Biotecnologia | bê-à-bá da edição e modificação genéticas

Live da entrevista ao Professor Pedro Fevereiro, CEO do Laboratoório Colaborativo InnovPlantProtect

Em entrevista ao jornalista Hugo Séneca, da Exame Informática, o biólogo Pedro Fevereiro, presidente da Direção do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia, CEO do novo Laboratório Colaborativo InnovPlantoProtec e investigador do ITQB NOVA, explica, de forma simples e acessível a leigos nesta área, como é que as novas tecnologias genómicas de melhoramento de plantas, entre as quais a edição de genomas, e a já “velhinha” tecnologia dos OGM podem dar um contributo decisivo para eliminar algumas das maiores pragas que afetam culturas importantes em Portugal como o milho, a pera rocha e o olival.

Assista aqui à entrevista.

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Pragas e doenças|”Temos três anos para conseguir pelo menos duas soluções capazes de funcionar em condições reais”

“Há novas pragas e doenças para as quais não existe atualmente nenhuma planta resistente e nenhum pesticida que as consiga controlar”. – Parte de um excerto da entrevista de Pedro Fevereiro, diretor-geral executivo do Laboratório Colaborativo InnovPlantProtect (InPP), na edição de maio da Voz do Campo.  

Leia o excerto completo, publicado na edição online da revista a 12 de maio.

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Relatório | As contradições da UE sobre a aplicação da biotecnologia na agricultura

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De acordo com o relatório anual de Biotecnologia Agrícola, que acaba de ser publicado, “há mais de duas décadas que os consumidores europeus estão expostos a um constante medo infligido por grupos anti-biotecnologia”, resultando em opiniões negativas dos consumidores em relação aos produtos geneticamente modificados (GE). Realizado pelo USDA Foreign Agricultural Service para a União Europeia, este relatório, de março de 2020, diz que o cultivo comercial de variedades transgénicas na UE foi limitado a dois países – Portugal e Espanha – e a apenas um por cento da área total de milho da UE (112 mil hectares na Península Ibérica). A variedade única autorizada para cultivo em Portugal e Espanha é proibida em todos ou em parte dos 19 Estados-Membros da União Europeia.

Segundo o relatório, a UE não exporta produtos geneticamente modificados, no entanto, importa anualmente mais de 30 milhões de toneladas de produtos de soja, entre 10 a 20 milhões de toneladas de produtos de milho e entre 2,5 a 5 milhões de toneladas de produtos de colza, principalmente para alimentação. A participação dos produtos geneticamente modificados no total de importações é estimada em 90 a 95% para os produtos de soja, pouco mais de 20% para o milho e menos de 25% para a colza.

Pode ler-se ainda no relatório que a estrutura política da UE para biotecnologia, desenvolvida com a forte influência de ativistas simpatizantes do movimento antiglobalização, cria uma carga regulatória desnecessária que não melhora a proteção do consumidor e não leva em consideração o conhecimento científico atual.

Veja-se o que aconteceu em julho de 2018, quando o Tribunal de Justiça Europeu decidiu que, no território da UE, os organismos criados com recurso a ferramentas biotecnológicas inovadoras deveriam ser regulamentados como organismos geneticamente modificados. Desde então, as partes interessadas que defendem a biotecnologia agrícola na UE são investigadores e profissionais do setor agrícola, incluindo agricultores, empresas de sementes e representantes da cadeia de fornecimento.

A decisão levou a União Europeia a solicitar à Comissão a realização de um estudo que clarificasse a situação.

Para informações mais detalhadas, leia o último relatório de Biotecnologia Agrícola.

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Edição do genoma | CRISPR-Cas12b é a nova ferramenta CRISPR 3 em 1

CRISPR-Cas12b
Créditos: National Institutes of Healthn

A maior parte das pessoas que já ouviram falar em CRISPR pensa em CRISPR-Cas9. No entanto, investigadores da Universidade de Maryland, nos EUA, estabeleceram um novo sistema CRISPR para a edição do genoma de plantas. O CRISPR-Cas12b é versátil, personalizável e permite a edição, a ativação e a repressão eficaz de genes. Tudo, num único sistema.

