Biotecnologia | Porque sim na medicina, porque não na agricultura?


A introdução de culturas geneticamente modificadas (OGM) em 1996 desencadeou uma reação violenta por parte de ativistas ambientais e de consumidores preocupados com o facto de a “manipulação da natureza” poder levar a consequências potencialmente terríveis e imprevistas. No entanto, quase não se ouviram protestos públicos quando as técnicas de engenharia genética foram desenvolvidas pela primeira vez na década de 1970 para comercializar produtos farmacêuticos, como a insulina geneticamente modificada. O que leva à questão: por que razão as pessoas vêm a biotecnologia na agricultura de uma forma diferente da biotecnologia na medicina?

Dizem os especialistas que a opinião pública acolhe mais favoravelmente a aplicação da biotecnologia na medicina do que na agricultura porque sente os seus benefícios diretos na prevenção e tratamento de doenças graves. Os benefícios da biotecnologia em culturas agrícolas – como o aumento dos rendimentos e a redução dos custos de produção – são primeiro sentidos pelo agricultor, permanecendo invisíveis aos consumidores e, por isso, por eles subvalorizados.

Além disso, “o movimento anti-OGM capitalizou a ignorância dos consumidores com uma campanha de marketing eficaz contra os transgénicos, financiada em grande parte por defensores dos alimentos orgânicos e organizações ambientais”, lê-se num artigo da Genetic Literacy Project.

Apesar das amplas evidências de que as culturas geneticamente modificadas não ameaçam a saúde humana, grande parte do público em geral, no mundo inteiro, mantém o ceticismo em relação à biotecnologia na agricultura. Apesar dos investigadores serem favoráveis às culturas GM e garantirem a sua segurança e benefícios ambientais e económicos – um estudo de 2015, da Pew Research Center, descobriu que 88% dos investigadores da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) acreditam que a tecnologia é perfeitamente segura -, pouco mais de 50% dos consumidores nos Estados Unidos, onde a aplicação da tecnologia na agricultura até é das mais significativas no mundo, dizem que evitariam comprar alimentos rotulados como “transgénicos” ou submetidos a “modificação genética”, de acordo com uma investigação de junho de 2018.

Mas quando em causa estão avanços na medicina, os consumidores norte-americanos não são tão apreensivos. No mesmo estudo de 2015, que também considerou as opiniões sobre a aplicação da biotecnologia na medicina, os consumidores mostram-se claramente divididos em relação ao que pensam sobre a engenharia genética. Ainda que o procedimento nos OGM não envolva mais do que mover um ou mais genes de um animal ou planta para outro animal ou planta, muitas pessoas consideram os OGM artificiais e uma violação da ordem da natureza, especialmente quando se trata de algo tão pessoal e visceral quanto a comida. E quanto à introdução de culturas agrícolas editadas por CRISPR, não está claro como o público responderá a essa nova tecnologia, mas os ativistas anti-OGM já estão a soar o alarme sobre os supostos perigos da edição de genomas.

A ver vamos. Certo é que o uso de transgénicos na medicina cria muito pouca controvérsia e o curioso é que o processo para desenvolver um produto médico é quase idêntico ao que é usado para criar uma semente transgénica. Ambos são o resultado de processos de triagem muito longos e cuidadosos para encontrar as moléculas e as proteínas corretas, bem como os genes que as codificam.

Em ambos os casos, vários organismos são engenhados para os fins a que se destinam. As bactérias são os organismos que mais se utiliza neste processo, uma vez que são mais fáceis de cultivar e ampliar para produção. No entanto, dependendo da complexidade da estrutura molecular da droga, outros organismos, como leveduras e células de mamíferos, também podem ser usados ​​para chegar ao produto final.

