RNAi| A agricultura do futuro produzirá alimentos com base nesta tecnologia

Chegou ao fim a terceira edição da Conferência anual iPlanta, promovida pelo CiB – Centro de Informação de Biotecnologia e pelo Laboratório de Biotecnologia de Células Vegetais, do ITQB NOVA. Uma das novidades apresentadas foi o controlo, através de RNAi, da Drosophila Suzukii, uma mosca da fruta que é responsável pela perda considerável de vários tipos de frutos e não é possível de controlar com os pesticidas tradicionais.

Durante três dias, no Auditório do ITQB NOVA, em Oeiras, cerca de 120 investigadores de 26 países debateram as potencialidades do uso de RNA de interferência (RNAi) na agricultura – seja por modificação genética seja por aplicação tópica de moléculas – e divulgaram os aspetos científicos e técnicos desta tecnologia, de forma a se efetivar a sua utilização na proteção das culturas agrícolas contra pragas e doenças.

Na terceira edição da Conferência iPlanta, que decorreu entre 27 de fevereiro e 1 de março, foram apresentadas novas estratégias para a utilização de pequenos RNA ou de RNA de cadeia dupla para o controlo de pragas e doenças em culturas agrícolas e discutidos os aspetos relacionados com a regulamentação e a segurança destas novas tecnologias, bem como o interesse para a atividade agrícola.

Novidades apresentadas

Numa das apresentações falou-se do controlo de uma mosca da fruta (Drosophila Suzukii), que é responsável pela perda considerável de vários tipos de frutos e que não é possível controlar com os pesticidas tradicionais. Neste caso, foi utilizado um RNA de cadeia dupla, que permitiu seletivamente reduzir o número de efetivos desta mosca.

Outra novidade apresentada neste encontro foi a alteração genética do trigo para expressar um pequeno RNA, que tem como alvo um afídio, um inseto que ataca as plantas e que transmite o vírus do nanismo amarelo, letal para o trigo. A expressão desse pequeno RNA permitiu reduzir significativamente a disseminação da doença transmitida pelo vírus, por redução do número de afídios.

Com a apresentação dos trabalhos que estão a ser desenvolvidos em vários países com base nestas tecnologias, os participantes concluíram que é possível desenvolver novas metodologias baseadas na utilização de biomoléculas para o controlo efetivo de pragas e doenças em diferentes culturas.

Casa cheia nos três dias de Conferência iPlanta, no Auditório do ITQB NOVA. Presentes, investigadores de vários países para falar da tecnologia RNAi na agricultura.

Tão seguras como as técnicas convencionais

Apesar de algumas destas soluções já se encontrarem numa fase de pré-comercialização, os investigadores esperam agora que estas tecnologias não sejam consideradas, na União Europeia, mais arriscadas do que as técnicas convencionais de controlo de pragas e doenças, uma vez que “as biomoléculas em que se baseiam estas tecnologias são ubíquas e degradam-se rapidamente na natureza”, como garante Pedro Fevereiro, presidente do CiB, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Diretor do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA.

Para este investigador, “as tecnologias baseadas nestas biomoléculas têm um enorme potencial, não só porque terem uma ação mais específica para as pragas e doenças que se pretende controlar, mas também por serem seguras, quer para os organismos não alvo, quer para o ambiente.”  porque as biomoléculas em que se baseiam estas tecnologias são ubíquas e degradam-se rapidamente na natureza. Além disso, os diferentes organismos, incluindo o Homem, têm uma enorme familiaridade com estas biomoléculas.”

iPlanta

A importância das Conferências iPlanta reside na necessidade urgente de encontrar soluções mais eficazes, através da aplicação de RNAi, uma das novas técnicas de reprodução, no combate às interações patogénicas enfrentadas pelas culturas, responsáveis pela perda de quantidades substanciais da produção agrícola mundial, incluindo em Portugal, onde todos os anos se perdem cerca de 40 % de culturas. Em termos globais, os números são semelhantes: segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), entre 20% a 40% das culturas são destruídas todos os anos devido a pragas e doenças.

Com o estimado aumento populacional, a agricultura moderna enfrenta um dos seus maiores desafios: garantir o abastecimento de alimentos para 10 mil milhões de pessoas daqui a apenas 30 anos. De acordo com os investigadores presentes neste encontro, a aplicação da tecnologia RNAi promete responder com eficácia a esse desafio.

Tal como as Conferências iPlanta anteriores – a primeira, em 2017, em Itália, a segunda, em 2018, na Polónia -, a terceira edição é uma ação COST, uma organização europeia que promove e financia o networking em investigação e tecnologia.

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Livro | Genética para todos

Chega esta semana às livrarias portuguesas o livro que retrata e explica, de uma forma que todos entendem, os avanços científicos desde a descodificação do genoma humano, em 2003, até aos nossos dias. Genética para Todos”(Gradiva) foi escrito pela geneticista Heloísa G. Santos e pelo jurista André Dias Pereira. Publicamos aqui um curto excerto.

“… A edição do genoma é uma nova técnica de manipulação programada do genoma, através do sistema CRISPR/Cas9, que pode ser utilizada em vários domínios da ciência, incluindo a terapia génica de doenças monogénicas. Em 2012, Jennifer Doudna e Emanuelle Charpentier, duas investigadoras da Universidade de Berkeley (Califórnia), verificaram e informaram a comunidade científica de que se podia utilizar em células eucariotas (com núcleo, como as nossas) um mecanismo imunológico identificado em bactérias pelo qual estas se tornam capazes de se libertar dos vírus quando estes se introduzem no seu genoma.

Este novo instrumento é constituído por uma enzima bacteriana (Cas9) que corta as duas cadeias da molécula de ADN como uma tesoura e por um segmento de ARN (CRISPR) que actua como guia, identificando o local onde é necessário que o genoma seja alterado e onde será colocada a nova sequência do ADN. O ARN é obtido através de firmas comerciais. A forma como esta cirurgia molecular é realizada (não utilizando um vírus como vector) torna-a menos arriscada do que as tentativas anteriores de manipulação do genoma… ”

Para estimular o interesse pela leitura, leia um longo excerto de Genética para Todos que o jornal Público, em jeito de pré-publicação, traz na sua edição de hoje.

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