Liderada por Yiping Qi, a equipa de investigadores da Universidade de Maryland, nos EUA, está constantemente a explorar novas ferramentas CRISPR mais eficazes, mais eficientes e mais sofisticadas para ajudar a controlar as doenças e pragas em diferentes culturas agrícolas e a mitigar os efeitos das alterações climáticas. Numa publicação na Nature Plants, estes investigadores estabeleceram, pela primeira vez, um novo sistema CRISPR para edição do genoma de plantas. Chama-se CRISPR-Cas12b e além de versátil e personalizável, é uma espécie de três em um: edita, ativa e reprime os genes. Tudo isto num único sistema.

Segundo Qi, esta é a primeira demonstração do CRISPR-Cas12b para edição do genoma de plantas focado não apenas na edição, mas também na ativação e repressão dos genes – este conjunto completo de métodos não está presente noutros sistemas CRISPR para aplicação em plantas como o CRISPR-Cas9 e o CRISPR-Cas12a.

Embora o CRISPR-Ca12a seja muito semelhante ao CRISPR-Cas12b, nunca demonstrou uma forte capacidade na ativação de genes em plantas. Já o CRISPR-Cas12b é mais eficiente na ativação de genes e permite locais de segmentação mais amplos para a repressão genética, tornando-o útil nos casos em que a expressão genética de uma característica precisa de ser ativada, desativada ou recusada. Esta capacidade confere ao CRISPR-Cas12b uma vantagem sobre o CRISPR-Cas12a, principalmente quando a ativação do gene é o objetivo. O CRISPR-Cas12b mantém aquilo que o CRISPR-Cas12a poderia fazer pelas plantas, incluindo a capacidade de personalizar cortes e a regulação de genes numa ampla gama de aplicações.

Qi e a sua equipa foram capazes de redirecionar o sistema CRISPR-Cas12b para a edição do genoma multiplexado, possibilitando o direcionar múltiplos genes em simultâneo numa única etapa.

Mais informações na Nature Plants e no comunicado de imprensa da Universidade de Maryland

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Biotecnologia | Edição de genoma será um marco na agricultura moderna

CropLife
A sequência de um genoma vegetal é semelhante a uma biblioteca de letras. Dentro desta biblioteca de letras, há uma pequena proporção que corresponde a genes ou sequências com alguma função.

“A edição do genoma nas plantas é alcançada graças à biotecnologia de precisão e visa ser um marco significativo na agricultura moderna.

Atualmente, existem pedidos de permissão para vender tomate, arroz, milho, trigo, soja e cogumelos nos Estados Unidos. A edição genética promete mudanças nutricionais, como a produção de trigo sem glúten ou a redução de gorduras trans nos óleos de soja. Em que consiste?”

Está tudo explicado  aqui, no site da CropLife da América Latina.

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Media|CiB promove ação de formação sobre edição do genoma

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Créditos da imagem: Natali_Mis

Tal como em anos anteriores, o CiB-Centro de Informação de Biotecnologia vai realizar mais um workshop de formação para jornalistas e comunicadores de ciência, desta vez sobre “Edição do genoma- aplicações na medicina e na produção de alimentos”. Esta ação de formação terá lugar na manhã do dia 18 de novembro, no ITQB NOVA, em Oeiras, e contará como formadores Ana Sofia Coroadinha e Pedro Fevereiro, investigadores e professores auxiliares no ITQB NOVA.

O CiB – Centro de Informação de Biotecnologia convida todos os jornalistas, em especial os que trabalham na área da medicina, agricultura, nutrição e ambiente, a participar no workshop de formação para jornalistas sobre “Edição de genomas – aplicações na medicina e na alimentação”, que se realizará no dia 18 de novembro, entre as 11:00H e as 13:00H, no 4º piso do ITQB NOVA-Instituto de Biotecnologia Química e Biológica António Xavier, da Universidade Nova de Lisboa, em Oeiras.

