que está associado à promoção de melhor sono e menor pressão arterial]. A tecnologia também está a ser explorada como uma ferramenta para reduzir as reações prejudiciais a certos alimentos, como amendoins que não provocam alergias”. O óleo de Corteva, chamado Plenish, é feito de soja modificada para conter 20% menos gordura saturada. Também é mais estável durante o cozimento.

As novas culturas GM prometem benefícios para os consumidores, sendo embalados com nutrientes extras

A partir do momento em que sabemos que a dieta pobre é responsável por uma em cada cinco mortes em todo o mundo – e a educação nutricional não está a causar o impacto esperado -, os superalimentos produzidos em laboratório parecem oferecer uma solução lógica. Afinal de contas, se não mudarmos os nossos hábitos, tentar melhorar os alimentos que estamos a comer é uma tarefa que pode valer a pena.

Mesmo os alimentos há muito considerados “saudáveis” sofreram um impacto nutricional nos últimos anos, já que a agricultura intensiva diminuiu os níveis de vitaminas e minerais presentes nos frutos e vegetais. A nova tecnologia que impulsiona a nutrição pode ser a nossa melhor oportunidade de corrigir isso. Mas, é claro, nem todos estão convencidos.

 

Os Superalimentos do futuro

01 / Hambúrgueres sem carne

Sem a leghemoglobina de soja, feita com levedura geneticamente modificada, não o seria possível confecionar o vegan Impossible Burger, preparado para os consumidores sentirem o gosto, o cheiro e a sensação de um verdadeiro pedaço de carne de vaca. Este hambúrguer é vendido em todos os Estados Unidos da América.

02 / Batatas fritas mais saudáveis

Vendido nos EUA desde 2015, os White Russets, da Simplot Plant Sciences, contêm menos asparagina com aminoácidos, o que poderia reduzir os níveis de acrilamida cancerígena quando fritos.

 

03 / Pão com baixo índice glicémico

A Calyxt está a desenvolver um trigo que poderia produzir farinha branca com o triplo da fibra e níveis de glicose mais baixos. A empresa espera lançar este produto nos EUA dentro de dois anos.

04 / “Óleo de peixe” vegan

Ao adicionar genes de algas a plantas de camelina, uma equipa da Rothamsted Research, em Hertfordshire, criou um óleo vegetal rico em ácidos graxos ómega-3 encontrados em peixes. É bom para o ambiente e é saboroso na salada.

05 / Tomate Roxo

Produzido no John Innes Center, em Norwich, este tomate contém níveis mais altos de antocianinas que protegem o coração e dão aos bagos a tonalidade roxa. Foi produzido para ter um efeito anti cancerígeno em camundongos.

 

Mentes suspeitas

A principal barreira para muitos desses alimentos que começam a ser produzidos é a desaprovação pública. Quando um novo fruto-maravilha transgénico “salta” dos jornais científicos para o Daily Mail, a notícia é transmitida com um destaque sobre “Comida Frankenstein”.

Desde o início que a engenharia genética levanta preocupações morais e práticas. Uma das preocupações reside no controlo: como podemos regular de forma justa e evitar que as empresas produtoras abusem dessas tecnologias? No Reino Unido, esta questão é mais relevante agora do que nunca. Embora as atuais leis da União Europeia garantam que o desenvolvimento e o uso de culturas GM sejam altamente restritos, a situação pode mudar em breve com o Brexit. Qualquer acordo comercial com os EUA provavelmente resultará no facto de o Reino Unido aceitar as regulamentações alimentares americanas mais frouxas.

A preocupação mais significativa é o risco para a nossa saúde. Ao tentar resolver um problema, corremos o risco de criar um pior? Em estudos recentes sobre a tecnologia usada na modificação genética, os investigadores descobriram efeitos preocupantes que podem afetar os seres humanos. Por exemplo, um artigo publicado na revista Plos One descreveu borboletas com asas deformadas que estavam a alimentar-se de plantas transgénicas, alteradas para produzir gorduras ómega-3 saudáveis. Mas, como é que os cientistas poderiam ter a certeza do que deformara as borboletas? E os humanos seriam igualmente afetados?

