Ensino e Ciência | DGE responde a Carta Aberta do CiB

Slide transmitido numa aula de Ciências Naturais na tele escola

Como reação à Carta Aberta enviada a 14 de maio pelo CiB-Centro de Informação de Biotecnologia aos ministros da Educação e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior sobre uma aula de Ciências Naturais para os 7º e 8º anos, no âmbito do Programa Estudo em Casa, a Direção Geral da Educação (DGE) respondeu ao fim da tarde de ontem, dia 17 de junho, o seguinte:

Exmo. Senhor Pedro Fevereiro,

Em resposta à vossa missiva, que mereceu toda a nossa atenção, agradecemos os contributos e a partilha de pontos de vista que nos enriquecem bem como o processo educativo.

A situação reporta-se a tema abordado na aula de Ciências Naturais de 7.º e 8.º ano, no dia 13 de maio, em que se pretendeu salientar os potenciais impactos da exploração de Recursos Agropecuários, referindo-se à agricultura e pecuária a nível mundial/global e não especificamente à situação a nível da Europa ou mesmo de Portugal.

Acrescenta-se ainda que os recurso apresentados se basearam em diferentes manuais escolares, de diferentes editoras, validados cientificamente pelas comissões científicas de diferentes instituições de ensino superior.

Como é do conhecimento geral e a partir das fontes científicas consultadas, a utilização de OGM para consumo humano não é consensual.

Assim, durante a aula de Ciência Naturais de 7.º e 8.º ano, a exploração do tema já referido teve como objetivo salientar riscos/consequências/prejuízos que possam advir das situações discriminadas.

Salienta-se assim, que o objetivo da aula não está associado à defesa de uma outra posição, mas sim de dar ferramentas aos alunos para que possam de forma crítica consolidar a sua posição em relação a esta e outras matérias, em que existe diversidade de posições em fontes científicas.

Com os melhores cumprimentos,

Cristina Palma

Chefe de Equipa

Acompanhamento e Monitorização de Desenvolvimento Curricular (AMDC)

Direção-Geral da Educação

A resposta do CiB à DGE é a seguinte:

Exma senhora Drª,

Muito obrigado pela resposta relativa à Carta Aberta que escrevi ao Senhor Ministro da Educação

Embora compreenda as explicações que me enviou, não consigo conciliá-las nem com o que julgo ser uma adequada formação em Biologia e em Ciências Naturais, nem com os conhecimentos científicos que conheço e partilho com investigadores e professores nacionais e internacionais da minha área científica.

Sei que vários manuais se referem às questões em apreço da mesma forma como as mesmas foram apresentadas. Não só questiono desde há vários anos a qualidade científica dos conteúdos e da revisão feita a estes manuais (confesso que também já revi um deles e tive o cuidado de adequar a informação à realidade científica atual), mas também questiono a forma como esta (e outras) questão(ões) é (são) apresentada(s) aos alunos.

Do ponto de vista científico não existem (ao contrário do que me transmite) dados na literatura que comprovem qualquer risco para a saúde humana no consumo de variedades OGM aprovadas pelas entidades oficiais. Esta realidade é facilmente comprovada pela ausência de qualquer episódio de saúde pública ou animal, a nível mundial, derivado direta ou indiretamente do consumo de produtos alimentares derivados de variedades melhoradas com recurso a esta tecnologia. Na realidade qualquer avaliador de risco teria atualmente dificuldade em fazer um cálculo, já que todos os riscos referidos são potenciais, mas nunca verificados ou cientificamente suportados. O risco que existe é o da utilização propositada da tecnologia para produzir algo malévolo – mas isso não é diferente de todas as outras tecnologias existentes.

Por outro lado, é claro que a controvérsia existente não tem origem científica, mas sim sócio-económico-política e, portanto, não deve ser transportada para a formação de jovens como fatos científicos.

Do ponto de vista pedagógico convém referir que a formação em Ciências Naturais e em Biologia deve ser não só atualizada, mas também apresentada de uma forma não dogmática: não se pode simplesmente repetir dogmas e obrigar os alunos a responder de acordo com um dogma. Mesmo aos níveis mais básicos o que é fundamental é aprender a pensar (neste caso pensar Ciências Naturais) e não apenas “gravar” dados, para serem repetidos sem reflexão.