A formação aos jornalistas estará a cargo de Ana Sofia Coroadinha, Professora Auxiliar e investigadora no ITQB NOVA/IBET, que irá falar sobre “As potencialidades da edição de DNA na cura de doenças genéticas”, e de Pedro Fevereiro, Professor Auxiliar e investigador no ITQB NOVA, com o tema “CRISPR-Cas9 e outras ferramentas de edição de genomas para uma produção de alimentos mais sustentável.”

A edição de genomas é um tema controverso, não obstante os resultados bastante promissores em diferentes áreas de aplicação. Na medicina, permite perspetivar a correção de 89% das doenças genéticas humanas conhecidas. Na agricultura, esta tecnologia garante uma produção mais sustentável de alimentos e um aumento da eficiência do melhoramento vegetal, o que, atualmente, se afigura pertinente e da maior importância para fazer face aos efeitos das alterações climáticas e do aumento da população mundial. A edição de genomas é apontada pelos investigadores como uma das chaves cruciais para muitos dos problemas relacionados com a medicina, produção de alimentos e ambiente.

Sobre os oradores:

Ana Sofia Coroadinha é Professora Auxiliar no ITQB NOVA/IBET, tendo como principal área de investigação o desenvolvimento e aprimoramento de linhas de células animais para a produção de biofármacos complexos, como proteínas recombinantes e partículas virais recombinantes para vacinas e terapia genética.

Pedro Fevereiro é Professor Auxiliar com Agregação do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e diretor do Laboratório de Biotecnologia de Células Vegetais no ITQB NOVA, tendo como áreas de investigação a Biotecnologia Vegetal, Engenharia Genética Vegetal, Diversidade Molecular e Genética de Plantas e Purificação e Caracterização de Enzimas Vegetais

 

Localização do ITQB Nova:

Avenida da República, Oeiras

http://www.itqb.unl.pt/contacts/itqb_location

Para mais informações e confirmação de presença, por favor contacte:

Carla Amaro

Gabinete de Comunicação | Communication Office

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CiB – Centro de Informação de Biotecnologia, Portugal
E-mail – gabcom@cibpt.org

Tel. +351 21 446 9768 // +351 91 266 3482

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Edição de genomas | Tecnologia está a ser usada para produzir trigo com menos glúten

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Créditos da imagem: Karim MANJRA/unsplash.com/@karim_manjra

Dada a importância do trigo na produção de pão e de uma infinidade de outros alimentos, investigadores de uma universidade norte-americana estão a usar a edição de genomas para produzir trigo com mais benefícios nutricionais.

O trigo é dos cereais mais presentes na dieta alimentar em todo o mundo. É fonte de mais de 20% das calorias consumidas, pelo não é difícil imaginar a sua extrema importância socioeconómica.

É por isso que uma equipa de investigadores da Universidade do Kansas, nos EUA, estão a usar tecnologias inovadoras como a edição de genomas para produzir trigo com benefícios adicionais, entre os quais níveis mais baixos de glúten.

Esta mais-valia permitiria que as pessoas sensíveis à proteína, em especial celíacas, pudessem comer pão e outros alimentos que incluem trigo na sua composição.

Saiba mais na parte 3 da série de vídeos “Inovação no Melhoramento de Plantas, da American Sees Trade Association e da CropLife International.

Clique aqui para ver também as partes 1 e 2 da mesma série.

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Relatório do WRI | Edição de genoma é uma das soluções para a crise de alimentos

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A produção de alimentos com a ajuda de ferramentas biotecnológicas, como os OGM e a edição de genoma, são uma das soluções apresentadas no último relatório do World Resources Institute para responder à necessidade de mais alimentos com o aumento da população mundial, que até ao ano 2050, estima-se, ultrapassará os 10 mil milhões de pessoas.