Michael Antoniou, do King’s College London, trabalha em terapia genética – em particular, na adaptação de genes para tratar doenças de base genética. “Há alegações dos Estados Unidos de que ninguém foi prejudicado comendo alimentos transgénicos. Mas ninguém realmente viu”, afirma este especialista ele. “Um número crescente de estudos laboratoriais em ratos e camundongos está a mostrar evidências de danos, principalmente na função renal, hepática e, em certa medida, digestiva e do sistema imunológico.” M. Antoniou acredita que “uma dieta GM pode causar os efeitos adversos observados nesses estudos.”

As opiniões deste especialista são controversas. Embora Antoniou faça parte de uma rede de centenas de cientistas que se juntam a grupos ecologistas em campanhas para restringir a investigação sobre transgénicos, em todo o mundo há mais cientistas pró-GM do que contra.

Uma das principais queixas do lobby pró-GM é que o medo do público e a cautela governamental – especialmente na Europa – estão a atrasar o progresso da investigação em técnicas com benefícios potencialmente amplos. Entre os cientistas que falam a favor de uma abordagem mais aberta está Jayson Lusk, professor de economia agrícola na Universidade Purdue, em Indiana. “É apenas uma ferramenta e uma ferramenta pode ser usada para o bem ou para o mal”, garante. “Uma rejeição generalizada de uma ferramenta é uma posição ingénua e não crítica. Precisamos de uma avaliação caso a caso”.

O futuro está nas mãos da opinião pública e dos decisores políticos e, no momento, estão ambos cautelosos com a tecnologia. A pesquisa de Lusk sobre as atitudes dos consumidores dos EUA mostra que, no mínimo, a indústria dos alimentos GM tem culpa desses medos públicos. Nos EUA, onde quase 90% das culturas agrícolas básicas, como milho, soja, algodão e beterraba, são GM, os consumidores “sabem muito pouco” sobre a tecnologia.

A indústria prefere que assim seja e fez campanha sem sucesso contra uma lei de 2016 que, em breve, tornará obrigatória a rotulagem de produtos GM. Esse ponto de vista poderia ter feito algum sentido quando o uso da tecnologia não oferecia nenhum benefício claro para o consumidor. Mas, com a chegada de, digamos, pães sem glúten, as empresas podem decidir reconsiderar a sua posição. Em qualquer caso, a transparência parece funcionar melhor. Em Vermont, o único estado americano onde já é obrigatório rotular os produtos, a resistência do consumidor à tecnologia baixou. Os rótulos dão às pessoas uma sensação de controlo e, portanto, de menor risco.

É difícil prever se a introdução dos novos superalimentos geneticamente modificados mudará a opinião dos consumidores, mas, no momento, as posições contra a tecnologia parecem estar a endurecer, sobretudo na Europa. Há três anos, nos Estado Unidos, o salmão transgénico – que contém DNA de diferentes espécies e cresce duas vezes mais depressa – foi considerado isento em termos de efeitos para a saúde, mas ainda está com problemas de aceitação pública.

Como muitos académicos, Lusk acredita que a oposição “ingénua” aos alimengtos GM é contraproducente – que os benefícios da tecnologia são grandes demais para permitir que os medos instintivos a descartem. E a comida mais saudável não é, provavelmente, a questão mais urgente. O maior benefício da tecnologia reside no seu potencial para ajudar a alimentar as 9,8 bilhões de pessoas que habitarão este planeta até 2050, já que as alterações climáticas dificultam cada vez mais o cultivo em regiões que antes eram adequadas.

Os animais geneticamente modificados também estão a caminho, embora esses ajustes não sejam tão extremos quanto os dos filmes de ficção científica, como a super-galinha em Oryx e Crake, de Margaret Atwood, que não tinha olhos nem pernas, apenas vinte mamas e uma boca. Mais subtis, mas imensamente importantes, são as alterações nas bactérias intestinais dos animais, permitindo-lhes ingerir resíduos como palha e, no caso de porcos e vacas, produzir menos metano (uma das principais causas do aquecimento global).

