Debate | O papel da ciência na produção e segurança alimentar

Crédito: Fundación Antama

A população mundial está a crescer, os recursos existentes são insuficientes e é preciso produzir alimentos de forma eficaz, segura e em quantidade. Qual é o papel que a ciência assume na produção e segurança alimentar e na atividade agrícola atual? Saiba AQUI as respostas, num debate que a TSF realizou sobre o tema a 24 de novembro, a pretexto do Dia Mundial da Ciência.

Siga o CiB no Twitter @cibpt e no Facebook @cib.portugal

Anúncios

Estudo | OGM podem mitigar impactos das alterações climáticas

As culturas de milho geneticamente modificado são mais produtivas que as variedades não trangénicas.

Novas investigações sugerem que os ganhos conseguidos pela utilização da engenharia genética na agricultura serão imprescindíveis para reduzir os efeitos das alterações climáticas. Os agricultores têm de produzir mais e com menos perdas para enfrentar esse enorme desafio.

Num estudo publicado há dias no jornal científico Environmental Research Letters, investigadores norte-americanos da Universidade de Cornell, em Nova Iorque, e da Universidade de Economia Agrícola, no Kansas, afirmam que o uso de novas tecnologias na agricultura pode ajudar a compensar as perdas que as alterações climáticas inevitavelmente irão causar na produção de alimentos no mundo inteiro, mas especialmente nas regiões onde essas tecnologias ainda são praticamente inexistentes.

As previsões indicam que os países da África e da Ásia serão os mais afetados pela mudança global das temperaturas e, mesmo assim, os governos desses países, “pressionados pela intensa oposição liderada por ativistas anti-OGM, continuam a hesitar adotar novas tecnologias de melhoramento de plantas”, lê-se num artigo da revista Alliance For Science sobre este estudo científico.

Afirmam os autores do estudo, Ariel Ortiz-Bobea, professor na Universidade de Cornell, e Jesse Tack, professor na Universidade do Kansas, que “apesar das previsões que apontam para um crescimento sustentado da produção de milho nos Estados Unidos, o negócio poderá estagnar, o que terá sérias implicações noutras culturas e noutros países”, uma vez que existem muitos países onde a adoção de tecnologia é escassa ou a produção de culturas transgénicas é pura e simplesmente proibida.

“Se os ganhos relativos de produtividade estimados nos Estados Unidos são um indicador do potencial das novas tecnologias se aplicadas a outras culturas e noutros países, então a produção de culturas transgénicas pode constituir uma estratégia de adaptação frutífera para contrabalançar os efeitos das mudanças climáticas”, concluem.

Leia o artigo na Alliance For Science AQUIe o estudo original publicado na Environmental Research Letters AQUI

  

Edição de genoma | Sabe qual é a diferença entre OGM e CRISPR?


O que é a edição de genoma, como funciona, o que distingue o CRISPR-Cas e o CRISPR-Cas9, quais as suas aplicações atuais e potenciais e o que distingue esta tecnologia dos OGM?   

Desde a sua descoberta pelo cientista espanhol Francisco Mojica, investigador microbiologista da Universidade de Alicante, em Espanha, a tecnologia CRISPR tornou-se uma verdadeira revolução no campo da edição genética, permitindo editar ou corrigir, com uma enorme precisão e exatidão, uma área do genoma de qualquer célula.

Aplicada pela primeira vez em 2012, desde então as novas aplicações desta tecnologia não pararam de crescer. E apesar de ser uma tecnologia diferente dos OGM – Organismos Geneticamente Modificados, também conhecidos como transgénicos, permanecem na população em geral muitas dúvidas quanto a esta dissociação.

Para facilitar sua compreensão, a Fundação Antama lançou um vídeo, que pode visualizar em cima, e um guia, no quais explica os conceitos básicos sobre a tecnologia CRISPR: o que é, como funciona, o que distingue o CRISPR-Cas e o CRISPR-Cas9, quais as suas aplicações atuais e potenciais e o que a distingue dos OGM?  

Leia o guia AQUI 

Edição de genoma | CRISPR é usado para criar variedades não transgénicas

 

O geneticista de plantas Li Yi usa o CRISPR para produzir árvores cítricas resistentes à doença Greening (HLB). Fotografia de UP Magazine.

Serão as técnicas convencionais de melhoramento de plantas eficientes para aumentar a produção agrícola? O geneticista de plantas chinês Li Yi, investigador na Universidade do Connecticut, EUA, garante que não e acredita que a solução para conseguirmos alimentar a crescente população mundial pode estar na nova tecnologia de edição de genoma,conhecida por CRISPR. Saiba porquê.