Realizado em colaboração com o Banco Mundial e as Nações Unidas (ONU), o estudo do World Resources Institute (WRI), “Creating a Sustainable Food Future“, avança vinte e duas medidas que poderão mitigar os efeitos do aumento da população mundial, entre os quais a escassez de recursos alimentares.

Segundo o documento do WRI, se continuarmos a produzir como produzimos hoje, a utilizar as ferramentas atuais e a travar as potencialidades de outras ferramentas na área da biotecnologia, não haverá comida para tantas pessoas (mais de 10 mil milhões em 2050).

Para os investigadores deste estudo conduzido por Tim Searchinger (investigador do WRI e professor na Universidade de Princeton, EUA), a alimentação tal como a conhecemos deve sofrer alterações, quer na sua constituição, quer no modo como é produzida. Uma das soluções é dar mais espaço de manobra à engenharia genética, através da sua implementação fora dos laboratórios e da criação de leis menos restritivas à sua aplicação no terreno.

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Tim Searchinger, autor principal do estudo do WRI

Aumentar o investimento público nesta área é apontado como fundamental para o desenvolvimento de novas técnicas de melhoramento de plantas e para um futuro alimentar mais sustentável, como pode ler-se na página 24 do documento.

Leia aqui o relatório completo do World Resources Institute (WRI) e siga o CiB no Twitter, no Facebook e no LinkedIn. No CiB, comunicamos biotecnologia.

 

Recursos | Alimentos GM são a salvação?

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Além de benéficos para a saúde, os alimentos geneticamente modificados (GM) estão a ser considerados uma solução inteligente para enfrentar a iminente crise de recursos alimentares. Saiba porquê, neste artigo publicado na revista Mens Health.

Porque é que as cenouras são cor de laranja? A pergunta é séria, não é uma piada de Michael McIntyre, e a resposta resume o que está em jogo na produção de alimentos geneticamente modificados: ciência, moda e, acima de tudo, política.

Serão os benefícios dos alimentos GM demasiado grandes para deixarmos uma oposição ingénua descartá-los completamente?


Os benefícios dos alimentos transgénicos serão assim tão grandes para deixarmos a oposição instintiva e ingénua descartá-los completamente? Os nossos antepassados conheciam as cenouras, mas nesse tempo as cenouras não como nós as conhecemos hoje. Eram pequenas e grossas como rabanetes e em vez de cor de laranja eram amarelas, brancas, roxas ou vermelhas.

No século XVII, a Holanda tinha os principais tecnólogos de vegetais do mundo e a cenoura foi um dos alimentos básicos que os holandeses decidiram “melhorar”. Através de técnicas de produção seletivas, tornaram-na mais doce e menos lenhosa. Ao longo do tempo, a cenoura tornou-se no vegetal de raiz cor de laranja que atualmente se produz em todo o mundo. A sua cor, diz a lenda, estará associada a razões políticas: os holandeses quiseram homenagear o seu governante de então, Guilherme I, Príncipe de Orange, defensor da fé protestante e, a partir de 1689, também rei da Inglaterra.

O que é o CRISPR?

A sigla pode soar ao nome de uma start-up de alimentos sem glúten no leste de Londres, mas CRISPR é um novo sistema molecular que os investigadores podem usar para manipular o DNA mais rapidamente e de forma simples e precisa do que nunca.

Assim como o CRISPR é capaz de enriquecer os frutos com mais nutrientes e tornar os grãos resistentes aos efeitos das alterações climáticas, também poderá um dia ser usado em embriões humanos, embora, neste caso, se coloquem considerações éticas significativas.

O melhoramento seletivo é modificação genética: é a engenharia do DNA, o código dentro das células. Os seus resultados são visíveis no corredor de vegetais de qualquer supermercado e em animais domésticos. É o que faz um cão Dachshund ter uma aparência tão diferente da de um Great Dane, apesar de pertencerem à mesma espécie. Isso é evolução, acelerada e dirigida da maneira que nós, humanos, queremos – no caso dos cães, criar um animal socialmente amigável e de companhia, com um comportamento distinto dos lobos.

