Alimentação |Uma reportagem onde a ciência é quem fala mais alto

revista Visão

“Numa altura em que a Humanidade enfrenta alguns dos maiores desafios à sua subsistência, como as alterações climáticas, a poluição dos solos e a escassez de água, só a tecnologia alimentar poderá garantir a sobrevivência dos dez mil milhões de seres humanos que habitarão a Terra em 2050”.

O lead é um excerto da reportagem da jornalista Sara Sá, A sustentável comida do laboratório, tema de capa da última edição da revista Visão.  No panorama da imprensa nacional, é exemplo raro este trabalho, que faz valer a abordagem científica em detrimento de mitos e fakenews sobre as “velhas” tecnologias de melhoramento de plantas e animais (como os OGM) e as “novas” tecnologias (como a edição de genoma). Mitos e fakenews repetidamente  propagados, apesar de sustentados em medos infundados e interesses que não são tão “verdes” quanto querem parecer.

O que este trabalho reporta não é uma premonição catastrófica do futuro da alimentação. Reporta o presente em alguns países que têm uma legislação favorável ao uso da biotecnologia nos alimentos e reporta um futuro alimentar otimista, justamente graças a tecnologias de edição de genoma o CRISPR-Cas 9, que a União Europeia decidiu equiparar aos Organismos Geneticamente Modificados, sujeitando-as à mesma legislação restritiva de 2001.

De errado, apenas as imagens que acompanham a reportagem: as seringas e ferramentas afins utilizadas no peixe e no tomate não ilustram a realidade. É que não têm mesmo nada a ver. Fora as imagens, esta é uma reportagem para ler, reler e difundir nas redes sociais.

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Vídeo | Novas Técnicas de Melhoramento na Feira de Agricultura

PF na TV FNA2019 

FNA2019 TV   via

Pedro Fevereiro, Presidente do CiB, fala das Novas Técnicas de Melhoramento das Plantas e como podem elas beneficiar a agricultura portuguesa, tema de um seminário  promovido pelo CiB, em parceria com a CAP e a Embaixada dos EUA em Portugal, no dia 11 de junho, na Feira Nacional de Agricultura.

Concurso | E os vencedores são…

planta concurso

Adriano Miguel, António Freitas e Simão Pedro são os vencedores do concurso de fotografia que o CIB e o ITQB NOVA, em parceria com a ANSEME e o IBET, promoveram no âmbito do Dia Internacional do Fascínio pelas Plantas 2019, que se comemora a 18 de maio. Este será o dia da entrega de prémios aos autores das melhores imagens a concurso.

Conforme o regulamento, publicamos hoje os resultados do concurso de fotografia realizado pelo CIB e o ITQB NOVA, em parceria com a ANSEME e o IBET.

Nome Classificação Ano Escola Prémio
Adriano Xavier Soares Miguel 1º lugar 11º -Técnico de Gestão Ambiental Escola Profissional Agrícola Quinta da Lajeosa, Aldeia de Souto, Covilhã. Máquina fotográfica Fujofilm Instax Mini, no valor de 70 euros, aproximadamente.
António Freitas 2º lugar dnf* dnf* Livro “Flora – Inside the secret world of plants”, no valor de 34,25 euros.
Simão Pedro Fonseca 3º lugar 10º Escola Secundária Professor José Augusto Lucas, em Linda-a-Velha. Livro “Ilustração Botânica – Técnicas para desenhar flores e plantas”, no valor de 15,50 euros.
João Rafael Silva 4º lugar 11º -Técnico de Gestão Ambiental Escola Profissional Agrícola Quinta da Lajeosa, Aldeia de Souto, Covilhã. Impressão da fotografia 70cmx50cm
Lucas Henrique 5º lugar 11º Escola Secundária de São João do Estoril, Estoril Impressão da fotografia 70cmx50cm
Inês Camacho 6º lugar 8º – Curso de Operador de Fotografia Escola Secundária Seomara da Costa Primo, Amadora Impressão da fotografia 70cmx50cm
Pedro Ferreira 7º lugar Escola Básica 2,3 Eugénio dos Santos, Lisboa Impressão da fotografia 70cmx50cm
Latércia Borja 8º lugar dnf* dnf* Impressão da fotografia 70cmx50cm
Diana Abreu 9º lugar Escola Básica 2,3 D. Fernado ll, Sintra Impressão da fotografia 70cmx50cm
Telmo Espinho 10º lugar 11º -Técnico de Gestão Ambiental Escola Profissional Agrícola Quinta da Lajeosa, Aldeia de Souto, Covilhã. Impressão da fotografia 70cmx50cm
*dnf – dado não facultado pelo autor da fotografia

 

A divulgação está feita, mas a festa ainda não começou. A entrega dos prémios vai ter lugar no dia 18 de maio, a meio da tarde, no Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras.
Dirigido a alunos do terceiro ciclo e ensino secundário (de instituições pública e privadas), o concurso de fotografia é apenas uma das muitas atividades promovidas pelo CiB-Centro de Informação de Biotecnologia, o ITQB NOVA, o IBET e a ANSEME-Associação Nacional dos Produtores e Comerciantes de Sementes, com o apoio da Câmara Municipal de Oeiras, no âmbito das celebrações do Dia Internacional do Fascínio pelas Plantas.