A título de exemplo: os investigadores usam a biotecnologia para analisar novas doenças e produzir vacinas para nos proteger. Como afirma Jeff Bessen, químico da Universidade de Harvard, “muitas vacinas e produtos farmacêuticos de alto rendimento contêm proteínas como ingrediente principal. As proteínas são muito caras e delicadas para fabricar a partir do zero, mas as células vivas precisam de produzir proteínas para sobreviver e podem ser induzidas a produzir proteínas médicas a granel, exigindo pouco mais do que as instruções do DNA e o caldo açucarado como combustível. Uma vez que estas plantas genéticas são inseridas nas células, muitas vacinas e drogas são tecnicamente um produto transgénico.”


Este gráfico mostra quantas vacinas são feitas com recurso a engenharia genética. Crédito de imagem: GenScript

Não obstante as técnicas usadas para modificar os organismos na fabricação de drogas e na criação de novas culturas agrícolas sejam semelhantes, a intenção que prevalece em cada uma das áreas não poderia ser mais diferente. As empresas farmacêuticas procuram fabricar medicamentos destinados a tratar ou curar uma doença. As empresas agrícolas acrescentam características às plantas que ajudarão de forma direta os agricultores, sem prejuízo dos consumidores e do meio ambiente. Pelo contrário, não faltam estuds que mostram os benefícios para o consumidor e para o ambiente, na medida em que uma cultura GM não precisa de tantos produtos químicos para fazer face a doenças e pragas como uma cultura convencional.

O próximo passo é inserir os genes candidatos na cultura apropriada. Começa então a operação meticulosa de selecionar o organismo ou planta que expressa a característica desejada. Isto leva-nos à última semelhança entre as culturas biotecnológicas e as drogas: ambas passam por um processo de aprovação de vários anos. No caso de um medicamento, o processo de aprovação consiste em verificar que a droga é eficaz e segura, ou seja, que faz o que foi projetada para fazer, com efeitos colaterais mínimos. No caso de uma cultura agrícola, o processo de aprovação depende, basicamernte, da garantia de que os alimentos são tão seguros como os alimentos não OGM e que não reptresentam riscos para o meio ambiente.

Na investigação do Pew Research Center, os invrestigadores perguntaram aos consumidores se a utilização da biotecnologia para produzir orgãos artificiais era uma utilização apropriada dos avanços na medicina. 74% respondeu sim.
Créditos da imagem: Genetic Literacy Project.

As culturas transgénicas atualmente aprovadas não representam preocupações de saúde ou ambientais maiores do que suas contrapartes não transgénicas. Mas o processo de aprovação tem sido tão politizado que leva, em média, 13 anos e 130 milhões de dólares para obter uma cultura aprovada. No caso dos animais, leva mais tempo. O único animal de bioengenharia a ser aprovado – o salmão da AquaBounty – levou 17 anos e ainda não está no mercado graças a uma luta política liderada pela senadora do Alasca Lisa Murkowski, que teme que o salmão transgénico do Atlântico ameace o salmão selvagem do Pacífico.

Em suma: a opinião favorável ou desfavorável dos consumidores sobre a biotecnologia está associada ao seu benefício direto. A aplicação da biotecnologia na medicina acolhe simpatias e aceitação porque as inovações médicas têm impactos imediatos e palpáveis ​​na saúde pública. Veja-se ao exemplo da diabetes, que já foi uma ‘sentença de morte’ e agora é uma doença controlável graças à insulina produzida com bactérias geneticamente modificadas. Outras terapias aprovadas pela FDA e que envolvem a engenharia genética estão também disponíveis para silenciar os efeitos da leucemia e do linfoma, responsáveis pela morte de mais de 40 mil pessoas por ano.

Reforçando a convicção de que o público aceita melhor a botecnologia quando experimenta benefícios diretos, um estudo de 2016 publicado no PLOS One mostra que 68% dos consumidores estão dispostos a aceitar engenharia genética quando usada ​​para melhorar a saúde humana. A aceitação cai para 49% quando a engenharia genética é aplicada à agricultura.

Mais informação aqui e aqui.

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OGM | Milho transgénico pode ajudar a compensar os efeitos das alterações climáticas

Segundo um estudo que analisou 35 anos de produção de milho e 35 anos de dados sobre o clima em oito estados norte-americanos, tecnologias como a engenharia genética podem ajudar a compensar os efeitos do aumento global da temperatura.