O cavalo de corrida puro é o produto de mais de três séculos de ajustes de DNA, emparelhando o melhor macho com a melhor fêmea. Apesar do entusiasmo da sua própria família por essa forma específica de modificação genética, o príncipe Charlos de Inglaterra opôs-se aos seres humanos que brincam com a natureza fazendo-se passar por Deus. Mas, como o cientista Richard Dawkins rebateu: “Nós temos vindo a fazer de Deus há séculos!”

Design inteligente

O problema com a aquisição de poderes divinos é que provavelmente faremos uso deles. Quando as técnicas de alteração de genes transitaram das estufas para os laboratórios, os investigadores concentraram-se em ajudar os produtores, criando plantas com maior produtividade, reduzindo a sua dependência de pesticidas e desenvolvendo frutos e vegetais com um prazo de validade mais longo. É por isso que temos hoje cogumelos que não são castanhos e tomates que estão mais uniformemente espaçados nos galhos da planta, para que possam ser colhidos mais facilmente pelas máquinas. E, no reino animal, já temos salmão que cresce duas vezes mais depressa.

 

O problema com a aquisição de poderes divinos é que provavelmente faremos uso deles

Mas a última safra é diferente. Os novos organismos geneticamente modificados (OGMs) prometem benefícios para todos nós, consumidores. Produzir alimentos mais saudáveis tornou-se o objetivo primordial dos usuários comerciais da tecnologia, até porque é uma maneira de conquistar os mais céticos. Temos trigo cujo glúten não afeta os que sofrem de doença celíaca, temos abacaxi (“milenar rosa”) enriquecido com licopeno e nutrientes anticancerígenos e temos pão branco desenvolvido para ser mais rico em fibra. O trabalho de Deus está em progressão e parece improvável que até mesmo o príncipe Carlos possa travá-lo.

Na próxima década, o número de novos cultivos focados na promoção e manutenção da saúde deverá aumentar exponencialmente. Isso é parcialmente resultado de uma nova técnica de edição de DNA, CRISPR (abreviação de “repetições palindrómicas curtas, agrupadas e regularmente interespaçadas”) que trabalha com características nativas de uma maneira que poderia ocorrer na natureza, mas com uma precisão sem precedentes. Isso difere dos métodos anteriores de modificação genética, nos quais uma cópia de um gene de um organismo seria colocada noutro, com o qual não se poderia reproduzir naturalmente.

Na “ponta afiada” desta nova tecnologia está Geoff Graham, vice-presidente de criação de plantas da empresa norte-americana Corteva Agriscience, que criou óleos vegetais modificados para conter níveis mais altos de gorduras monoinsaturadas.

“O CRISPR e a modificação genética podem ser usados para melhorar a qualidade nutricional”, afirma. “Por exemplo, CRISPR está a ser usado no tomate para torná-lo mais saudável, aumentando os níveis de Gaba [ácido gama-aminobutírico, que está associado à promoção de melhor sono e menor pressão arterial]. A tecnologia também está a ser explorada como uma ferramenta para reduzir as reações prejudiciais a certos alimentos, como amendoins que não provocam alergias”. O óleo de Corteva, chamado Plenish, é feito de soja modificada para conter 20% menos gordura saturada. Também é mais estável durante o cozimento.

As novas culturas GM prometem benefícios para os consumidores, sendo embalados com nutrientes extras

A partir do momento em que sabemos que a dieta pobre é responsável por uma em cada cinco mortes em todo o mundo – e a educação nutricional não está a causar o impacto esperado -, os superalimentos produzidos em laboratório parecem oferecer uma solução lógica. Afinal de contas, se não mudarmos os nossos hábitos, tentar melhorar os alimentos que estamos a comer é uma tarefa que pode valer a pena.

Mesmo os alimentos há muito considerados “saudáveis” sofreram um impacto nutricional nos últimos anos, já que a agricultura intensiva diminuiu os níveis de vitaminas e minerais presentes nos frutos e vegetais. A nova tecnologia que impulsiona a nutrição pode ser a nossa melhor oportunidade de corrigir isso. Mas, é claro, nem todos estão convencidos.