Além da entrega de prémios aos autores das fotografias classificadas nos três primeiros lugares, no dia 18 de maio, no Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras, irá realizar-se uma exposição das dez melhores imagens submetidas a concurso, uma visita guiada aos jardins do Palácio Marquês de Pombal, uma palestra informal sobre o melhoramento de plantas e uma mostra de desenhos de plantas feitos em ambiente de laboratório por artistas urban sketchers e integrados na exposição itinerantePlantLab Sketching”.

Esta celebração contará ainda com a presença de cientistas, que guiarão os visitantes pelo admirável mundo das plantas, dando a conhecer um pouco do que se faz no laboratório.

Veja aqui o programa das atividades agendadas para o dia 18 de maio, durante todo o dia, no Palácio do Marquês de Pombal. Não falte e traga toda a família. Prometemos que passará um dia fascinante.

O Dia Internacional do Fascínio das Plantas é organizado sob a égide da European Plant Science Organisation (EPSO), sendo promovido em Portugal pela Sociedade Portuguesa de Fisiologia Vegetal.  

Trioza erytreae | Biotecnologia pode ajudar a combater doença que ataca os citrinos

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Créditos da imagem: Agricultura e Mar

A Trioza erytreae, o insecto vector que transporta a bactéria Candidatus Liberibacter causadora da doença conhecida por “citrus greening”, foi um dos muitos temas em debate no Seminário “Controlo biológico e técnicas alternativas de proteção das culturas”, que se realizou a 11 de abril na Escola Superior Agrária de Santarém. Sendo uma doença que pode destruir uma plantação inteira de citrininos, os produtores nacionais de laranja, tangerina e limão estão preocupados com a sua disseminação, causada pela psila africana dos citrinos, cuja presença em Portugal foi detetada no norte, em 2015. Sem cura, esta doença pode ser evitada através de medidas de controlo biológico e de novas técnicas com recurso à biotecnologia, como o RNAi e a edição de genoma.

 

Os produtores portugueses de citrinos estão preocupados com a possibilidade de disseminação, em Portugal, da praga de quarentena Trioza erytreae, em especial no Algarve, onde se concentra 70% da produção nacional de citrinos. O receio não é infundado, já que a Direção Geral de Alimentação e Veterinária procedeu ontem à atualização da zona demarcada relativa a esta praga, que inclui novas freguesias nos concelhos de Oliveira de Azeméis (Ossela), Ponte de Lima (Arca; Ponte de Lima), São João da Madeira (São João da Madeira), Alcobaça (Cela), Lourinhã (Miragaia e Marteleira; Santa Bárbara; Vimeiro).

A sua presença no espaço da União Europeia era até agora conhecida apenas na Ilha da Madeira e Canárias. Em dezembro de 2014, Espanha notificou a primeira deteção desta praga no seu território continental na zona da Galiza, onde ocorreram vários focos na zona de Pontevedra. Na sequência da notificação daqueles focos e dada a sua proximidade com o Norte de Portugal, foi levada a cabo uma vigilância suplementar particularmente dirigida àquela região, tendo sido detetada, em janeiro de 2015, a presença deste inseto em citrinos isolados em jardins particulares na área do Grande Porto.

Também designada como psila africana dos citrinos, a Trioza erytreae é um inseto vetor da bactéria Candidatus Liberibacter africanus, que causa a doença Huanglongbing, conhecida igualmente como Citrus greening, e para a qual não existe cura.

A capacidade de destruição da Trioza erytreae foi um dos temas em debate no Seminário “Controlo biológico e técnicas alternativas de proteção das culturas”, que se realizou a 11 de abril na Escola Superior Agrária de Santarém. Promovido pela DGVA, o objetivo deste encontro prendeu-se com a crescente necessidade de proteção das culturas contra pragas e doenças, nomeadamente devido à retirada do mercado de um elevado número de produtos fitofarmacêuticos.

Para além de Paula Carvalho, Subdiretora-geral da DGAV, que apresentou o “Plano de Ação Nacional para o Uso Sustentável de produtos Fitofarmacêuticos (1ª revisão) 2018-2023”, e de Bárbara Oliveira, da Direção de Serviços de Meios de Defesa Sanitária e que falou de “Biopesticidas no contexto do Regulamento nº 1107/2009”, este encontro (ver programa) contou com a intervenção de vários investigadores, entre os quais o investigador espanhol Alejandro Tena, do Instituto Valenciano de Investigações Agrárias (IVIA), e Pedro Fevereiro, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Chefe do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA e presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia.

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Alejandro Tena, investigador do Instituto Valenciano de Investigações Agrárias (IVIA)

Convidado para falar da “Luta biológica contra a Trioza erytreae”, Alejandro Tena alertou para o falhanço dos programas de erradicação da praga nas ilhas da Madeira e Canárias e sublinhou a insustentabilidade económica das estratégias de controlo baseadas em substâncias químicas. “Além de caras, podem desencadear o aumento de outras pragas e ter impacto negativo no meio ambiente”, afirmou o investigador espanhol, para quem “a adoção de medidas rigorosas de quarentena é fundamental para as áreas livres da psila africana dos citrinos”. Acrescentou que “essas medidas provavelmente representam as estratégias de prevenção mais eficazes para a contenção de psilídeos, porque a expansão geográfica de psilídeos em citrinos é devida, em grande medida, às atividades humanas, especialmente pelo transporte de plantas e frutas recém-colhidas de áreas infestadas para áreas não infestadas. Muitos inimigos naturais podem contribuir para a redução de suas populações e consequente disseminação.”