Os investigadores norte-americanos Jesse Tack, da Universidade do Estado do Kansas, e Ariel Ortiz-Bobea, da Universidade de Cornell, publicaram recentemente um estudo na revista Environmental Research Letters, no qual analisam o impacto das alterações climáticas na produção de milho transgénico em oito estados do centro-oeste dos Estados Unidos.

O estudo mostra claramente que as variedades de milho melhoradas pela tecnologia moderna podem contribuir positivamente para superar as preocupações emergentes com as alterações climáticas.

Neste estudo, os investigadores analisaram 35 anos de produção de milho geneticamente modificado (GE) e as condições climáticas durante esse tempo e descobriram que a tecnologia pode compensar os efeitos de temperaturas mais altas e outros impactos relacionados com o clima.

Essas e outras tecnologias “podem ser uma estratégia frutífera para contrabalançar as alterações climáticas”, afirmaram os investigadores, pelo que técnicas de engenharia genética recentemente desenvolvidas, como o CRISPR, terão provavelmente um papel crucial no futuro.

O estudo mostrou que o rendimento aumentou em quase 70% durante o período de adoção rápida, ou seja, de 0,94% de ganhos aproximados ao ano antes de 1996 para 1,6% depois de 1996.

Leia o estudo integral aqui.

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OGM | Espanha desenvolve plantas resistentes à seca extrema

A seca é o principal problema da agricultura em todo o mundo, o que levou a que uma equipa de investigadores do CRAG – Centro de Investigação em Agrigenómica, em Espanha, desenvolvesse plantas resistentes a secas severas.

A seca afeta tudo e todos, mas de um modo muito particular afeta mais quem vive do campo. Quer a agricultura, quer a pecuária e a pastorícia são das primeiras atividades a sofrer os efeitos da falta de água, com a consequente redução da produção e o aumento da despesa para manter as culturas e os animais.

Em 2017 e 2018, a Península Ibérica foi devastada com uma seca extrema, traduzindo-se em prejuízos incalculáveis. Mas graças ao trabalho de uma equipa de investigadores do CRAG-Centro de Investigação em Agrigenómica, em Espanha, a solução do problema pode estar para breve. Através de modificação genética, os investigadores conseguiram desenvolver plantas resistentes à seca extrema.

Neste vídeo, a investigadora principal deste projeto, a espanhola Ana I. Caño-Delgado, resume as conclusões da investigação e explica a importância para a agricultura da modificação genética de plantas.

Além de ver a entrevista, a que poderá ter acesso neste vídeo, leia também o artigo científico aqui.

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OGM | Sorgo com altos níveis de vitamina A ajuda a combater a cegueira infantil

Todos os anos, cerca de 250 milhões de crianças em todo o mundo perdem a visão devido à falta de vitamina A na sua alimentação. O problema afeta os países mais pobres, sobretudo em África e no sudeste asiático. Para resolver o problema na África Oriental, os investigadores em plantas estão a fazer modificação genética numa das culturas mais comuns na região, o sorgo, para lhe acrescentar nutrientes.   

A deficiência de vitamina A é a principal causa de cegueira infantil evitável e aumenta o risco de doenças e morte por infeções graves. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, são 250 milhões as crianças que ficam cegas, todos os anos, em todo o mundo, por falta desse nutriente.

A situação é tão grave que se tornou num problema de saúde pública em mais da metade dos países no mundo, especialmente em África e no Sudeste Asiático, tendo como principais vítimas as crianças e as mulheres grávidas mais pobres.

Mas no Quénia, os investigadores em plantas já estão a trabalhar para resolver o problema. Como? Através da modificação genética de uma cultura muito comum no país – o sorgo – com o objetivo de produzir sorgo com caraterísticas nutricionais mais elevadas, nomeadamente níveis mais altos de vitamina A, ferro e zinco do que as variedades convencionais.  