 

Os Superalimentos do futuro

01 / Hambúrgueres sem carne

Sem a leghemoglobina de soja, feita com levedura geneticamente modificada, não o seria possível confecionar o vegan Impossible Burger, preparado para os consumidores sentirem o gosto, o cheiro e a sensação de um verdadeiro pedaço de carne de vaca. Este hambúrguer é vendido em todos os Estados Unidos da América.

02 / Batatas fritas mais saudáveis

Vendido nos EUA desde 2015, os White Russets, da Simplot Plant Sciences, contêm menos asparagina com aminoácidos, o que poderia reduzir os níveis de acrilamida cancerígena quando fritos.

 

03 / Pão com baixo índice glicémico

A Calyxt está a desenvolver um trigo que poderia produzir farinha branca com o triplo da fibra e níveis de glicose mais baixos. A empresa espera lançar este produto nos EUA dentro de dois anos.

04 / “Óleo de peixe” vegan

Ao adicionar genes de algas a plantas de camelina, uma equipa da Rothamsted Research, em Hertfordshire, criou um óleo vegetal rico em ácidos graxos ómega-3 encontrados em peixes. É bom para o ambiente e é saboroso na salada.

05 / Tomate Roxo

Produzido no John Innes Center, em Norwich, este tomate contém níveis mais altos de antocianinas que protegem o coração e dão aos bagos a tonalidade roxa. Foi produzido para ter um efeito anti cancerígeno em camundongos.

 

Mentes suspeitas

A principal barreira para muitos desses alimentos que começam a ser produzidos é a desaprovação pública. Quando um novo fruto-maravilha transgénico “salta” dos jornais científicos para o Daily Mail, a notícia é transmitida com um destaque sobre “Comida Frankenstein”.

Desde o início que a engenharia genética levanta preocupações morais e práticas. Uma das preocupações reside no controlo: como podemos regular de forma justa e evitar que as empresas produtoras abusem dessas tecnologias? No Reino Unido, esta questão é mais relevante agora do que nunca. Embora as atuais leis da União Europeia garantam que o desenvolvimento e o uso de culturas GM sejam altamente restritos, a situação pode mudar em breve com o Brexit. Qualquer acordo comercial com os EUA provavelmente resultará no facto de o Reino Unido aceitar as regulamentações alimentares americanas mais frouxas.

A preocupação mais significativa é o risco para a nossa saúde. Ao tentar resolver um problema, corremos o risco de criar um pior? Em estudos recentes sobre a tecnologia usada na modificação genética, os investigadores descobriram efeitos preocupantes que podem afetar os seres humanos. Por exemplo, um artigo publicado na revista Plos One descreveu borboletas com asas deformadas que estavam a alimentar-se de plantas transgénicas, alteradas para produzir gorduras ómega-3 saudáveis. Mas, como é que os cientistas poderiam ter a certeza do que deformara as borboletas? E os humanos seriam igualmente afetados?

Michael Antoniou, do King’s College London, trabalha em terapia genética – em particular, na adaptação de genes para tratar doenças de base genética. “Há alegações dos Estados Unidos de que ninguém foi prejudicado comendo alimentos transgénicos. Mas ninguém realmente viu”, afirma este especialista ele. “Um número crescente de estudos laboratoriais em ratos e camundongos está a mostrar evidências de danos, principalmente na função renal, hepática e, em certa medida, digestiva e do sistema imunológico.” M. Antoniou acredita que “uma dieta GM pode causar os efeitos adversos observados nesses estudos.”

As opiniões deste especialista são controversas. Embora Antoniou faça parte de uma rede de centenas de cientistas que se juntam a grupos ecologistas em campanhas para restringir a investigação sobre transgénicos, em todo o mundo há mais cientistas pró-GM do que contra.