Num artigo publicado no portal da Genetic LiteracyProject, o geneticista de plantas chinês Li Yi, investigador da Universidade do Connecticut, nos EUA, garante que as técnicas convencionais de melhoramento de plantas são ineficientes para aumentar a produção agrícola.Para este investigador, que trabalha em estreita colaboração com equipas de investigação de algumas universidades chinesas e norte-americanas, é vital descobrir maneiras de aumentar a produção de alimentos de forma a enfrentar o crescimento da população.
A alternativa poderia estar na aplicação das tecnologias que permitem produzir plantas geneticamente modificadas (GM), uma vez que têm a capacidade de produzir rapidamente novas variedades, no entanto, e apesar de terem sido publicados estudos exaustivos que provam a sua segurança para consumo humano, a sua adoção tem sido controversa um pouco por todo o mundo, especialmente na Europa, onde muitos consumidores continuam a rejeitar os alimentos geneticamente modificados (OGM).

A solução, acredita Li Yi, pode ser a nova tecnologia de edição de genoma, conhecida por CRISPR (em inglês, Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, em português, Repetições Palindrómicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas) e que está a ser usada pelos investigadores, incluindo Li Yi, para produzir variedades não transgénicas. Diz Li Yi, no artigo da Genetic Literacy Project: “Como geneticista de plantas, uma das minhas principais prioridades é desenvolver ferramentas que permitam produzir plantas lenhosas, como árvores cítricas resistentes à doença do Greening, o Huanglongbing (HLB), que dizimou essas árvores em todo o mundo. Detetada pela primeira vez na Flórida em 2005, a HLB dizimou 9 mil milhões de dólares de colheita só no estado da Flórida, levando a um declínio de 75% na produção de laranjas em 2017.”

A doença Greening dizimou os pomares de citrinos da Flórida. Fotografia de Edgloris Marys / shutterstock.com

As árvores de citrinos demoram entre cinco e dez anos a produzir fruta. A nova técnica usada pela equipa de investigadores de Li Yi, nomeada como uma das abordagens inovadoras de 2017, “tem o potencial de acelerar o desenvolvimento de árvores cítricas não transgénicas resistentes ao HLB.”

Mas por que é que as plantas criadas com a nova técnica de edição de DNA não são consideradas OGM?  Como explica Li Yi no artigo, “geneticamente modificado refere-se a plantas e animais que foram alterados de uma forma que não aconteceria naturalmente através da evolução – um exemplo muito óbvio consiste na transferência de um gene de uma espécie para outra, a fim de dotar o organismo de uma nova característica, como a resistência a pragas ou a tolerância à seca. Mas no trabalho que eu e a minha equipa desenvolvemos, não estamos a cortar e a colar genes de animais ou bactérias em plantas, estamos a usar as tecnologias de edição de genoma para introduzir novas características da planta, reescrevendo diretamente o seu código genético.”

Saiba mais AQUI , no artigo do investigador Yi Li, publicado no portal da Genetic Literacy Project.

Descoberta | Porque são as lagartas resistentes ao algodão GM?

Através da edição de genoma, investigadores norte-americanos e chineses descobriram uma mutação genética que torna a lagarta do algodão resistente ao algodão geneticamente modificado. Os investigadores acreditam que a aplicação desta tecnologia é um marco, que poderá ser o início de uma nova era no controle de pragas mais sustentável.

Segundo um novo estudo, divulgado no Proceedings of National Academy of Sciences (PNAS), o jornal da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, foi identificada em lagartas do algodão uma mutação genética que lhes confere resistência ao algodão geneticamente modificado (GM). Esta descoberta feita por investigadores da Universidade do Arizona, Universidade do Tenesse (ambas nos EUA) e Universidade Agrícola de Nanjing, na China, é particularmente importante na medida em que pode iniciar uma nova era nos esforços para a promoção de um controle mais sustentável de pragas.

Lê-se na referida publicação que o objetivo dos investigadores entomologistas era identificar a mutação, conferindo resistência Bt em lagartas através da edição de um gene preciso do inseto, provar que a mutação causa resistência e perceber como é que a resistência está a expandir-se pelos campos de algodão chineses. Como afirma o co-autor do estudo Bruce Tabashnik, Professor do Departamento de Entomologia da Universidade do Arizona e membro do Instituto BIO5, “sem os mais recentes avanços na tecnologia genética, não teria sido possível encontrar, entre centenas de milhões de pares de bases de genoma da lagarta do algodão, a única mutação de pares de bases de DNA que causa resistência.”

De salientar que culturas como o algodão, o milho e a soja foram geneticamente modificados para produzir proteínas destruidoras de pragas a partir bactéria do solo Bacillus thuringiensis (Bt). Não sendo tóxicas para pessoas e animais selvagens, incluindo as abelhas, as proteínas Bt têm sido usadas em todo o mundo em pulverizações quer de plantações orgânicas, quer de plantações GM.  