A próxima geração

Em última análise, será o sentido lógico da tecnologia, mais do que o desejo por frutas que combatem o cancro, que irá mudar a opinião pública. Veja-se o caso do autor Mark Lynas, que na década de 1990 foi um eco ativista determinado a impedir que as grandes corporações corrompessem a natureza em prol do lucro. Em investidas noturnas, Mark e os seus amigos destruíram plantações GM cultivadas em campos experimentais e chegaram a atirar uma torta a um economista pró-OGM. Os esforços de militantes anti-OGM levaram empresas como a Monsanto a tornarem-se, aos olhos da opinião pública, espiões globais, acusados ​​de “aprisionar” os agricultores às suas sementes transgénicas patenteadas e aos seus produtos químicos.

Mas Lynas é atualmente uma persona non grata na organização ecologista Greenpeace e noutros grupos ativistas ambientais. Ele é agora um dos mais ferozes críticos do movimento anti-OGM, apelidando-o de hipócrita.  “Não se pode defender o consenso científico sobre as alterações climáticas [com sendo responsabilidade da ação humana], ao mesmo tempo em que se nega o consenso científico, igualmente forte, de que a tecnologia usada nas culturas GM é segura e tem enormes benefícios”, justifica.

No seu livro Seeds of Science: Why We Got It So Wrong on OGMs, publicado no início deste ano, Lynas acusa a campanha anti-OGM de negar-nos essa tecnologia sem outra razão senão o preconceito, usando argumentos sem base científica. “Os OGM, tal como as máquinas de lavar ou os carros, é uma tecnologia e temos de tomar uma decisão política … quanto a se queremos usá-la ou não e até que ponto queremos usá-la”, escreveu o autor científico George Monbiot no livro de Lynas.

Os políticos hesitaram em relação à tecnologia de alteração de genes durante anos. Atualmente, na Grã-Bretanha e nos outros países da UE, a não ser que se tenha uma dieta estritamente biológica ou vegana, as pessoas estão seguramente a consumir produtos GM, uma vez que a forragem que se dá aos animais é autorizada no País. Mas a Europa continua a manter o muro que ergueu contra a tecnologia dos OGM: em julho, após meses de debates, o Tribunal de Justiça Europeu determinou que as novas tecnologias de edição genética, como o CRISPR, deve submeter-se às mesmas regras de controlo dos métodos de melhoramento de plantas mais antigos.

Ainda assim, estão a fazer-se progressos. A Costa Rica está a produzir abacaxis rosa, que receberam o selo de aprovação da Food and Drug Administration dos EUA. No ano passado, na Austrália, investigadores apresentaram uma banana cor de laranja com altos níveis de pró-vitamina A, desenvolvida para tratar deficiências nutricionais no Uganda. Com as preferências ocidentais em mente, os cientistas do Laboratório Sainsbury, em Norwich, Inglaterra, estão a modificar batatas para as tornar mais saudáveis quando fritas.

Com tais ferramentas agora disponíveis, parece improvável que se possa impedir de explorá-las. Se isso é bom ou mau, seguro ou preocupante, ainda é uma questão de em discussão. No entanto, uma coisa é certa: o futuro dos alimentos está cada vez mais próximo.

 

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Vídeo TEDx | Transgénicos: Heróis ou Vilões

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Vídeo TEDx
Transgénicos: Heróis ou Vilões

Podem pensar que a comida é natural, não? Mas a verdade é que um tomate cherry tem mais tecnologia do que um iPhone.

A comunicação TEDx de José Miguel Mulet, em Espanhol, leva o público a descobrir outra perspectiva sobre os organismos geneticamente modificados (OGM) produzidos para a agricultura e alimentação, que tanta controvérsia geram na actualidade. Discute o conceito de alimentos “naturais” e conta a história muito antiga do melhoramento genético de plantas para produção de alimentos presentes nas nossas refeições, dando o exemplo do desenvolvimento da cenoura, do tomate, das batatas, entre outros.

Na sua apresentação refere também produtos geneticamente modificados do nosso dia-a-dia, tais como: notas de euro, roupa, cotonetes, comprimidos, insulina, detergentes de roupa (produzidos com enzimas com origem na engenharia genética). Desmonta abordagens que disseminam desinformação passada pelos movimentos anti-OGM.