O melhoramento do sorgo no Quénia faz parte do projeto África Biofortified Sorghum (ABS), uma parceria público-privada estabelecida para combater a deficiência crónica de vitamina A em crianças, bem como melhorar os níveis de zinco e ferro. Se obtiver aprovação comercial, será o primeiro sorgo biotecnológico do mercado.  

Mais informação aqui  e aqui .

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Biotecnologia | Estamos rodeados dela e não sabemos


Créditos da imagem: Shutterstock

Há quem acredite que a alimentação do futuro é a biotecnologia alimentar. Que a carne que iremos comer não será de animais, que o leite que iremos beber não será das vacas, que as claras de ovos serão produzidas sem galinhas. A verdade é que já há empresas a trabalhar para que isso seja possível. O que é uma realidade velha é o uso da biotecnologia na produção de medicamentos e de alimentos e, mais recentemente, na engenharia genética, permitindo editar, corrigir e alterar o genoma de qualquer célula. A biotecnologia está praticamente em tudo o que comemos, vestimos e usamos no dia-a-dia.

Há muito que se fala em biotecnologia, mas quantos de nós sabem realmente o que significa? Como o próprio nome indica, é a tecnologia ao serviço da biologia. E isso diz-nos o quê? Muito pouco, em especial para quem está fora desta área de investigação que envolve várias especialidades.

A biotecnologia é uma ciência multidisciplinar e consiste em qualquer aplicação tecnológica que utilize organismos vivos ou parte deles para fabricar ou modificar produtos ou processos é que ajudem a melhorar a nossa vida.

As áreas da biotecnologia com maior impacto em Portugal são as da biotecnologia farmacêutica e industrial. A farmacêutica está ligada principalmente ao desenvolvimento e comercialização de biofármacos, vacinas recombinantes e métodos de diagnóstico, permitindo oferecer tratamento para um alargado leque de doenças (incluindo certos tipos de cancro ou vacinas inovadoras) e detetar rapidamente agentes patogénicos. A industrial engloba as aplicações da biotecnologia em diferentes indústrias como a têxtil, pasta de papel, alimentar (nomeadamente no processamento de lacticínios, açúcar e produção de ingredientes), plásticos, químicos e biocombustíveis (essencialmente bio-etanol). Uma parte importante deste setor é a produção de enzimas (usadas, por exemplo, nos detergentes).

Nos países mais desenvolvidos, a biotecnologia é um dos setores com uma maior previsão de crescimento a médio prazo, pois é considerada a ciência chave do século XXI e promete progressos revolucionários e novas terapias. A biotecnologia aplicada à medicina é uma das áreas de maior crescimento do conhecimento humano e está relacionada com o desenvolvimento de sistemas terapêuticos emergentes como a terapia genética, a terapia celular ou a medicina regenerativa.  

Informações mais detalhadas aqui.

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OGM | Quantos mais anos são precisos para provar que são seguros?

Diagrama de Venn enumerando os genes diferencialmente expressos, num universo de 17 546, entre variedade de milho GM (MON 810) e não GM. Os genes de maior interesse foram os da Peroxidase, Ferredoxina, Lipoxigenase6 (LOX6), Kin-1 (Knotted 1-induced1), NAD(P)H Nitrato redutase, Oxidoredutase, 1,3-ß-glucanase e Proteína relacionada com patogenese5 (PR5)

O uso de Organismos Geneticamente Modificados
(OGM) é muito antigo e o desenvolvimento de plantas GM para fins alimentares já tem quase 30 anos, no entanto, ainda é profundo o desconhecimento geral sobre o que são, como se fazem e para que servem, o que talvez explique os receios infundados em torno de tudo o que é transgénico. Duas investigadoras do INIAV, Eugénia de Andrade e Isabel Rodrigues, desmontam mitos, esclarecem dúvidas sobre os OGM e até fazem uma breve história dos alimentos GM.