Neste caso particular, mesmo considerando a referência ao nível mundial (como me refere), é preciso discriminar entre diferentes regiões do mundo. Dar a noção de que a atividade agrícola, é, em geral, incompetente e que propositadamente prejudica o ambiente é, do meu ponto de vista (perdoe-me a franqueza), leviano. Em particular na atual pandemia é a manutenção da atividade agrícola que pode manter a segurança alimentar que é fundamental para a sobrevivências das sociedades humanas. O mesmo cuidado se deveria aplicar, por exemplo, às questões das relativas à gestão da biodiversidade, onde tipicamente se referem as desgraças, mas não todas as situações em que a atividade humana, incluindo a atividade agrícola, permite aumentar a biodiversidade e preservar a sustentabilidade dos sistemas.

Portanto quando me refere que se exploraram riscos/consequências/prejuízos, dever-se-ia, a meu ver, terem sido explorados, também, os benefícios e vantagens da atividade agrícola e da utilização das variedades melhoradas com recurso a tecnologias modernas.

Formar cidadãos não comunicando fatos científicos corretos e derivando dessa má comunicação conclusões dogmáticas, a que os alunos são obrigados a aderir (através dos processos de avaliação) não é, a meu ver, adequado. Sinceramente a sua resposta não me descansa, até porque tenho dois filhos adolescentes em formação.

Na expetativa de que possa transmitir esta minha opinião a outros responsáveis da DGE e do Ministério, e mantendo-me disponível para suportar a minha perspetiva de uma forma construtiva, e sublinhando a necessidade urgente de se rever o currículo e conteúdos da formação em Ciências da Natureza e Biologia,

Com os meus cumprimentos

Pedro Fevereiro

Presidente da Direção do Centro de Informação de Biotecnologia

#CiênciaExplica | “Afinal, podemos ou não viver sem vegetais geneticamente modificados? “

Pedro Fevereiro no programa em direto #CiênciaExplica, da Exame Informática

Em entrevista ao jornalista Hugo Séneca, da Exame Informática, o biólogo Pedro Fevereiro, presidente da Direção do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia, CEO do novo Laboratório Colaborativo InnovPlantProtec e investigador do ITQB NOVA, explica, de forma simples e acessível a leigos nesta área, como é que as novas tecnologias genómicas de melhoramento de plantas, entre as quais a edição de genomas, e a já “velhinha” tecnologia dos OGM podem dar um contributo decisivo para eliminar algumas das maiores pragas que afetam culturas importantes em Portugal como o milho, a pera rocha e o olival.

Assista aqui à entrevista.

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Pragas e doenças|”Temos três anos para conseguir pelo menos duas soluções capazes de funcionar em condições reais”

“Há novas pragas e doenças para as quais não existe atualmente nenhuma planta resistente e nenhum pesticida que as consiga controlar”. – Parte de um excerto da entrevista de Pedro Fevereiro, diretor-geral executivo do Laboratório Colaborativo InnovPlantProtect (InPP), na edição de maio da Voz do Campo.  

Leia o excerto completo, publicado na edição online da revista a 12 de maio.

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Pragas e doenças | InnovPlantProtect criado para desenvolver soluções biológicas inovadoras

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Leia a Grande Entrevista ao Professor Pedro Fevereiro sobre o novo Laboratório Colaborativo InnovPlantProtect, em Elvas, construído para dar resposta ao grande desafio da produção agrícola: o controlo de pragas e doenças, responsáveis pela perda global de 40% a 60% das culturas.

Com a crescente pressão do aumento da população mundial e dos efeitos das alterações climáticas, agora como nunca é crucial proteger as culturas agrícolas das pragas e doenças. O InnovPlantProtect, o primeiro Laboratório Colaborativo em Portugal nesta área, está a trabalhar para desenvolver soluções biológicas inovadoras (biopesticidas) e novas variedades resistentes a pragas e doenças.

Esta entrevista foi publicada em primeira mão na edição impressa de maio e na edição online da revista Voz do Campo.

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Q&A|”Desta vez não faltou comida? E da próxima?”

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Créditos da imagem: Rodrigo Cabrita/CiB

Quem não teve oportunidade de ouvir ontem o programa “Que Vida é a Nossa?”, na Antena 1, tem aqui a oportunidade de ouvir a resposta do investigador Pedro Fevereiro à pergunta da jornalista Eduarda Maio: “Desta vez não faltou comida? E da próxima? 