Para Alejandro Tena, o controlo biológico de conservação deve ser enfatizado, sobretudo em áreas onde o psilídeo não é abundante. Também defendeu “a implementação de programas clássicos de controlo biológico em áreas livres de Huanglongbing, através da introdução de parasitóides efetivos de psilídeo cítrico africano”. Em áreas onde a doença Huanglongbing foi detectada, A. Tena disse que “o controlo biológico é difícil de aplicar, mas um rigoroso programa de controle químico direcionado ao psilídeo pode complementar essa estratégia.”

O Algarve continua a ser a capital da laranja em Portugal, com 17 mil hectares de citrinos plantados e uma produção anual de 250 a 300 mil toneladas, segundo dados da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve. Se a Trioza erytreae alcançar esta região de Portugal, os danos serão devastadores. Não havendo cura, os produtores poderão tentar minimizar o impacto da doença com a aplicação das medidas defendidas pelo investigador do Instituto Valenciano de Investigações Agrárias.

Mas existem outras soluções, como avançou o investigador do ITQB NOVA, Pedro Fevereiro, que neste seminário na Escola Superior Agrária de Santarém falou sobre novas técnicas de melhoramento de plantas, em especial o RNA de interferência (RNAi) e a edição de genoma.

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Pedro Fevereiro, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Chefe do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA e presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia.

Para o Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, qualquer uma destas ferramentas, já disponíveis graças aos avanços recentes na área da agrobiotecnologia, poderia ser aplicada para mitigar os efeitos da Trioza na produção de citrinos, no Algarve ou em qualquer parte do mundo onde a doença seja uma forte ameaça: “ A utilização de RNAs que impedem que RNAs mensageiros medeiem a síntese de proteínas da produção de neuropéptidos ou de enzimas do metabolismo das gorduras destes insectos seria uma arma biológica possível para fazer face ao avanço da psila africana. Outra metodologia seria a utilização de meios de controlo por introdução nos insectos de genes letais (gene drive), com recurso à edição do seu genoma, já que, sendo um insecto exótico, não faz parte do ecossistema e, portanto, a sua contenção por esta forma não acarretaria prejuízos ambientais.” 

Este encontro no Auditório da Escola Ágrária de Santarém encerrou com uma mesa redonda sobre os “Novos desafios na proteção das culturas”, moderada por Eduardo Diniz, diretor-geral do GPP-Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral, e com as intervenções de representantes da DGAV, CAP-Confederação dos Agricultores de Portugal, CNA- Confederação Nacional da Agricultura, ANIPLA- Associação Nacional da Indústria para a proteção das Plantas, AGROBIO-Associação Portuguesa de Agricultura Biológica e laboratório colaborativo InnovPlantProtect.

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Evento | ITQB NOVA acolhe terceira conferência anual iPlanta

Entre 27 de Fevereiro e 1 de Março, o Auditório do ITQB NOVA, em Oeiras, acolhe a terceira conferência anual iPlanta. Depois de Roma, em Itália, e de Poznań, na Polónia, onde se realizaram, respetivamente, a primeira e segunda edição, este ano será Portugal a receber um dos mais importantes debates internacionais sobre a necessidade de usar a biotecnologia para o desenvolvimento de novas formas de proteger as culturas agrícolas de doenças e pestes.

Promovida pelo CiB – Centro de Informação de Biotecnologia e pelo Laboratório de Biotecnologia de Células Vegetais, da Unidade de Investigação Green-it, a terceira Conferência anual iPlanta contará com a presença e a intervenção de vários investigadores de diferentes países, que falarão sobre o desenvolvimento de novas metodologias através da utilização do RNA de interferência, um processo biológico no qual as moléculas de RNA inibem a expressão de um gene, neutralizando as moléculas específicas do RNA mensageiro (ácido ribonucleico responsável pela transferência de informações do ADN).

Haverá ainda lugar para a divulgação de novidades sobre a estabilidade do RNA, nomeadamente no silenciamento genético induzido por pulverização (SIGS) e do silenciamento genético induzido por hospedeiro (HIGS).

A importância deste encontro reside na necessidade urgente de encontrar soluções mais eficazes, através da aplicação de RNAi, no combate das interações patogénicas enfrentadas pelas culturas, responsáveis pela perda de quantidades substanciais da produção agrícola mundial, incluindo em Portugal, onde todos os anos se perdem cerca de 40 % de culturas. Em termos globais, os números são semelhantes. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), entre 20% a 40% das culturas são destruídas todos os anos devido a pragas e doenças.

Com o estimado aumento populacional, a agricultura moderna enfrenta um dos seus maiores desafios: garantir o abastecimento de alimentos para 10 mil milhões de pessoas daqui a apenas 30 anos. Mas poderá a produção de alimentos aumentar sem o recurso a metodologias como, por exemplo, o RNAi?

Para o investigador Pedro Fevereiro, presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Chefe do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA, a realização da III Conferência iPlanta em Portugal “é uma oportunidade para debater e divulgar os aspetos científicos e técnicos desta tecnologia, de forma a se efetivar a sua utilização na proteção das culturas agrícolas contra pragas e doenças.”