Leia o artigo do jornal Proceedings of National Academy of Sciences (PNAS) AQUI e o estudo integral AQUI

 

Genética de Precisão | Proibição chumbada em reunião da ONU


Os mosquitos são o foco de grande parte da investigação em tecnologia genética de precisão. Fotografia de SolvinZankl / Naurepl.com

Representantes dos governos de 170 países consideraram proibir temporariamente a libertação de organismos transmissores de genes,  mas a moratória que propuseram no primeiro dia da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB), que decorre no Egito até 29 de novembro, não foi aceite pelos estados-membros favoráveis à tecnologia de alta precisão genética. Mesmo assim, os investigadores temem que a discussão possa ser o gatilho para, no futuro, se imporem restrições ao uso desta inovadora tecnologia na agricultura.

A investigação sobre a tecnologia de precisão genética está a avançar a passo acelerado, mas muitos estados-membros da Organização das Nações Unidas temem potenciais riscos, pelo que a ONU voltou a colocar o tema na sua ordem de trabalhos.

A tecnologia de precisão genética é uma inovadora tecnologia de melhoramento vegetal que tem sido alvo de muita controvérsia. Embora reconheçam que esta tecnologia pode ser uma grande aliada na erradicação de doenças e no controlo de pragas, os estados-membros que assinaram a moratória advertem que a mesma também pode alterar os ecossistemas com consequências imprevisíveis.  

A moratória provocou reações, mesmo antes de ser apresentada no primeiro dia da CDB. Além da declaração emitida na semana passada pela Royal Society britânica, um grupo de mais de cem investigadores, incluindo vários investigadores em transmissão de genes, escreveu uma carta aberta na qual instou os governos a rejeitar a moratória.

Como explicou Austin Burt, geneticista evolucionista do Imperial College London, que lidera um projeto internacional chamado Target Malaria, com o qual espera usar esta tecnologia para controlar a propagação da malária por mosquitos na África subsaariana, “uma moratória que deixa tudo em aberto sobre tecnologia genética de precisão, sem sequer definir o que se entende por transmissão de genes, é grosseira e completamente errada”.  

Saiba mais AQUI

Os mosquitos são o foco de grande parte da investigação em tecnologia genética de precisão. Fotografia de SolvinZankl / Naurepl.com

PBi | Consultores da CE alertam para risco de regulamentar edição de genoma ao abrigo da Directiva dos OGM.

O Grupo de Consultores Científico e Tecnológico da Comissão Europeia publicou uma declaração, recomendando que a atual Diretiva sobre Organismos Geneticamente Modificados (OGM) seja revista à luz dos últimos avanços científicos e tecnológicos, referindo-se especificamente à edição de genoma e às técnicas de modificação genética.

O posicionamento do Grupo de Consultores Científico e Tecnológico da União Europeia (em inglês, Scientific Advice Mechanism, SAM)é uma resposta ao acórdão do Tribunal de Justiça da EU, de 25 de julho de 2018, em que se estabelece que os organismos obtidos através de mutagénese constituem um OGM e devem estar sujeitos às obrigações estabelecidas na Diretiva sobre OGM. Na declaração, publicada no dia 13 de novembro, o SAM adverte que, se a legislação não for atualizada, poderá haver consequências graves para os consumidores e agricultores europeus, para o comércio internacional, para a cooperação com os países em desenvolvimento e também para o progresso científico europeu.

O Grupo solicita também que, ao legislar, se forem levados em conta fatores não científicos, nomeadamente considerações éticas, legais, sociais ou económicas, os mesmos devem ser identificados como tal e comunicados de forma transparente, ou seja, como razões não baseadas em evidências científicas.

Na declaração, o SAM afirma que os novos conhecimentos científicos e os últimos avanços técnicos fizeram com que a Diretiva Europeia sobre Organismos Geneticamente Modificados (OGM) não fosse mais adequada ao seu propósito e adverte que a Diretiva dá origem a problemas mais vastos, em especial no que se refere à definição de OGM no contexto de mutações naturais, considerações de segurança, deteção e identificação.

De lembrar que a definição de OGM incluída na referida Diretiva foi estabelecida em 1990, identificando-os como sendo aqueles organismos que foram geneticamente modificados de uma forma que não pode ocorrer na natureza. No entanto, desde então, a ciência avançou muito e mostrou que as mutações genéticas ocorreram naturalmente na natureza ao longo da história, sem intervenção humana, pelo que é um mecanismo subjacente da evolução natural.