O divulgador de ciência explica que a tecnologia dos Organismos Geneticamente Modificados não é a tecnologia mais recente, mas a penúltima. Para descobrir qual é e em que consiste visualize o vídeo. No final, termina, declarando que está muito tranquilo e que come sem medo.

José Miguel Mulet é Investigador e Professor da Universidade Politécnica de Valência (Espanha), na área de química, biologia molecular e biotecnologia. A sua investigação dedica-se ao desenvolvimento de plantas resistentes à seca. É divulgador de ciência em áreas como biotecnologia e alimentação, tendo publicado vários livros como “Transgénicos sin Miedo”, “Comer sin Miedo”, entre outros.

MAIS INFORMAÇÃO

 

OGM | Milho Bt beneficia culturas biológicas e convencionais: Investigação de 40 anos de dados

Maçaroca de milho convencional com ataque de broca e fungos - CiB (2)

 

Investigação científica em OGM
Análise de 40 anos de dados:
Milho Bt beneficia culturas biológicas e convencionais

12 Março 2018 | Artigo científico PNAS

Uma meta-análise de dados de 40 anos de cultivo de milho Bt confirma que a utilização das variedades de milho geneticamente modificado contribuem para a grande redução de aplicação de insecticidas e beneficiam culturas vizinhas, tanto convencionais como biológicas (orgânicas), com redução dos impactos no meio ambiente, mas também na saúde de pessoas e animais.

O estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences – PNAS (ver referência em baixo) é uma análise de dados de 1976 a 2016 (40 anos), que compara os 20 anos anteriores e os 20 anos após a comercialização de milho Bt. Estudos anteriores tinham já demonstrado os benefícios da adopção de milho Bt ou de algodão Bt na redução de aplicação de insecticidas, para benefício económico dos agricultores e para uma melhor gestão de pragas. Contudo, este é o primeiro estudo a analisar os seus efeitos em culturas vizinhas.

 

Maçaroca de milho convencional com ataque de broca e fungos - CiB (1)
Legenda: Maçaroca de milho convencional afetada pela broca e infectada com fungos (que se instalam devido aos ferimentos provocados pelos insectos e produzem micotoxinas cancerígenas para animais e pessoas).

 

O milho Bt (exemplo na imagem em baixo) é geneticamente modificado para resistir a ataques de insectos, como a broca europeia, uma praga com incidência elevada em algumas em algumas regiões de Portugal e de outros países da Europa.  Visualise a imagem em cima e no topo que mostram maçarocas de milho convencional com praga da broca e fungos (que se instalam após o ataque do insecto e produzem micotoxinas cancerígenas para animais e pessoas). O milho Bt é cultivado em mais de 80 por cento das explorações agrícolas que produzem milho nos Estados Unidos da América.

 

Macaroca Milho Bt Mon810 (OGM) - FotoCiB
Legenda: Maçaroca de milho Bt geneticamente modificado para resistir ao ataque de broca

Os investigadores quantificaram os efeitos do milho Bt em campo. Os dados de monitorização mostram:

. A diminuição de actividade de insectos adultos (fase de traça ou borboleta nocturna);
. A diminuição de aspersão de insecticidas;
. A diminuição de danos noutras culturas, como: milho doce, pimentas e feijão verde.

Estes benefícios nunca tinham sido documentados e demonstram que as culturas Bt são ferramentas poderosas para reduzir populações de pragas, beneficiando também outras culturas vizinhas.

A segurança do milho Bt tem sido extensamente testada e tem sido comprovada, mas este estudo foca a sua eficácia na gestão de pragas e, em particular, os benefícios para outras culturas que não o milho Bt, explicou Dilip Venugopal, um dos autores deste estudo.

Outros dos autores, Galen Dively, explicou que “este é o primeiro trabalho publicado que mostra os benefícios paralelos noutras plantas hospedeiras da  broca europeia, uma praga severa para muitas culturas como o feijão verde e os pimentos”. E acrescentou “de facto observa-se mais de 90 por centro de supressão da população de broca europeia na nossa área para essas culturas, o que é incrível.”.