Tal como as Conferências iPlanta anteriores, esta é uma ação COST, uma organização europeia que promove e financia o networking em investigação e tecnologia.

A participação na iPlanta está sujeita a inscrição prévia (até ao dia 15 de fevereiro). Consulte o programa aqui.

InnovPlantProtect vai desenvolver novas estratégias para proteção de plantas

Pedro Fevereiro, diretor do Plant Cell Biotechnology Laboratory do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB), esteve envolvido diretamente na criação do laboratório colaborativo InnovPlantProtect que vai funcionar em Elvas, no INIAV, a partir de 2020. O projeto vai trabalhar no sentido de encontrar soluções inovadoras para pragas e doenças existentes e que também começam a surgir devido às alterações climáticas.

Texto: Emília Freire l Fotografia: Rodrigo Cabrita

Entrevista já publicada nas edições impressa e online da Vida Rural ( https://goo.gl/o3fJYd)

Créditos: Rodrigo Cabrita

O que vai ser o InnovPlantProtect?

Vai ser um laboratório colaborativo, ou seja uma estrutura privada sem fins lucrativos, gerido por uma associação, que se vai dedicar a desenvolver novas estratégias para a proteger as plantas de pragas e doenças.

A associação tem diversos tipos de sócios: duas grandes empresas multinacionais (a Bayer e a Syngenta), uma empresa agrícola nacional (a Fertiprado), associações de produtores (a ANPOC), a ANPROMIS, a Casa do Arroz e a FNOP), bem como instituto de investigação (ITQB NOVA e CEBAL), além do INIAV e do município de Elvas. Todas estas instituições, algumas delas com caraterísticas bastante distintas, juntaram-se para desenvolver este laboratório.

E porquê desenvolver novas soluções para a proteção das plantas?

Existem várias razões e uma delas é a contestação aos métodos tradicionais. Os fitofármacos de origem química – em parte por causa dos impactos ambientais mas também pelos seus perfis toxicológicos e porque existe um movimento, sobretudo na Europa, para desenvolver métodos mais naturais –, estão a ser proibidos ou questionados.

Portanto o InnovPlantProtect vai desenvolver soluções não-químicas?

Depende do que se considera químico. Serão soluções químico-biológicas porque vão ser baseadas sobretudo em ácidos nucleicos e proteínas.

E vão-se tentar também desenvolver novas variedades de plantas que apresentem caraterísticas de resistência própria a algumas pragas e doenças e métodos para compreender, não só, a evolução das pragas mas também como é que estes novos métodos são capazes de controlar essas pragas. Isto num contexto importante que é o das alterações climáticas que trazem o aparecimento de novas pragas e doenças, que vêm de outras regiões, como o norte de África ou até do norte da Europa.

São pragas e doenças para as quais as soluções não estão adaptadas às condições do nosso país?

Para algumas não existe mesmo solução nenhuma. Por exemplo, para a traça da Guatemala que afeta a batata, e que pode entrar em Portugal via Galiza, não há forma de controlo. No caso também da Drosófila Susuki, que afeta principalmente fruteiras, que veio do norte de África e que já está em Portugal, tem ciclos de vida tão curtos que são menores do que os intervalos de segurança de aplicação dos fitofármacos existentes.

Mas há mais casos e vão surgir mais fungos e bactérias nos próximos anos devido a estas alterações relacionadas com a subida da temperatura média, variações da humidade do ar e chuvas bruscas e depois episódios de secas.

Créditos: Rodrigo Cabrita

Este laboratório vai funcionar em Elvas, no INIAV, em espaço que já existe ou novo?

Em espaço que já existe, que o INIAV vai disponibilizar mas que vai ser reestruturada com o apoio da Câmara Municipal de Elvas. A decisão teve a ver com vários fatores, nomeadamente o facto de o programa Colab não financiar infraestruturas, mas também por poder ficar associado à Estação de Melhoramento de Plantas. O que é muito importante do ponto de vista da interação porque a Estação trabalha com plantas, tem ensaios de campo e tem uma tradição muito interessante na investigação do melhoramento de plantas e que todos os parceiros consideram que é útil valorizar e revitalizar. Além disso, Elvas também é uma zona onde existe alguma atividade associativa por parte dos agricultores, por isso consideramos que é interessante para criar sinergias e desenvolver inovação na agricultura.

Saliento que chamamos ‘laboratório’ mas na prática vai ser uma unidade de desenvolvimento de soluções, não um laboratório ‘tradicional’ de investigação. O que vai fazer é agarrar no conhecimento existente e juntá-lo de forma a desenvolver soluções que serão patenteadas e depois licenciadas para serem comercializadas.

As empresas que fazem parte da associação terão prioridade?

Em princípio sim, se estiverem interessadas. Será exatamente por isso que as empresas se associaram ao projeto.

O InnovPlantProtect vai funcionar com os investigadores das unidades de investigação ou vai ter pessoal próprio?

Os laboratórios colaborativos são instalados numa perspetiva de autonomia relativamente às unidades públicas de investigação. Ou seja: são instituições privadas que têm de contratar os seus próprios colaboradores, sejam investigadores, técnicos e outros, de forma a poderem funcionar de forma completamente autónoma.