Uma das principais queixas do lobby pró-GM é que o medo do público e a cautela governamental – especialmente na Europa – estão a atrasar o progresso da investigação em técnicas com benefícios potencialmente amplos. Entre os cientistas que falam a favor de uma abordagem mais aberta está Jayson Lusk, professor de economia agrícola na Universidade Purdue, em Indiana. “É apenas uma ferramenta e uma ferramenta pode ser usada para o bem ou para o mal”, garante. “Uma rejeição generalizada de uma ferramenta é uma posição ingénua e não crítica. Precisamos de uma avaliação caso a caso”.

O futuro está nas mãos da opinião pública e dos decisores políticos e, no momento, estão ambos cautelosos com a tecnologia. A pesquisa de Lusk sobre as atitudes dos consumidores dos EUA mostra que, no mínimo, a indústria dos alimentos GM tem culpa desses medos públicos. Nos EUA, onde quase 90% das culturas agrícolas básicas, como milho, soja, algodão e beterraba, são GM, os consumidores “sabem muito pouco” sobre a tecnologia.

A indústria prefere que assim seja e fez campanha sem sucesso contra uma lei de 2016 que, em breve, tornará obrigatória a rotulagem de produtos GM. Esse ponto de vista poderia ter feito algum sentido quando o uso da tecnologia não oferecia nenhum benefício claro para o consumidor. Mas, com a chegada de, digamos, pães sem glúten, as empresas podem decidir reconsiderar a sua posição. Em qualquer caso, a transparência parece funcionar melhor. Em Vermont, o único estado americano onde já é obrigatório rotular os produtos, a resistência do consumidor à tecnologia baixou. Os rótulos dão às pessoas uma sensação de controlo e, portanto, de menor risco.

É difícil prever se a introdução dos novos superalimentos geneticamente modificados mudará a opinião dos consumidores, mas, no momento, as posições contra a tecnologia parecem estar a endurecer, sobretudo na Europa. Há três anos, nos Estado Unidos, o salmão transgénico – que contém DNA de diferentes espécies e cresce duas vezes mais depressa – foi considerado isento em termos de efeitos para a saúde, mas ainda está com problemas de aceitação pública.

Como muitos académicos, Lusk acredita que a oposição “ingénua” aos alimengtos GM é contraproducente – que os benefícios da tecnologia são grandes demais para permitir que os medos instintivos a descartem. E a comida mais saudável não é, provavelmente, a questão mais urgente. O maior benefício da tecnologia reside no seu potencial para ajudar a alimentar as 9,8 bilhões de pessoas que habitarão este planeta até 2050, já que as alterações climáticas dificultam cada vez mais o cultivo em regiões que antes eram adequadas.

Os animais geneticamente modificados também estão a caminho, embora esses ajustes não sejam tão extremos quanto os dos filmes de ficção científica, como a super-galinha em Oryx e Crake, de Margaret Atwood, que não tinha olhos nem pernas, apenas vinte mamas e uma boca. Mais subtis, mas imensamente importantes, são as alterações nas bactérias intestinais dos animais, permitindo-lhes ingerir resíduos como palha e, no caso de porcos e vacas, produzir menos metano (uma das principais causas do aquecimento global).

A próxima geração

Em última análise, será o sentido lógico da tecnologia, mais do que o desejo por frutas que combatem o cancro, que irá mudar a opinião pública. Veja-se o caso do autor Mark Lynas, que na década de 1990 foi um eco ativista determinado a impedir que as grandes corporações corrompessem a natureza em prol do lucro. Em investidas noturnas, Mark e os seus amigos destruíram plantações GM cultivadas em campos experimentais e chegaram a atirar uma torta a um economista pró-OGM. Os esforços de militantes anti-OGM levaram empresas como a Monsanto a tornarem-se, aos olhos da opinião pública, espiões globais, acusados ​​de “aprisionar” os agricultores às suas sementes transgénicas patenteadas e aos seus produtos químicos.