Há mais de 20 anos que os agricultores têm benefícios económicos pelo cultivo de variedades de milho GM, como referido por Brookes e Barfoot no seu relatório de 2017:  GM crops: global socio-economic and environmental impacts 1996-2015 (ver referência em baixo). Mas este artigo agora publicado na revista PNAS demonstra que o milho Bt traz ainda mais vantagens, pois promove a redução da aplicação de pesticidas e beneficia  as culturas vizinhas, tanto biológicas como convencionais.

Estas evidências demonstram que as críticas dos grupos anti-OGM, que afirmam que as culturas transgénicas aumentam o uso de pesticidas e são uma ameaça à agricultura biológica,  não fazem sentido.

INFORMAÇÃO ADICIONAL

GMOinfo.eu | Novo website pan-europeu sobre OGM na Agricultura

gmoinfoeuportugal

GMOinfo.eu
Novo website pan-europeu sobre OGM na Agricultura
em 10 línguas

Março de 2018 – Europabio

O tema dos Organismos Geneticamente Modificados (conhecidos por OGM)  continua a sofrer de desinformação na Internet, dada a constante dissiminação de notícias incorrectas ou falsas que espalham medos e reacções negativas sobre a sua utilização, principalmente quando  é abordado no contexto de produção Agrícola e Alimentar.

O website GMOinfo.eu foi lançado pela Europabio – Associação Europeia das Bioindústrias para divulgar informação credível, baseada em factos científicos, em colaboração com 11 países. O GMOinfo.eu está disponível em 10 línguas, incluindo o Português em GMOinfo.eu.pt. O projecto inclui ainda a divulgação através do Twitter. A versão Portuguesa é @GMOinfoEU_pt.

O website inclui quatro secções principais  – Comércio e Aprovações; Cultivo e Benefícios, Inovação e Propriedade Intelectual; e Ciência e Segurança – e ainda uma secção de notícias. Na secção “Ciência e Segurança” pode ler-se no texto de introdução:

A Biotecnologia Agrícola (ou Agrobiotecnologia) permite aos melhoradores de variedades vegetais introduzir genes, com origem da mesma espécie ou de diferentes espécies, numa planta e/ou editar genes existentes. O objectivo é melhorar essas variedades e promover características específicas nas culturas. Este processo permite aos agricultores contribuírem para a produção de alimentos, têxteis e combustíveis de forma mais eficiente e sustentável e ir de encontro às necessidades dos consumidores.

O melhoramento de culturas através da Biotecnologia permite tornar as culturas mais robustas contra doenças, resistência a determinadas pragas e herbicidas, a tolerarem condições de seca ou a tornarem-se mais nutritivas. Tem também a vantagem de usar técnicas mais específicas e rápidas do que as utilizadas no melhoramento convencional de variedades vegetais, porque apenas um ou alguns genes de interesse são introduzidos no genoma receptor, ultrapassando a necessidade de cruzar plantas múltiplas vezes, tal como é necessário no melhoramento tradicional.

Sendo apenas uma das ferramentas entre todas as que existem à disposição dos agricultores no contexto da agricultura moderna, o uso de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) e de outras técnicas da Agrobiotecnologia tem um vasto potencial para enfrentar muitos desafios ambientais e sociais.

A Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA, sigla em Inglês) e a Comissão Europeia, conjuntamente com reguladores em todo o mundo e Academias de Ciência, incluindo o Conselho Consultivo das Academias Europeias de Ciências (EASAC, sigla em Inglês), concordam que as culturas geneticamente modificadas (conhecidas também por culturas GM ou transgénicas) são tão seguras como as culturas convencionais. Desde o início da sua comercialização, em 1996, não houve evidências de efeitos nocivos para a saúde de animais e pessoas ligados ao consumo de quaisquer culturas GM autorizadas.