Neste laboratório, a perspetiva é ter, ao fim de cinco/seis anos, cerca de 50 pessoas contratadas, em diversas categorias. O que não quer dizer que o laboratório não venha a desenvolver projetos em cooperação com diversas unidades de investigação, uma vez que nunca será suficientemente grande para abarcar todas as valências.

E vão trabalhar também em colaboração com as associações de produtores para identificar os principais problemas que os preocupam nesta área?

Certamente. Esse é um aspeto importante do Colab, porque é precisamente direcionado para a resolução de problemas, para avaliarmos quais são os problemas que realmente existem e quais as soluções que podemos desenvolver para os resolver. E isso vai ter de ser decidido a cada momento pelos associados: quais são os objetivos específicos a cada momento. Não nos poderemos dedicar a dez pragas diferentes, por isso vai ter de se decidir que ‘resolvemos este e este problema agora’, uma vez que nem o financiamento nem as capacidades são ilimitados.

Isto é um projeto com um horizonte temporal limitado?

Não, o horizonte não é limitado. A ideia é garantir a sustentabilidade sem financiamento público desta unidade, por isso enquanto houver sustentabilidade o laboratório poderá funcionar.

Mas o financiamento deste programa Colab é limitado no tempo?

Sim, tem um limite de cinco anos.

Por isso o projeto tem cinco anos para ser sustentável, baseando-se no licenciamento das soluções patenteadas até lá?

Sim, mas também com projetos internacionais ou com projetos específicos desenvolvidos com a empresa A ou B. Tem de funcionar como uma empresa que vai vender Provas de Conceito, que terão de ser protegidas, por patentes, e licenciadas aos associados ou colocadas no mercado.

Quando está previsto começar a funcionar e como vai ser dirigido o InnovPlantProtect?

A associação vai ter de contratar um diretor e esse diretor terá a responsabilidade de desenvolver os processos de contratação e coordenar toda a atividade da instituição.

Idealmente gostaríamos de já ter alguma coisa para mostrar no Dia do Agricultor [15 de maio de 2019] mas parece que até final de 2019 as obras não ficarão concluídas. No entanto, é provável que nessa altura já haja, pelo menos, indicação de quem vai ser o diretor da unidade, porque temos de constituir formalmente a associação até ao final deste ano e no princípio do próximo ano terá de haver uma decisão relativamente à direção.

Falando agora um pouco do trabalho que o laboratório que dirige aqui no ITQB tem vindo a desenvolver, também na área mais agrícola, que projetos gostaria de destacar?

Há três projetos que espelham uma parte daquilo que fazemos. No âmbito do programa de Melhoramento e Biodiversidade, que foi lançado pelo Ministério da Agricultura em julho, ganhámos dois projetos sendo que um – o Programa de Conservação e Melhoramento Genético da Oliveira – é para seleção de oliveira, feito em colaboração com a BLC3 de Coimbra. O que estamos a fazer é tentar encontrar dentro da variedade Galega genótipos que tenham, não só maior capacidade produtiva, mas também maior resistência à gafa.

A Galega esteve esquecida durante muito tempo…

Pois… até tive algumas ‘discussões’ com alguns produtores que diziam que os investigadores não ligavam nenhuma à Galega, mas é preciso frisar que para investigarmos é preciso haver financiamento e quando é o próprio Ministério da Agricultura que não quer saber… as coisas são muito complicadas.

Em que consiste então este projeto?

Percorremos já uma boa parte do País onde existe Galega e selecionamos olivais menos antigos e outros muito antigos para tentar encontrar variabilidade genética, que existe e está identificada. E depois, dentro dessa variabilidade, temos de conseguir selecionar as plantas que consideramos ótimas e apresentam resistência à gafa, com finalidade de fazermos posteriormente multiplicação e resolver os problemas de enraizamento que a variedade costuma ter com enxertia, que aliás já se fazia há muito na oliveira.

E os outros projetos?

Um outro é com a Fertiprado – o Programa de Conservação e Melhoramento de Espécies Forrageiras e Pratenses. Queremos dar continuidade ao projeto do Micropropelite [através do qual se desenvolveu um novo procedimento que permite obter, por micropropagação, clones de várias espécies. Estes clones são testados, cruzados e multiplicados para se obterem novas variedades] e ampliar a base genética de seleção de variedades de leguminosas forrageiras com que a Fertiprado está a trabalhar. O programa tem, por um lado, uma parte de pesquisa no campo e seleção de genótipos interessantes e, por outro lado, uma parte de melhoramento em que tentaremos fazer cruzamentos controlados.

E o último programa?

É um programa na área da viticultura, com os viveiros Plansel, que é feito em colaboração com o INIAV Dois Portos, que tem várias componentes: o estudo da diversidade genética, inclusive com a pesquisa e caraterização de populações de Vitis Silvestris, e da resposta dessa diversidade genética ao oídio, através da análise da maior ou menor resistência no campo mas igualmente ao nível molecular, e também o estudo dos aspetos relacionados com a enxertia e a compatibilidade ou incompatibilidade de porta-enxertos, para depois ter ferramentas moleculares para selecionar os melhores pares porta-enxerto/enxerto.

Entrevista publicada na edição impressa e no site da revista Vida Rural 
https://goo.gl/o3fJYd

Opinião | Que lições aprendemos com o debate sobre os OGM?