Mas Lynas é atualmente uma persona non grata na organização ecologista Greenpeace e noutros grupos ativistas ambientais. Ele é agora um dos mais ferozes críticos do movimento anti-OGM, apelidando-o de hipócrita.  “Não se pode defender o consenso científico sobre as alterações climáticas [com sendo responsabilidade da ação humana], ao mesmo tempo em que se nega o consenso científico, igualmente forte, de que a tecnologia usada nas culturas GM é segura e tem enormes benefícios”, justifica.

No seu livro Seeds of Science: Why We Got It So Wrong on OGMs, publicado no início deste ano, Lynas acusa a campanha anti-OGM de negar-nos essa tecnologia sem outra razão senão o preconceito, usando argumentos sem base científica. “Os OGM, tal como as máquinas de lavar ou os carros, é uma tecnologia e temos de tomar uma decisão política … quanto a se queremos usá-la ou não e até que ponto queremos usá-la”, escreveu o autor científico George Monbiot no livro de Lynas.

Os políticos hesitaram em relação à tecnologia de alteração de genes durante anos. Atualmente, na Grã-Bretanha e nos outros países da UE, a não ser que se tenha uma dieta estritamente biológica ou vegana, as pessoas estão seguramente a consumir produtos GM, uma vez que a forragem que se dá aos animais é autorizada no País. Mas a Europa continua a manter o muro que ergueu contra a tecnologia dos OGM: em julho, após meses de debates, o Tribunal de Justiça Europeu determinou que as novas tecnologias de edição genética, como o CRISPR, deve submeter-se às mesmas regras de controlo dos métodos de melhoramento de plantas mais antigos.

Ainda assim, estão a fazer-se progressos. A Costa Rica está a produzir abacaxis rosa, que receberam o selo de aprovação da Food and Drug Administration dos EUA. No ano passado, na Austrália, investigadores apresentaram uma banana cor de laranja com altos níveis de pró-vitamina A, desenvolvida para tratar deficiências nutricionais no Uganda. Com as preferências ocidentais em mente, os cientistas do Laboratório Sainsbury, em Norwich, Inglaterra, estão a modificar batatas para as tornar mais saudáveis quando fritas.

Com tais ferramentas agora disponíveis, parece improvável que se possa impedir de explorá-las. Se isso é bom ou mau, seguro ou preocupante, ainda é uma questão de em discussão. No entanto, uma coisa é certa: o futuro dos alimentos está cada vez mais próximo.

 

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Alterações climáticas | Corais marinhos resistentes ao aumento das temperaturas?

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Créditos da imagem: Mikaela Nordborg/Australian Institute of Marine

A ideia é radical, mas investigadores australianos acreditam que os corais podem tornar-se resistentes aos efeitos das alterações climáticas. No Simulador Nacional do Mar, em Townsville, na Austrália, está a fazer-se criação de corais para ver se isso é possível.

O aumento global das temperaturas está a colocar em perigo os recifes de coral em todo mundo. A apenas 75 quilómetros de Townsville, a Grande Barreira de Corais da Austrália (a maior do mundo) foi atingida por uma série de ondas de calor que mataram metade do seu coral. A ameaça fez com que uma geneticista de corais da Universidade de Melbourne, Madeleine Van Oppen, se tornasse numa das principais defensoras da criação de espécies de coral capazes de resistir ao aumento das temperaturas subaquáticas.

É com esse objetivo que a investigadora e a sua equipa estão a levar a cabo importantes experiências com corais no Simulador Nacional do Mar, reconhecido pelo seu trabalho em investigação e restauração de corais. Neste vasto centro de ciências marinhas, existem dezenas de tanques com água do mar e condições equiparadas às do oceano, hoje ou no futuro. Os cientistas não tiram os olhos desses grandes aquários, onde descansam diversos corais. Estão à espera de sinais de desova.

Van Oppen está a fazer criação de corais com técnicas tão antigas quanto o melhoramento de plantas e tão novas quanto as mais recentes ferramentas de edição de genes, esperando por resultados que possam ser transferidos do laboratório para o oceano.

Saiba mais aqui.

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