Sabia que a primeira planta GM para fins alimentares foi um tomate e que foi desenvolvido entre 1987 e 1992? E que esse tomate chegou a ser comercializado durante cinco anos? Apesar do consumo de alimentos GM se fazer há mais de duas décadas, o debate e as desconfianças continuam, porque, como explicamas investigadorasEugénia de Andrade e Isabel Rodrigues num artigo intitulado Alimentos Geneticamente Modificados – seguros ou não?, “uma vez instalados o medo e os receios na população, é muito difícil eliminá-los.”

Neste artigo bastante esclarecedor, publicado em junho de 2018 na Vida Rural, as investigadoras do INIAV, Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, em Oeiras, realçam que “só se conseguem estabelecer os efeitos dos alimentos na saúde, quer sejam GM ou não, dentro de limites apertados”, pelo que os investigadores “conseguem prever efeitos com base na informação disponível sobre a composição química do alimento, dados epidemiológicos, variabilidade genética das populações e estudos conduzidos em cobaias.”

A maior preocupação associada às plantas e alimentos GM, lê-se no texto, “é poderem conter substâncias tóxicas e alergénios resultantes de alterações inesperadas, ou seja, alterações ‘secundárias’ em processos metabólicos originalmente não visados no processo de transformação e melhoramento. Como as técnicas de engenharia genética permitem fazer melhoramento muito dirigido e com grande controlo, o produto resultante do transgene é avaliado durante a fase de análise de risco e, portanto, nunca será esta a causa de risco para a saúde nos OGM aprovados.“

Assim, continuam Eugénia Andrade e Isabel Rodrigues, “as controvérsias assentam no argumento de que são mais prováveis as alterações não intencionais no DNA das plantas quando novos elementos genéticos são inseridos por técnicas de biotecnologia, do que pelos métodos de melhoramento convencional. Ora, esta visão não passa de um mito e, para o provar, podem-se enumerar casos de plantas obtidas por melhoramento convencional contendo elevados níveis de compostos tóxicos.”

Leia o artigo integral aqui.

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Gene drive | Técnica de transmissão específica de genes foi usada pela primeira vez em mamíferos

Depois das experiências em mosquitos, os investigadores usaram ratos para demonstrar que alguns genes específicos, muitas vezes modificados, podem ser transmitidos de uma geração de roedores para a geração seguinte. Foi a primeira vez que se aplicou em mamíferos este procedimento, designado gene drive (gene condutor ou condução de genes), que, apesar de controverso, tem um enorme potencial para combater doenças como a malária.

Gene drive é uma técnica que consiste na transmissão de um gene ou genes específicos de uma espécie para as gerações seguintes dessa mesma espécie.

Antes dos testes em ratos, o gene drive já tinha sido demonstrado em mosquitos, tornando-os inférteis e retirando-lhes a capacidade de transmitir as doenças de que eram portadores, como por exemplo a malária. Se estes mosquitos tivessem sido libertados para a natureza, é muito provável que toda a população de mosquitos, incapaz de se reproduzir, seria erradicada.

No fundo, o que o gene drive faz é quebrar o ciclo normal de transmissão genética entre as espécies (de uma geração para a outra) para garantir que certos genes, que podem ou não ser modificados, passem para as gerações seguintes a uma taxa superior ao normal. Outras experiências com gene drive tiveram como finalidade aumentar a resistência dos insetos à infeção pelo parasita Plasmodium (parasita da malária).

Muitos investigadores acreditam que a mesma abordagem pode ser uma alternativa mais eficaz aos projetos de erradicação de pestes usados para limpar ilhas remotas de espécies invasoras. A título de exemplo, veja-se o que sucedeu na Geórgia do sul, onde o maior esforço de erradicação de ratos do mundo declarou, finalmente, a região livre de roedores – os ratos devastaram a vida selvagem daquele território durante mais de 250 anos.

Apesar do seu potencial, o gene drive não acolhe o apoio de toda a comunidade científica mas na comunidade científica. Muitos investigadores mantém-se cautelosos em relação a relação a este procedimento, temendo que se a técnica não for usada para o bem, pode causar danos irreparáveis aos ecossistemas. Por isso é que em 2016, as Academias Nacionais de Ciências dos EUA determinaram que era necessário muito mais trabalho de investigação para controlar os genes, antes que eles pudessem ser usados ​​com segurança na natureza. Um dos aspetos que preocupam os investigadores mais reticentes é que as mutações deixadas nos machos os tornassem resistentes ao gene drive e isso poderia prejudicar o seu uso para erradicar roedores invasivos.