São sete minutos de conversa que nos levam a refletir sobre aquilo que não é mas temos como adquirido – os alimentos. A COVID-19 levou-nos a comportamentos desajustados, impulsionados pelo medo. Medo, talvez, de passar fome? Numa primeira fase crise sanitária esvaziamos os supermercados, açambarcamos enlatados e outros não perecíveis, como se fossemos viver os próximos meses num bunker.

Mas, como a pergunta deste programa alerta, “Desta vez não faltou comida”. E da próxima?”

Num tempo em que se colocam grandes desafios à produção de alimentos – e citando uma parte da resposta de Pedro Fevereiro, nunca é demais “reconhecer o trabalho dos agricultores”. São eles que nos alimentam.

Veja o programa aqui.

Pedro Fevereiro é CEO do InnovPlantProtect, Professor Auxiliar com Agregação do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, diretor do Laboratório de Biotecnologia de Células Vegetais no ITQB NOVA e presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia.

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Alimentação |Uma reportagem onde a ciência é quem fala mais alto

revista Visão

“Numa altura em que a Humanidade enfrenta alguns dos maiores desafios à sua subsistência, como as alterações climáticas, a poluição dos solos e a escassez de água, só a tecnologia alimentar poderá garantir a sobrevivência dos dez mil milhões de seres humanos que habitarão a Terra em 2050”.

O lead é um excerto da reportagem da jornalista Sara Sá, A sustentável comida do laboratório, tema de capa da última edição da revista Visão.  No panorama da imprensa nacional, é exemplo raro este trabalho, que faz valer a abordagem científica em detrimento de mitos e fakenews sobre as “velhas” tecnologias de melhoramento de plantas e animais (como os OGM) e as “novas” tecnologias (como a edição de genoma). Mitos e fakenews repetidamente  propagados, apesar de sustentados em medos infundados e interesses que não são tão “verdes” quanto querem parecer.

O que este trabalho reporta não é uma premonição catastrófica do futuro da alimentação. Reporta o presente em alguns países que têm uma legislação favorável ao uso da biotecnologia nos alimentos e reporta um futuro alimentar otimista, justamente graças a tecnologias de edição de genoma o CRISPR-Cas 9, que a União Europeia decidiu equiparar aos Organismos Geneticamente Modificados, sujeitando-as à mesma legislação restritiva de 2001.

De errado, apenas as imagens que acompanham a reportagem: as seringas e ferramentas afins utilizadas no peixe e no tomate não ilustram a realidade. É que não têm mesmo nada a ver. Fora as imagens, esta é uma reportagem para ler, reler e difundir nas redes sociais.

Vídeo | Novas Técnicas de Melhoramento na Feira de Agricultura

PF na TV FNA2019 

FNA2019 TV   via

Pedro Fevereiro, Presidente do CiB, fala das Novas Técnicas de Melhoramento das Plantas e como podem elas beneficiar a agricultura portuguesa, tema de um seminário  promovido pelo CiB, em parceria com a CAP e a Embaixada dos EUA em Portugal, no dia 11 de junho, na Feira Nacional de Agricultura.

Concurso | E os vencedores são…

planta concurso

Adriano Miguel, António Freitas e Simão Pedro são os vencedores do concurso de fotografia que o CIB e o ITQB NOVA, em parceria com a ANSEME e o IBET, promoveram no âmbito do Dia Internacional do Fascínio pelas Plantas 2019, que se comemora a 18 de maio. Este será o dia da entrega de prémios aos autores das melhores imagens a concurso.

Conforme o regulamento, publicamos hoje os resultados do concurso de fotografia realizado pelo CIB e o ITQB NOVA, em parceria com a ANSEME e o IBET.