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Artigo original publicado no Agroportal

 

Artigo de Opinião
Que lições aprendemos com o debate sobre os OGM?

Por Pedro Fevereiro (*) | Agroportal.pt
Julho 2018

 

No passado mês de Junho, na Feira Nacional da Agricultura, em Santarém, decorreu a Conferência Internacional sobre o tema em título. Desde 1998, ano em que os primeiros carregamentos de milho geneticamente modificado chegaram à Europa, que defendo que as variedades agrícolas melhoradas com recurso à engenharia genética devem ser adotadas em Portugal e na Europa. Neste texto, e no seguimento da Conferência a que assisti, pretendo apresentar um pouco do que aprendi deste então para cá.

Este texto tem de ser enquadrado pela realidade Europeia: a maioria dos países europeus continua a rejeitar o uso da tecnologia do DNA recombinante como método para introduzir melhorias nas características das culturas agrícolas e florestais. Apesar da regulação mais exigente e mais estrita de todo o mundo, a Europa não aprova o cultivo de variedades melhoradas com esta tecnologia, mesmo depois de ultrapassados todos os crivos técnicos e científicos. O único evento aprovado para cultivo introduzido em variedades de milho permitindo a resistência a brocas, é “velho” de 20 anos e apenas utilizado em 3 países europeus, sendo um deles Portugal. Pese embora todas as restrições a Europa importa de países terceiros matéria prima produzida com variedades melhoradas com esta tecnologia, e depende dessa importação para fazer sobreviver os seus sectores pecuário, suinícola e avícola.

Este texto enquadra-se ainda numa nova realidade: a de que existem novas metodologias moleculares de melhoramento (Novas Técnicas de Melhoramento, em Inglês – NBT – “New Breeding Techniques”), que utilizam a edição precisa do DNA, ou o controlo da expressão de genes, para introduzir características desejáveis nas culturas agrícolas. Presentemente a Europa está envolvida numa discussão sem prazo e sem perspectiva sobre a possibilidade de vir a regulamentar estas novas tecnologias e se estas tecnologias devem “cair” na alçada da diretiva que regulamenta o uso de OGM.

Antes de apresentar a minha lista, devo referir que reconheço que os aspetos que refiro estão, sobretudo, relacionados com a minha experiência como cidadão português e que poderia ter percepções diferentes se a minha experiência fosse a de uma realidade de outro país Europeu. Também referir que o texto representa somente a minha perspectiva pessoal. Finalmente esta lista não segue nenhuma ordem de importância.

1 – O pós-modernismo, o movimento verde e o movimento antiglobalização articularam as suas estratégias para se oporem à utilização dos produtos agrícolas desta tecnologia. As suas mensagens, mesmo quando anticientíficas, ou falsamente científicas, são suficientemente atraentes para um vasto público, sobretudo citadino, que as considera associadas à necessidade de proteger o ambiente e de ter um estilo de vida considerado mais saudável. São também fáceis de assumir pelos órgãos de comunicação social, que para além de as associar a uma agenda “ambientalista”, as utiliza por serem negativas e sensacionalistas. As mensagens e atitudes veiculadas por esta estratégia são assumidas por membros de todas as correntes políticas.

2 – A comunicação desta tecnologia e dos seus produtos ao público em geral implicou simplificações e em geral a sua idilização. Neste processo de comunicação foi esquecida toda a história da domesticação e de melhoramento das culturas agrícolas. Foi também esquecido que uma parte substancial da população europeia atual não tem ligação ao campo e à agricultura e não compreende a necessidade de se produzir mais e de uma forma mais eficiente e sustentável. De resto ainda há não muitos anos era comum dizer-se na Europa que não era necessário aumentar a produtividade e eficiência agrícola.

3 – A população urbana não tem conhecimento dos processos de domesticação e melhoramento das culturas, mas também, na sua grande maioria, não tem conhecimentos suficientes de biologia molecular e não compreende que as novas tecnologias são evoluções dos métodos de melhoramento praticados há centenas de anos. O público em geral não compreendem que não faz sentido falar de “integridade do DNA”, quando o conhecimento atual nos diz que esta molécula está em constante mutação, que os genomas dos diferentes organismos partilham entre si os mesmos componentes, que o genoma de qualquer espécie é constituído, por vezes em mais de 50% por componentes virais e que durante a evolução existiu (e continua a existir) transferencial horizontal de genes (entre espécies que não se cruzam sexualmente entre si). Toda esta informação, recolhida nos últimos 15 anos, associada à sequenciação e estudo dos genomas, não teve reflexo na regulamentação europeia desta tecnologia, que por isso se encontra obsoleta, mas que analisada pelo público em geral apresenta uma imagem de grande perigosidade para os produtos desta tecnologia.

4 – A população urbana não se revê nas atividades agrícolas e portanto não compreende a necessidade de se desenvolverem variedades vegetais que permitam ganhos efetivos de produtividade, resilientes às condições edafoclimáticas e adaptáveis às condições locais. O baixo custo dos produtos alimentares não reflete as dificuldades de produção no campo, as exigências que a regulamentação coloca à produção, os preços ao produtor, as cargas horários do trabalho rural, entre outras situações.