Se a libertação na natureza de espécies com “genes condutores” causa muitos receios, o mesmo não acontece com as experiências em laboratório, onde a técnica poderia ser usada para criar animais com múltiplas mutações ou falhas genéticas associadas ao desenvolvimento de doenças, como o cancro, a diabetes e a artrite”, como afirmou Kimberly Cooper, bióloga e investigadora na Universidade da Califórnia em São Diego.

Christophe Boëte, da Universidade de Montpellier, acredita que, embora as experiências realizadas em ratos fossem uma prova de princípio para o gene drive em mamíferos, o uso desta técnica para controlar espécies invasoras é uma realidade ainda distante.

Para informações adicionais, leia um artigo no The Guardian sobre o uso de gene drive em mamíferos e um estudo, também em inglês, publicado na Nature.

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Conferência | Bruxelas discute Segurança alimentar na EU

Depois das recentes atualizações das normas europeias sobre segurança alimentar, política agrícola e informação transparente aos consumidores, a Conferência “Segurança alimentar na EU: manter padrões elevados e garantir a transparência das informações”, que terá lugar no dia 29 de janeiro, em Bruxelas, é uma oportunidade para especialistas em segurança alimentar, agências governamentais, representantes da indústria alimentar e outras partes interessadas avaliarem as perspetivas atuais e futuras do sistema de legislação alimentar da UE e da sua ação a nível mundial.
 

Segundo o relatório anual FoodDrink Europe 2016, a indústria alimentar e de bebidas constitui o maior sector transformador da União Europeia, liderando em termos de volume de negócios (15,6%), valor acrescentado (13%) e emprego (15,2%). Proteger a saúde dos cidadãos europeus, permitindo simultaneamente que a indústria alimentar opere nas melhores condições possíveis, é de importância capital, pelo que as instituições europeias introduziram fortes estruturas políticas que protegem os alimentos, desde o campo até ao prato.

Mas com a atualização das normas europeias sobre segurança alimentar, política agrícola e informação transparente aos consumidores, é necessário avaliar as perspetivas atuais e futuras do sistema de legislação alimentar da UE e da sua ação a nível mundial. É com esse objetivo que se vai realizar, em Bruxelas, no dia 29 de janeiro, a Conferência “Segurança alimentar na EU: manter padrões elevados e garantir a transparência das informações”. Será uma oportunidade para especialistas em segurança alimentar, agências governamentais, representantes da indústria alimentar e outras partes interessadas analisarem a atual regulamentação e delinearem os próximos passos.

Várias medidas e ações adicionais foram implementadas para aumentar a confiança do público nos padrões de segurança alimentar, mas a confiança dos consumidores voltou a ser abalada devido a escândalos como os “alimentos de qualidade dupla” – diferentes empresas multinacionais vendiam para os mercados da Europa Oriental produtos com ingredientes de menos qualidade ou substitutos mais baratos do que os produtos que colocavam nos mercados da Europa Ocidental com as mesmas embalagens e marcas -, e os casos de contaminação de ovos com fipronil e do uso de pesticidas como o “glifosato”. Estes casos estiveram no centro de uma controvérsia que causou grande impacto na confiança do público.

Para resolver estas questões, a Comissão Europeia apresentou em abril de 2018 uma proposta para restabelecer a confiança do público nos estudos científicos sobre segurança alimentar, sugerindo maior transparência na tomada de decisões e maior envolvimento dos especialistas dos Estados membros.