Informação detalhada AQUI  e Statment do Grupo de Consultores Científico e Tecnológico da Comissão Europeia AQUI 

PBi |Catorze países apoiam edição de genoma na agricultura

Os Governos e organismos regionais de vários países desenvolvidos e em desenvolvimento exigem a cooperação internacional e a concertação de esforços na regulamentação da biotecnologia de precisão, nomeadamente as técnicas de edição de genoma.

Para melhor enfrentarem os desafios ambientais e promoverem uma agricultura mais sustentável, a Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Colômbia, República Dominicana, Guatemala, Honduras, Jordânia, Paraguai, Estados Unidos, Uruguai, Vietname e Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental assinaram uma declaração a favor da Biotecnologia de Precisão, incluindo as modernas técnicas de edição de genoma, na qual apelam à criação de uma legislação mais harmoniosa e que acompanhe os últimos avanços científicos nesta área.

A declaração surge na sequência dos obstáculos que as diferentes leis de cada país impõem à utilização das técnicas de melhoramento de plantas, apesar do  crescente reconhecimento de que  são ferramentas cruciais para combater pragas e doenças e enfrentar importantes desafios globais associados à segurança alimentar e nutricional, às mudanças climáticas e a outras ameaças ambientais.

Os signatários salientam que as políticas devem continuar a promover a inovação, inclusive no setor público e por pequenas e médias empresas, e mitigar barreiras desnecessárias à entrada de produtos agrícolas produzidos com a ajuda da biotecnologia de precisão, sob pena de se criar problemas comerciais entre os Países.

Em resposta à declaração, a representante mundial da indústria de ciência vegetal, CropLife International, defendeu que uma abordagem globalmente harmonizada para a biotecnologia de precisão garantiria a introdução oportuna e previsível de produtos agrícolas seguros e sustentáveis ​​no mercado, minimizando os travões comerciais.

Mais informações AQUI, ALI e ACOLÁ

OGM | Gana prepara-se para comercializar a primeira semente GM

Depois de concluírem os testes de campo ao feijão-frade Bt – resistente a pragas -, investigadores do Gana vão pedir a autorização para a comercialização da primeira colheita geneticamente modificada (GM) no País.

Com o feijão-frade Bt, os investigadores esperam ajudar os agricultores a reduzirem substancialmente a aplicação de pesticidas e a aumentarem a produção deste alimento, tão importante na dieta básica deste País africano.

Os resultados dos testes estão a ser revistos, mas, assim que este trabalho estiver concluído, o pedido para comercialização será submetido à Autoridade Nacional de Biossegurança do Gana.

Esta variedade de feijão-frade Bt foi desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Agrícola de Savannah (SARI), um organismo público de investigação e mostrou um alto nível de resistência à broca das vagens (Maruca Testuralis), cuja capacidade de destruição é tão elevada que pode arrasar com até quatro quintos dos rendimentos das culturas de feijão frade.

Informação mais detalhada AQUI e neste vídeo

PBi | Avanços na edição de genoma podem alterar lei que regula OGM

636770287140839426GMFoods

Depois de dezenas de investigadores de vários países da Europa enviarem uma carta aos deputados europeus a solicitarem a criação de legislação mais favorável à inovação no melhoramento de plantas, também investigadores holandeses e suecos manifestaram publicamente o seu apoio a uma proposta recente do Ministério de Infraestrutura e Meio Ambiente da Holanda para alterar a Diretiva da UE sobre a libertação deliberada de organismos geneticamente modificados (OGM) no ambiente.

Com esta iniciativa, os investigadores pretendem apelar à alteração da legislação em vigor sobre OGM, questionando se será adequada à luz dos avanços até agora alcançados e emergentes nas tecnologias de edição de genoma. Num artigo publicado no jornal Trends in Biotechnology, argumentam que as novas técnicas de melhoramento de plantas (também conhecidas como Plant Breeding Innovation – PBi), desenvolvidas nas últimas duas décadas, permitiram um melhoramento mais eficiente e seletivo de plantas.

Apontando como exemplo o surgimento de tecnologias como o sistema CRISPR, que pode ser usado para editar genes dentro de organismos, e de outras, os investigadores garantem que estão a ser feitas mais inovações do que nunca no campo da codificação genética. Veja-se o caso do genoma do trigo de pão, a cultura mais amplamente cultivada no mundo, que, segundo o Consórcio Internacional de Sequenciamento do Genoma do Trigo (IWGSC), “irá preparar o caminho para a produção de variedades de trigo melhor adaptadas aos desafios climáticos, com maiores rendimentos, melhor qualidade nutricional e melhor sustentabilidade”.

Sucede que a lei que regulamenta os OGM está muito atrasada em relação a esta área da ciência, a que acresce o ceticismo da União Europeia quando se trata de modificação genética. É justamente esta realidade que os investigadores gostariam de ver alterada.

Saiba mais AQUI