Mais informação

  • Grandes destaques da página principal do GMOinfo.eu (em 20 de Março de 2018):
. Artigo Científico – Dados de 40 anos quantificam beneficios de milho GM em culturas biológicas e convencionais
. Artigo Cientifico – Milho Transgénico: 21 anos de dados confirmam segurança e benefícios para saúde e ambiente
. Guia Prático: Culturas GM e Políticas na UE
. Vídeo – O melhoramento genético de plantas no nosso dia-a-dia

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Convite | 29 Nov – Apresentação do Guia “Culturas GM e Políticas na UE”

Guia Culturas GM - Europabio 2017 - PT - 1000px2

Convite
Sessão de Apresentação
do Guia “Culturas GM e Políticas na UE”

29 Novembro, 16h, FCUL, Lisboa
Entrada Livre

 

A Associação Europeia das Bioindústrias (Europabio) publicou um caderno sobre culturas geneticamente modificadas (GM) – Guia Prático – Culturas GM e Políticas na UE -, com tradução em Português.

Convidam-se todos os interessados a participarem na sessão de apresentação do guia, a realizar em 29 de Novembro de 2017, pelas 16h, na Faculdade de Ciências – Universidade de Lisboa  (sala 2.2.14, no edifício C2, Campo Grande).

 

  • Apresentação do Guia “Culturas GM e Políticas na UE” 
    por Pedro Narro Sanchez
    Gestor de relações públicas para a área de Biotecnologia Verde da Europabio
  • Opinião
    por José Diogo Albuquerque 

    Director executivo do Agroportal e Consultor
  • Moderação por Pedro Fevereiro
    Presidente do CiB – Centro de Informação de Biotecnologia

 

O guia “Culturas GM e Políticas na UE” apresenta um ponto de situação sobre as Culturas Geneticamente Modificadas (GM) – conhecidas também por transgénicas – no mundo e o seu contexto na realidade da União Europeia. São abordados ainda os seguintes temas: funcionamento do comércio e das aprovações; o cultivo das culturas GM e os seus benefícios; e inovação e propriedade intelectual. Este é um guia útil para quem quiser compreender o potencial das culturas GM para a agricultura, para a alimentação, para o ambiente, para a economia e para a sociedade.

Durante a sessão, o caderno será distribuído gratuitamente. Também é possível fazer download da versão digital.

Vídeo | Melhoramento genético de plantas no nosso dia-a-dia

Vídeo
Melhoramento genético de plantas no nosso dia-a-dia

CiB Brasil – Agosto 2017

O CiB Brasil – Conselho de Informações sobre Biotecnologia produziu uma animação em vídeo sobre o melhoramento de variedades vegetais com utilidade na agricultura.

O melhoramento genético de plantas é responsável por muitos dos alimentos que consumimos hoje. Desde a seleção de variedades por agricultores ancestrais, passando pela descoberta de como as características são transmitidas de uma geração para outra, até às modernas técnicas que modificam plantas ao nível molecular, o melhoramento tem contribuído para o desenvolvimento de alimentos mais saborosos e sustentáveis.

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Livro Gratuito | Sim aos OGM! Para nós e para o ambiente

Livro - Yes to GMO

Livro Gratuito
Sim aos OGM! Para nós e para o ambiente

O livro “Yes to GMOs! For us and the environment”, dos autores Borut Bohanec & Mišo Alkalaj, aborda as questões relacionadas com os Organismos Geneticamente Modificados e a sua importância para os seres humanos, a agricultura e para o ambiente, tais como:

  • Como os OGM estão distribuídos pelo mundo?
  • Como a genética protege as culturas contra pragas, fungos e doenças provocadas por bactérias e vírus?
  • Como as plantas podem tornar-se resistentes ao frio e necessitar de menos fertilizantes?
  • Como as plantas e os animais podem produzir medicamentos?
  • Como as alergias alimentares podem tornar-se algo do passado?

E ainda:

  • Porquê que estas maravilhosas conquistas são mantidas em segredo?