Tendo em conta os acontecimentos recentes, a Conferência “Segurança alimentar na EU: manter padrões elevados e garantir a transparência das informações”, não podia acontecer em momento mais oportuno. Nela, os intervenientes irão rever a regulamentação da informação alimentar aos consumidores e avaliar as suas alterações. Vão também obter insights sobre tendências recentes na rotulagem de produtos alimentícios e aprender sobre legislação abrangente sobre segurança de alimentos e ração animal. Além disso, vão partilhar as melhores práticas sobre como garantir que as importações mundiais cumpram os requisitos de segurança alimentar da EU, discutir as avaliações divergentes sobre o uso de glifosato, explorar formas de restabelecer a confiança do público na segurança alimentar e rever as medidas propostas. Por último, vão abordar a questão dos padrões duplos de alimentos e aferir formas de conseguir um cumprimento e verificações de regras eficazes.

Mais detalhes deste encontro aqui.

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Descoberta | Anti-OGM são quem menos sabe de OGM

De acordo com uma análise aos inquéritos realizados nos Estados Unidos da América, França e Alemanha, cujos resultados foram publicados no Nature’s Journal of Human Behavior, os adversários mais extremistas dos alimentos geneticamente modificados são quem sabe menos sobre OGM.

Esta descoberta pode ter implicações importantes para a comunicação científica e política das questões relacionadas com OGM. Leia mais no The Guardian, The New York Times e ArsTecnnica

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Evento | ITQB NOVA acolhe terceira conferência anual iPlanta

Entre 27 de Fevereiro e 1 de Março, o Auditório do ITQB NOVA, em Oeiras, acolhe a terceira conferência anual iPlanta. Depois de Roma, em Itália, e de Poznań, na Polónia, onde se realizaram, respetivamente, a primeira e segunda edição, este ano será Portugal a receber um dos mais importantes debates internacionais sobre a necessidade de usar a biotecnologia para o desenvolvimento de novas formas de proteger as culturas agrícolas de doenças e pestes.

Promovida pelo CiB – Centro de Informação de Biotecnologia e pelo Laboratório de Biotecnologia de Células Vegetais, da Unidade de Investigação Green-it, a terceira Conferência anual iPlanta contará com a presença e a intervenção de vários investigadores de diferentes países, que falarão sobre o desenvolvimento de novas metodologias através da utilização do RNA de interferência, um processo biológico no qual as moléculas de RNA inibem a expressão de um gene, neutralizando as moléculas específicas do RNA mensageiro (ácido ribonucleico responsável pela transferência de informações do ADN).

Haverá ainda lugar para a divulgação de novidades sobre a estabilidade do RNA, nomeadamente no silenciamento genético induzido por pulverização (SIGS) e do silenciamento genético induzido por hospedeiro (HIGS).

A importância deste encontro reside na necessidade urgente de encontrar soluções mais eficazes, através da aplicação de RNAi, no combate das interações patogénicas enfrentadas pelas culturas, responsáveis pela perda de quantidades substanciais da produção agrícola mundial, incluindo em Portugal, onde todos os anos se perdem cerca de 40 % de culturas. Em termos globais, os números são semelhantes. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), entre 20% a 40% das culturas são destruídas todos os anos devido a pragas e doenças.

Com o estimado aumento populacional, a agricultura moderna enfrenta um dos seus maiores desafios: garantir o abastecimento de alimentos para 10 mil milhões de pessoas daqui a apenas 30 anos. Mas poderá a produção de alimentos aumentar sem o recurso a metodologias como, por exemplo, o RNAi?

Para o investigador Pedro Fevereiro, presidente do CiB-Centro de Informação de Biotecnologia, Professor Auxiliar do Departamento de Biologia Vegetal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Chefe do Laboratório do Grupo de Biotecnologia Vegetal no ITQB NOVA, a realização da III Conferência iPlanta em Portugal “é uma oportunidade para debater e divulgar os aspetos científicos e técnicos desta tecnologia, de forma a se efetivar a sua utilização na proteção das culturas agrícolas contra pragas e doenças.”

Tal como as Conferências iPlanta anteriores, esta é uma ação COST, uma organização europeia que promove e financia o networking em investigação e tecnologia.

A participação na iPlanta está sujeita a inscrição prévia (até ao dia 15 de fevereiro). Consulte o programa aqui.