5 – A apresentação da Agro-Biotecnologia como um modo de produção agrícola condiciona a discussão e a aceitação de novos métodos de melhoramento. A Agro-Biotecnologia não é um modo de produção agrícola! É um conjunto de métodos de melhoramento molecular que aumentou a precisão com que se ajustam as características das culturas às necessidades da produção, da comercialização, do consumo e da saúde humana e animal. As variedades melhoradas com esta tecnologia são utilizáveis em qualquer modo de produção – convencional, proteção integrada, orgânico.

6 – Os decisores políticos regem-se por critérios diferentes dos critérios científicos e isso não pode ser ignorado. A exigência de que as decisões políticas sejam tomadas de acordo com o conhecimento científico é um equívoco. No entanto é inaceitável que se justifiquem decisões políticas com informações científicas falsas, desatualizadas ou que não se aplicam à situação a legislar. Há ainda que notar que muitos decisores políticos se regem por percepções, na perspectiva de que se não o fizerem perderão votos para os seus partidos. No entanto estas percepções não são, em geral, testadas.

7 – A excessiva regulamentação e legalismo que envolve a adopção de variedades melhoradas com recurso à engenharia genética tem origens que não podem ser ignoradas e que condicionam o desbloqueamento da situação atual. Não foram apenas os movimentos ditos “anti-transgénicos” que condicionaram a regulamentação atual. Na sua génese estiveram também interesses corporativos que aumentaram os níveis de exigência para reduzirem níveis de concorrência. Por outro lado a perspectiva de uma revisão morosa e politicamente sensível da regulamentação tem impedido o envolvimento de decisores políticos na revisão da regulamentação, motivável pelas experiências positivas da produção e consumo dos produtos desta tecnologia.

8 – Os opositores que desenvolvem estratégias contra o uso da Biotecnologia na Agricultura não são nem incultos nem incompetentes. A perspectiva de que “se as pessoas tiverem mais conhecimento científico esta tecnologia será vista de outra forma” não é verdadeira. Inquéritos suficientemente robustos demonstram que a concordância com o uso desta tecnologia não está associada à falta de literacia científica. De notar que o conhecimento científico está atualmente disponível para qualquer pessoa.

9 – A formação ao nível do ensino básico e secundário transcreve, muitas vezes sem justificação científica, a perspectiva negativa que se enraizou na sociedade urbana relativamente a esta tecnologia. Esta realidade releva a pouca formação ao nível da biologia molecular e da biotecnologia da maioria dos professores e também a forma pouco cuidada como os manuais escolares abordam esta temática. Mas esta realidade enforma as decisões que virão a ser tomadas pelas gerações mais jovens.

10 – Uma parte significativa das pessoas tem medo de debater esta temática. Uma parte daqueles que a debatem e que chegam à conclusão que ela é aceitável temem opor-se à visão, sobretudo urbana, de que “os OGM” são inimigos do ambiente.

11 – O valor económico gerado pelo “não” à aceitação da tecnologia é já relevante a vários níveis. Uma alteração da regulamentação que permita o uso da tecnologia na Europa criará mudanças importantes, que condicionará a vida de muitos cidadãos e que contrariará estratégias comerciais, como aquelas que são assumidas por grandes grupos distribuidores, relativas à não comercialização de produtos ditos “OGM”.

12 – A exigência de certezas absolutas sobre o não risco para a saúde humana e animal dos produtos desta tecnologia condiciona o debate sobre a sua utilização. Ninguém pode dar garantia absoluta de que não existe risco. No entanto, em mais de 20 anos de utilização, não é possível fazer um cálculo do risco, visto não ter existido qualquer incidente na saúde humana ou animal devido ao uso dos produtos desta tecnologia.

O que aprendi então com o debate sobre a utilização dos OGM? Que existe um conjunto de idiossincrasias sócio/político/económicas que impedem a evolução deste debate, e que nada têm a ver com o conhecimento científico atual ou com a prática da utilização dos produtos do melhoramento molecular de precisão.

O debate sobre a adoção das Novas Técnicas de Melhoramento está já inquinado pelas percepções criadas pelo debate sobre os “OGM”. Sendo um conjunto de tecnologias derivadas da anterior, sofrerá o mesmo tipo de argumentos para a sua não adoção na Europa.

Só um debate honesto, incluindo todas as partes, livre de preconceitos, aceitando a rápida evolução dos conhecimentos científicos e observando a prática da utilização destas tecnologias permitirá um passo em frente. Espero que Portugal contribua para que esse passo em frente possa ser dado na Europa.

(*) Pedro Fevereiro,
Biólogo, Professor Auxiliar, Agregado

Nota 1 – O Professor Doutor Pedro Fevereiro é também Presidente da Direcção do CiB – Centro de Informação de Biotecnologia

NOTA 2 – O original deste artigo aqui partilhado integralmente foi publicado no Agroportal.pt

Artigo – Biotecnologia e Melhoramento Vegetal por Pedro Fevereiro

Artigo-RevistaCultivar_GPP_MA_Pt

Artigo de Comunicação e Agricultura
Biotecnologia e Melhoramento Vegetal

Pedro Fevereiro – ITQB NOVA, CiB Portugal

Junho 2016 | Revista Cultivar (GPP)

 

A biotecnologia tem como programa racionalizar e tornar eficientes os processo que recorrem aos organismos vivos ou seus componentes para a obtenção de produtos e serviços.