Nome Classificação Ano Escola Prémio
Adriano Xavier Soares Miguel 1º lugar 11º -Técnico de Gestão Ambiental Escola Profissional Agrícola Quinta da Lajeosa, Aldeia de Souto, Covilhã. Máquina fotográfica Fujofilm Instax Mini, no valor de 70 euros, aproximadamente.
António Freitas 2º lugar dnf* dnf* Livro “Flora – Inside the secret world of plants”, no valor de 34,25 euros.
Simão Pedro Fonseca 3º lugar 10º Escola Secundária Professor José Augusto Lucas, em Linda-a-Velha. Livro “Ilustração Botânica – Técnicas para desenhar flores e plantas”, no valor de 15,50 euros.
João Rafael Silva 4º lugar 11º -Técnico de Gestão Ambiental Escola Profissional Agrícola Quinta da Lajeosa, Aldeia de Souto, Covilhã. Impressão da fotografia 70cmx50cm
Lucas Henrique 5º lugar 11º Escola Secundária de São João do Estoril, Estoril Impressão da fotografia 70cmx50cm
Inês Camacho 6º lugar 8º – Curso de Operador de Fotografia Escola Secundária Seomara da Costa Primo, Amadora Impressão da fotografia 70cmx50cm
Pedro Ferreira 7º lugar Escola Básica 2,3 Eugénio dos Santos, Lisboa Impressão da fotografia 70cmx50cm
Latércia Borja 8º lugar dnf* dnf* Impressão da fotografia 70cmx50cm
Diana Abreu 9º lugar Escola Básica 2,3 D. Fernado ll, Sintra Impressão da fotografia 70cmx50cm
Telmo Espinho 10º lugar 11º -Técnico de Gestão Ambiental Escola Profissional Agrícola Quinta da Lajeosa, Aldeia de Souto, Covilhã. Impressão da fotografia 70cmx50cm
*dnf – dado não facultado pelo autor da fotografia

 

A divulgação está feita, mas a festa ainda não começou. A entrega dos prémios vai ter lugar no dia 18 de maio, a meio da tarde, no Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras.
Dirigido a alunos do terceiro ciclo e ensino secundário (de instituições pública e privadas), o concurso de fotografia é apenas uma das muitas atividades promovidas pelo CiB-Centro de Informação de Biotecnologia, o ITQB NOVA, o IBET e a ANSEME-Associação Nacional dos Produtores e Comerciantes de Sementes, com o apoio da Câmara Municipal de Oeiras, no âmbito das celebrações do Dia Internacional do Fascínio pelas Plantas.

Além da entrega de prémios aos autores das fotografias classificadas nos três primeiros lugares, no dia 18 de maio, no Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras, irá realizar-se uma exposição das dez melhores imagens submetidas a concurso, uma visita guiada aos jardins do Palácio Marquês de Pombal, uma palestra informal sobre o melhoramento de plantas e uma mostra de desenhos de plantas feitos em ambiente de laboratório por artistas urban sketchers e integrados na exposição itinerantePlantLab Sketching”.

Esta celebração contará ainda com a presença de cientistas, que guiarão os visitantes pelo admirável mundo das plantas, dando a conhecer um pouco do que se faz no laboratório.

Veja aqui o programa das atividades agendadas para o dia 18 de maio, durante todo o dia, no Palácio do Marquês de Pombal. Não falte e traga toda a família. Prometemos que passará um dia fascinante.

O Dia Internacional do Fascínio das Plantas é organizado sob a égide da European Plant Science Organisation (EPSO), sendo promovido em Portugal pela Sociedade Portuguesa de Fisiologia Vegetal.  

Trioza erytreae | Biotecnologia pode ajudar a combater doença que ataca os citrinos

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Créditos da imagem: Agricultura e Mar

A Trioza erytreae, o insecto vector que transporta a bactéria Candidatus Liberibacter causadora da doença conhecida por “citrus greening”, foi um dos muitos temas em debate no Seminário “Controlo biológico e técnicas alternativas de proteção das culturas”, que se realizou a 11 de abril na Escola Superior Agrária de Santarém. Sendo uma doença que pode destruir uma plantação inteira de citrininos, os produtores nacionais de laranja, tangerina e limão estão preocupados com a sua disseminação, causada pela psila africana dos citrinos, cuja presença em Portugal foi detetada no norte, em 2015. Sem cura, esta doença pode ser evitada através de medidas de controlo biológico e de novas técnicas com recurso à biotecnologia, como o RNAi e a edição de genoma.

 

Os produtores portugueses de citrinos estão preocupados com a possibilidade de disseminação, em Portugal, da praga de quarentena Trioza erytreae, em especial no Algarve, onde se concentra 70% da produção nacional de citrinos. O receio não é infundado, já que a Direção Geral de Alimentação e Veterinária procedeu ontem à atualização da zona demarcada relativa a esta praga, que inclui novas freguesias nos concelhos de Oliveira de Azeméis (Ossela), Ponte de Lima (Arca; Ponte de Lima), São João da Madeira (São João da Madeira), Alcobaça (Cela), Lourinhã (Miragaia e Marteleira; Santa Bárbara; Vimeiro).