DOWNLOAD GRATUITO

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VIDEO da TEDxL do autor Borut Bohanec
“GMO controversies – science vs. public fear”

 

 

 

Opinião – As dez mentiras sobre os OGM

As dez mentiras sobre os OGM - Por Marcel Kuntz 2017

As dez mentiras sobre os OGM

Por Marcel Kuntz*

Os Dicionários Oxford elegeram “pós-verdade” (traduzido do Inglês “post-truth”) como a “Palavra do Ano” de 2016. A expressão “pós-verdade” é definida como “relacionar ou salientar circunstâncias em que os apelos à emoções ou crenças pessoais são mais importantes na formação da opinião pública do que os factos objectivos”. Os Dicionários Oxford comentam que “nesta era de pós-verdades políticas, torna-se fácil escolher os dados que mais convêm e induzir as conclusões pretendidas”. Os autores parecem aludir ao referendo sobre o Brexit e às eleições presidenciais dos Estados Unidos da América e, provavelmente, a outros governos qualificados como “populistas”.

Contudo, esta definição de “pós-verdade” aplica-se também ao que se tem passado nos últimos 20 anos no domínio científico e tecnológico.

Proponho ilustrar a minha tese usando como exemplo os “OGM” e as 10 “melhores” pós-verdades que lhes são, muitas vezes, associadas.

1 – A primeira não é literalmente uma “pós-verdade”, mas sim a demonstração de uma imaginação sem limites da União Europeia, quando se trata de implementar uma legislação tão absurda como contra produtiva. Em 1990, os Estado Membros criaram o conceito de “OGM” [a sigla para Organismos Geneticamente Modificados]. A Directiva enumera todos os métodos que permitem o melhoramento das características de um organismo (por exemplo, uma planta) para responder às necessidades do Homem (por exemplo, necessidades agrícolas), para depois os excluir de todos nos anexos desta mesma Directiva. Todos, excepto uma técnica, a mais recente, sobre a qual passarão a pesar, sem prova de uma qualquer necessidade científica, restrições associadas a avaliações complexas e dispendiosas. Devemos, portanto, ter presente que um OGM é legalmente definido pelo método da sua obtenção e não pelas suas propriedades, o que seria mais relevante e adequado.

2 – Para mim, a melhor demonstração da “pós-verdade” sobre os OGM é a afirmação de que estes são estéreis. Este mito advém de uma extrapolação abusiva: das patentes que descrevem abordagens para a produção de sementes estéreis. No entanto, no terreno, nenhuma cultura é estéril nesta categoria regulamentar de “OGM”.

3 – A “pós-verdade” não necessita de ser coerente: estas alegações de esterilidade estão em manifesta contradição com outras que afirmam que os OGM vão disseminar-se por todo o lado. É, portanto, preciso escolher entre: os OGM são “estéreis” ou são “invasivos”! Na verdade, nenhum dos casos é verdadeiro.

4 – O agricultor deixaria de ter o direito de voltar a semear uma parte da sua colheita por causa das patentes. Este argumento permitiu aos opositores mobilizar uma parte da Sociedade Civil contra os OGM dramatizando a temática da “propriedade” das sementes, e do “controlo da nossa alimentação”. No entanto tudo isto é falso: de facto, a legislação Europeia sobre as patentes associadas a descobertas biotecnológicas permite ao agricultor produzir sementes para uso próprio (ver a Directiva Europeia 98/44/EC e o artigo 14 do regulamento (CE) n° 2100/94).

5 – Uma mentira relacionada com a anterior é a de que um agricultor poderia ser forçado a pagar direitos sempre que um OGM germina, por acaso, na sua propriedade. Na realidade, em nenhum país um agricultor pagou direitos, se vestígios de OGM foram detectados no seu campo, por exemplo, como consequência de uma polinização acidental proveniente de um campo vizinho. Este mito foi construído em torno do agricultor canadiano Percy Schmeiser. Os lobbies anti-OGM exploraram habilmente a narrativa sobre o “pequeno bom agricultor” (David) e a “grande maléfica multinacional” (Golias) no seguimento de um processo judicial da Monsanto contra Scheimer. Na realidade, a justiça canadiana estabeleceu que esse agricultor tentou deliberadamente apropriar-se de sementes sem pagar os direitos devidos, de acordo com a legislação canadiana.