Não admira, portanto, que historicamente seja a agricultura – uma atividade que tem como um dos seus objetivos a produção de matéria-prima para a alimentação humana e animal – uma das áreas que mais tende a incorporar a inovação desenvolvida pela biotecnologia.

Dependendo da perspetiva, é possível assumir que a biotecnologia, entendida como atividade humana que recorre aos “serviços” dos seres vivos, sempre esteve presente desde que o homem se sedentarizou. De facto, os processos de seleção artificial que foram sendo impostos por nós a espécies vegetais e animais e que deram origem às atuais variedades vegetais cultivadas e às raças de animais domésticos, bem como os múltiplos usos que delas foram sendo feitos, são considerados por alguns como biotecnologia, embora a componente de racionalização destes processos só nos últimos dois séculos se tenha vindo a impor, devido à compreensão dos fenómenos biológicos subjacentes aos processos utilizados.

Nos últimos cem anos, a acumulação do conhecimento biológico, fruto da aplicação do método científico ao estudo dos seres vivos que nos rodeiam, tem permitido o desenvolvimento de várias tecnologias para otimizar os processos de melhoramento das espécies vegetais. O desiderato final é permitir o desenvolvimento de cultivares, das diferentes espécies vegetais que são utilizadas na agricultura, adequadas às diferentes condições edafoclimáticas, aos diferentes modos de produção e aos diferentes ataques bióticos (doenças e pragas). Estes objetivos são tanto mais relevantes quanto as perdas relativas aos stresses bióticos se estimam entre 30 a 40 porcento atuais (figura 1), podendo as perdas de produtividade potencial resultantes dos impactos abióticos ultrapassar os 60%.

LER ARTIGO COMPLETO nas pág. 27-35

Pedro Fevereiro (2016) “Biotecnologia e Melhoramento Vegetal”. Revista Cultivar. 4. GPP (*) – Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral. pp. 27-35. Url: http://www.gpp.pt/pbl/Period/Cultivar_4_digital.pdf. 

Apres.Cultivar4-GPP-MAM-5jul2016-FotoGPP
Sessão de Apresentação da Revista Cultiva nº 4

O GPP (*) organizou no Ministério da Agricultura e Mar uma sessão de reflexão, com intervenções sobre o tema, na sessão de apresentação desta publicação.

APRESENTAÇÃO “Biotecnologia e Agricultura” de Pedro Fevereiro

Programa do evento

* O GPP – Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral tem por missão apoiar a definição das linhas estratégicas, das prioridades e dos objetivos das políticas do Ministério da Agricultura e do Mar (MAM) e coordenar, acompanhar e avaliar a sua aplicação, bem como assegurar a sua representação no âmbito comunitário e internacional e prestar o apoio técnico e administrativo aos gabinetes dos membros do governo e aos demais órgãos e serviços integrados no MAM.

Transgénicos: Resposta do CiB a deputado do PAN

Maçaroca de Milho convencional com broca - CiB
Exemplo de Maçaroca de Milho Transgénico (geneticamente modificado) versus Maçaroca de Milho Convencional atacada por broca e fungos (pragas).

Resposta do Presidente do CiB – Centro de Informação de Biotecnologia e investigador de Biotecnologia de Plantas (FCUL e ITQB NOVA), Professor Doutor Pedro Fevereiro, ao artigo de opinião do deputado André Silva do PAN (publicado no jornal Público.pt):

O Centro de Informação de Biotecnologia (CiB) foi ouvido pela Comissão de Agricultura da Assembleia da República, onde em 10 minutos (não mais) teve que responder a cerca de 40 perguntas de 5 deputados diferentes, entre os quais o senhor André Silva. Deputado que apesar de solicitado, se recusou a receber o CiB para discutir o tema em questão. Grotesco é, portanto, a queixa de que não lhe foi dada resposta. Quando a pergunta mais relevante era se o presidente do CiB era pago pela “Monsanto”. Grotesca é a perspectiva de que apenas os OGM são sujeitos ao uso de pesticidas. Grotesca é a continua desinformação que é veiculada por arautos do “ambientalismo purificador” enquanto usam plataformas informáticas que permitem lucros milionários. Grotesca é a forma trauliteira com que se dirigem a terceiros, porque alcandorados a deputados, sem respeito pelo trabalho e opinião dos outros. Grotesco é o facto de transmitir mensagens falsas, sem qualquer suporte científico e técnico. Grotesco é não saber e não querer saber nada de agricultura e de alimentação e poder estar sentado numa comissão sobre o tema. Grotesco é deturpar informações e dizer que na Argentina há problemas com o glifosato, quando em Portugal 70% de todos os herbicidas utilizados são à base de glifosato, por este ser o menos tóxico de todos os disponíveis no mercado. E que é utilizado em jardins públicos e privados, sem qualquer prejuízo para a saúde humana e animal quando devidamente utilizado. Grotesco é pensar que pode falar pelos agricultores, sem os ouvir e sem saber da sua experiência do uso das variedades geneticamente modificadas. Claro: da sua poltrona citadina e confortável, é bem simples divulgar balelas e esperar retorno, na forma de votos, na expectativa que a demagogia funcione.

O artigo original de André Silva no Público.pt está disponível AQUI