A sua presença no espaço da União Europeia era até agora conhecida apenas na Ilha da Madeira e Canárias. Em dezembro de 2014, Espanha notificou a primeira deteção desta praga no seu território continental na zona da Galiza, onde ocorreram vários focos na zona de Pontevedra. Na sequência da notificação daqueles focos e dada a sua proximidade com o Norte de Portugal, foi levada a cabo uma vigilância suplementar particularmente dirigida àquela região, tendo sido detetada, em janeiro de 2015, a presença deste inseto em citrinos isolados em jardins particulares na área do Grande Porto.

Também designada como psila africana dos citrinos, a Trioza erytreae é um inseto vetor da bactéria Candidatus Liberibacter africanus, que causa a doença Huanglongbing, conhecida igualmente como Citrus greening, e para a qual não existe cura.

A capacidade de destruição da Trioza erytreae foi um dos temas em debate no Seminário “Controlo biológico e técnicas alternativas de proteção das culturas”, que se realizou a 11 de abril na Escola Superior Agrária de Santarém. Promovido pela DGVA, o objetivo deste encontro prendeu-se com a crescente necessidade de proteção das culturas contra pragas e doenças, nomeadamente devido à retirada do mercado de um elevado número de produtos fitofarmacêuticos.

Para além de Paula Carvalho, Subdiretora-geral da DGAV, que apresentou o “Plano de Ação Nacional para o Uso Sustentável de produtos Fitofarmacêuticos (1ª revisão) 2018-2023”, e de Bárbara Oliveira, da Direção de Serviços de Meios de Defesa Sanitária e que falou de “Biopesticidas no contexto do Regulamento nº 1107/2009”, este encontro (ver programa) contou com a intervenção de vários investigadores, entre os quais o investigador espanhol Alejandro Tena, do Instituto Valenciano de Investigações Agrárias (IVIA), e Pedro Fevereiro, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Chefe do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA e presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia.

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Alejandro Tena, investigador do Instituto Valenciano de Investigações Agrárias (IVIA)

Convidado para falar da “Luta biológica contra a Trioza erytreae”, Alejandro Tena alertou para o falhanço dos programas de erradicação da praga nas ilhas da Madeira e Canárias e sublinhou a insustentabilidade económica das estratégias de controlo baseadas em substâncias químicas. “Além de caras, podem desencadear o aumento de outras pragas e ter impacto negativo no meio ambiente”, afirmou o investigador espanhol, para quem “a adoção de medidas rigorosas de quarentena é fundamental para as áreas livres da psila africana dos citrinos”. Acrescentou que “essas medidas provavelmente representam as estratégias de prevenção mais eficazes para a contenção de psilídeos, porque a expansão geográfica de psilídeos em citrinos é devida, em grande medida, às atividades humanas, especialmente pelo transporte de plantas e frutas recém-colhidas de áreas infestadas para áreas não infestadas. Muitos inimigos naturais podem contribuir para a redução de suas populações e consequente disseminação.”

Para Alejandro Tena, o controlo biológico de conservação deve ser enfatizado, sobretudo em áreas onde o psilídeo não é abundante. Também defendeu “a implementação de programas clássicos de controlo biológico em áreas livres de Huanglongbing, através da introdução de parasitóides efetivos de psilídeo cítrico africano”. Em áreas onde a doença Huanglongbing foi detectada, A. Tena disse que “o controlo biológico é difícil de aplicar, mas um rigoroso programa de controle químico direcionado ao psilídeo pode complementar essa estratégia.”

O Algarve continua a ser a capital da laranja em Portugal, com 17 mil hectares de citrinos plantados e uma produção anual de 250 a 300 mil toneladas, segundo dados da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve. Se a Trioza erytreae alcançar esta região de Portugal, os danos serão devastadores. Não havendo cura, os produtores poderão tentar minimizar o impacto da doença com a aplicação das medidas defendidas pelo investigador do Instituto Valenciano de Investigações Agrárias.