6 – Os OGM seriam uma farsa, pois não aumentariam as produtividades. Convém salientar que estes organismos foram melhorados sobretudo para evitar perdas de produtividade causadas por insectos herbívoros ou por ervas daninhas. A realidade é que cerca de 18 milhões de agricultores de 26 países (incluindo 19 países em desenvolvimento) escolheram livremente utilizar variedades GM (o que não é o caso da maioria dos agricultores dos países europeus).

7 – Existiriam estudos que teriam demonstrado a existência de efeitos tóxicos dos OGM na alimentação. Se fosse o caso e sabendo que numerosos países usam OGM para alimentar o seu gado desde 1996, tal teria sido constatado pelos criadores de gado e veterinários há muitos anos atrás. Para perceber as manipulações efectuadas sobre este assunto, basta examinar as fotografias disseminadas pelo investigador e activista Séralini em Setembro de 2012: todo o mundo viu na internet as fotos de ratos com tumores monstruosos. Serão eles uma prova? Vejamos as fotos com mais detalhe: um rato terá sido alimentado com um OGM, outro com um herbicida e o terceiro terá sido alimentado com OGM e com o herbicida (durante 2 anos, tempo superior à expectativa da sua média de vida). Mas, onde estão os ratos controlo ou testemunhas (sem terem consumido OGM ou sem terem ingerido o herbicida)? Os ratos controlo nunca foram mostrados pelo seguinte motivo: também tinham tumores, simplesmente, porque esta linhagem de ratos desenvolve tumores quando começa a envelhecer.

8 – Outra “pós-verdade”: não se sabe nada sobre os insecticidas produzidos pelos OGM. De facto, algumas culturas (como o milho MON810, que obteve autorização Europeia em 1998) foram melhoradas para produzir internamente uma proteína com efeitos extremamente específicos contra certos insectos herbívoros (as brocas no caso do milho). O mesmo princípio activo combate igualmente as pragas de insectos na agricultura (inclusive na agricultura biológica) e na jardinagem, neste caso através da pulverização. E isto há seis décadas! Sem que se tenha detectado qualquer problema!

9 – Induzirão os OGM o desenvolvimento de “super” ervas daninhas? De facto, se se utilizar o mesmo herbicida (ou qualquer outro produto) ano após ano, serão selecionadas populações tolerantes a esse herbicida nas plantas-alvo. Nada de novo, nem específico quando se utilizam OGM. É o que acontece com todos os herbicidas utilizados. O problema advém de uma má gestão agrícola destes procedimentos e não do facto de se utilizar, ou não, uma variedade considerada dentro da categoria jurídica “OGM”.

10 – Os OGM não seriam suficientemente estudados ou seriam estudados apenas pelas empresas. De facto, as avaliações impostas pela presente legislação Europeia são desproporcionadas e continuam a ser cada vez mais exigentes, sem razão científica. Independentemente das empresas, a investigação pública em muitos países realizou estudos em todos os domínios (nomeadamente nas áreas da saúde e do ambiente). Foram efectuados milhares de estudos. Um dos exemplos são os estudos toxicológicos levados a cabo pelo projecto europeu GRACE, cuja execução foi especificamente solicitada pela Comissão Europeia. Estes estudos demonstram não existir justificação para qualquer tipo de alarmismos.

A “pós-verdade” usa uma estratégia deliberada, infelizmente muitas vezes com sucesso, aplicada em muitos domínios técnicos, desde a Biologia (as biotecnologias verdes como os OGM, mas também as vacinas), à Química (os pesticidas são um grande clássico dos apregoadores do medo) ou ainda à Física (especialmente no domínio da energia). O ponto comum? O desejo de introduzir areia na engrenagem da economia por alguns activistas políticos. Ou explorar temores demagógicos. Ou retirar empresas concorrentes do mercados. Estas três vertentes aparecem muitas vezes associadas. De facto a “pós-verdade” é uma das maiores ameaças actuais à democracia.

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* Marcel Kuntz – Formado em Biologia, Director de investigação do CNRS, Professor na Universidade Grenole-Alpes (UGA), especialista em biotecnologias agrícolas. Desenvolve também trabalho sobre as relações entre ciência e sociedade, numa perspectiva histórica.

Artigo disponível em Polaco e em Francês