Mas existem outras soluções, como avançou o investigador do ITQB NOVA, Pedro Fevereiro, que neste seminário na Escola Superior Agrária de Santarém falou sobre novas técnicas de melhoramento de plantas, em especial o RNA de interferência (RNAi) e a edição de genoma.

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Pedro Fevereiro, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Chefe do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA e presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia.

Para o Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, qualquer uma destas ferramentas, já disponíveis graças aos avanços recentes na área da agrobiotecnologia, poderia ser aplicada para mitigar os efeitos da Trioza na produção de citrinos, no Algarve ou em qualquer parte do mundo onde a doença seja uma forte ameaça: “ A utilização de RNAs que impedem que RNAs mensageiros medeiem a síntese de proteínas da produção de neuropéptidos ou de enzimas do metabolismo das gorduras destes insectos seria uma arma biológica possível para fazer face ao avanço da psila africana. Outra metodologia seria a utilização de meios de controlo por introdução nos insectos de genes letais (gene drive), com recurso à edição do seu genoma, já que, sendo um insecto exótico, não faz parte do ecossistema e, portanto, a sua contenção por esta forma não acarretaria prejuízos ambientais.” 

Este encontro no Auditório da Escola Ágrária de Santarém encerrou com uma mesa redonda sobre os “Novos desafios na proteção das culturas”, moderada por Eduardo Diniz, diretor-geral do GPP-Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral, e com as intervenções de representantes da DGAV, CAP-Confederação dos Agricultores de Portugal, CNA- Confederação Nacional da Agricultura, ANIPLA- Associação Nacional da Indústria para a proteção das Plantas, AGROBIO-Associação Portuguesa de Agricultura Biológica e laboratório colaborativo InnovPlantProtect.

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Evento | ITQB NOVA acolhe terceira conferência anual iPlanta

Entre 27 de Fevereiro e 1 de Março, o Auditório do ITQB NOVA, em Oeiras, acolhe a terceira conferência anual iPlanta. Depois de Roma, em Itália, e de Poznań, na Polónia, onde se realizaram, respetivamente, a primeira e segunda edição, este ano será Portugal a receber um dos mais importantes debates internacionais sobre a necessidade de usar a biotecnologia para o desenvolvimento de novas formas de proteger as culturas agrícolas de doenças e pestes.

Promovida pelo CiB – Centro de Informação de Biotecnologia e pelo Laboratório de Biotecnologia de Células Vegetais, da Unidade de Investigação Green-it, a terceira Conferência anual iPlanta contará com a presença e a intervenção de vários investigadores de diferentes países, que falarão sobre o desenvolvimento de novas metodologias através da utilização do RNA de interferência, um processo biológico no qual as moléculas de RNA inibem a expressão de um gene, neutralizando as moléculas específicas do RNA mensageiro (ácido ribonucleico responsável pela transferência de informações do ADN).

Haverá ainda lugar para a divulgação de novidades sobre a estabilidade do RNA, nomeadamente no silenciamento genético induzido por pulverização (SIGS) e do silenciamento genético induzido por hospedeiro (HIGS).

A importância deste encontro reside na necessidade urgente de encontrar soluções mais eficazes, através da aplicação de RNAi, no combate das interações patogénicas enfrentadas pelas culturas, responsáveis pela perda de quantidades substanciais da produção agrícola mundial, incluindo em Portugal, onde todos os anos se perdem cerca de 40 % de culturas. Em termos globais, os números são semelhantes. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), entre 20% a 40% das culturas são destruídas todos os anos devido a pragas e doenças.

Com o estimado aumento populacional, a agricultura moderna enfrenta um dos seus maiores desafios: garantir o abastecimento de alimentos para 10 mil milhões de pessoas daqui a apenas 30 anos. Mas poderá a produção de alimentos aumentar sem o recurso a metodologias como, por exemplo, o RNAi?

Para o investigador Pedro Fevereiro, presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Chefe do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA, a realização da III Conferência iPlanta em Portugal “é uma oportunidade para debater e divulgar os aspetos científicos e técnicos desta tecnologia, de forma a se efetivar a sua utilização na proteção das culturas agrícolas contra pragas e doenças.”

Tal como as Conferências iPlanta anteriores, esta é uma ação COST, uma organização europeia que promove e financia o networking em investigação e tecnologia.

A participação na iPlanta está sujeita a inscrição prévia (até ao dia 15 de fevereiro). Consulte o programa aqui.