México | Governo suspende licenças para milho GM

À esquerda, milho não protegido. À direita, milho GM resistente à lagarta. Créditos da imagem: Gabriel Carballal

O governo mexicano vai deixar de conceder licenças para a produção de milho geneticamente modificado (GM) e até 2024 vai suspender as importações e o uso de glifosato.    

Através de um decreto recente, o governo impôs o “cancelamento de licenças para a libertação de sementes de milho geneticamente modificadas (GM) no meio ambiente.” na noite de quinta-feira, que também determinou a eliminação progressiva das importações de milho transgênico até 2024.

Produtores convencionais mexicanos contestam a revogação da licença, alegando que irá limitar as opções dos agricultores no País e colocá-los em desvantagem relativamente aos concorrentes norte-americanos, e alertam que a suspensão das importações poderá ser um risco para a cadeia alimentar.

A porta-voz do Conselho Nacional de Produtores do México, Laura Tamayo, garante que “a importação de grãos geneticamente modificados dos EUA é essencial para muitos produtos da cadeia agroalimentar.” O México é autossuficiente em milho branco (usado para fazer as tortilhas no País), mas depende das importações de milho amarelo GM dos EUA para uso pecuário.

Segundo uma notícia na Reuters, “não está claro se o decreto eliminará gradualmente a importação de milho GM para alimentação animal ou se as regras irão abranger apenas o milho cultivado para consumo humano.” O que o decreto estipula claramente é a eliminação progressiva do uso de glifosato até 2024.

Mais informaçõesno artigo da Reuters.

Japão | Primeiro alimento geneticamente editado estará à venda em 2022

Créditos da imagem: Andrea Riezzo / Unsplash

Depois de ouvir um painel de especialistas em Dezembro de 2010, o ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês decidiu autorizar a comercialização de uma variedade de tomate geneticamente editada. Será o primeiro alimento GM à venda no Japão.

Os cientistas levaram 15 anos a desenvolver este alimento de valor acrescentado, que apresenta cinco vezes mais GABA (aminoácido associado à redução da pressão arterial) que o fruto convencional.

Desenvolvida por uma start-up sediada em Tóquio, esta variedade de tomate GM irá demorar um ano a chegar ao mercado e será o primeiro alimento com o genoma editado à venda no Japão.

Esta aprovação representa “um grande passo em frente no melhoramento vegetal no Japão”, afirmou Takashi Yamamoto, professor da Universidade de Hiroshima e presidente da Sociedade Japonesa de Edição de Genomas.

Outros projetos relacionados com a edição de genomas estão em curso no Japão para desenvolver plantas de arroz mais produtivas, ovos hipoalergénicos e douradas maiores.

À esquerda, dourada geneticamente editada. Créditos da imagem: Kindai University’s Aquaculture Laboratory.

Super eficientes, com uma alta precisão e resultados rápidos, as tecnologias de edição de genomas permitem alterar genes e dotá-los das características desejadas. Têm sido utilizadas não só no melhoramento vegetal e proteção das culturas agrícolas como também no desenvolvimento de medicamentos.

Mais informações aqui.

Webinar | PE discute edição de genomas e estratégia Farm to Fork

Creditos da foro : FREDERICK FLORIN /AFP

O Parlamento Europeu realiza amanhã um debate online para falar do potencial da tecnologia de edição de genomas, do seu contributo para o cumprimento da estratégia Farm to Fork, do quadro legislativo atual que rege as Novas Técnicas Genómicas e das opções de governança futuras.   

Pilar do Acordo Verde europeu, a estratégia Farm to Fork (F2F) da Comissão Europeia (CE) reconhece que as inovações no melhoramento de plantas e na produção agrícola podem contribuir para um sistema alimentar mais sustentável. No entanto, a contínua incerteza regulatória sobre o quadro legislativo dos organismos geneticamente editados pode representar um obstáculo intransponível para atingir as metas expressas no documento F2F.

A CE ainda não formulou uma opinião sobre que organismos desenvolvidos através de NGT – Novas Técnicas Genómicas se enquadram na definição da UE de OGM. Na Europa, ainda está em andamento o debate sobre quais os organismos desenvolvidos por meio da edição de genomas se enquadram na definição de OGM. De recordar que em 2019, o Conselho da União Europeia solicitou à Comissão a apresentação de um estudo sobre o estatuto das Novas Técnicas Genómicas, ao abrigo do direito da União, para analisar a decisão tomada pelo Tribunal de Justiça Europeu (TJE) em 2018, segunda a qual os produtos de novas formas de mutagénese são OGM, e, como tal, não estão isentos da regulamentação de risco.

A decisão do TJE  tem sido frequentemente interpretada como significando que todos os organismos resultantes de edição genética devem ser regulamentados como OGM, mas uma análise recente concluiu que “nem todo o uso de edição de genoma resulta num OGM, pelo que tais conclusões genéricas não podem ser tiradas e que mais esclarecimentos sobre o ‘status’ legal dos organismos geneticamente editados são necessários. Acrescente-se que o estudo que a CE está a realizar a pedido do Conselho da UE é uma boa oportunidade para esse esclarecimento.

Para um enquadramento dos temas em discussão, poderá ser útil a leitura prévia do artigo The Status under EU Law of Organisms Developed through Novel Genomic Techniques, da Universidade de Cambridge.

Programa e registo aqui.

Citrus greening | CRISPR pode ajudar a controlar doença que destrói citrinos

Créditos da imagem: Tomi Vadász/Unsplash

Uma investigação do Instituto Agronómico de Campinas, no Brasil, é uma luz de esperança para o controle da Citrus greening, uma doença muito difícil de controlar e que aterroriza os produtores brasileiros, líderes na produção mundial de laranja. Os cientistas descobriram genes associados com resistência à doença.

A huanglongbing (HLB), vulgarmente conhecida como Citrus greening ou enverdecimento dos citrinos ataca folhas, ramos e frutos e é muito difícil de controlar. Uma planta infetada produz frutos amargos, rijos, disformes, incomestíveis, acabando por morrer poucos anos após a infeção.

Sendo o Brasil o maior produtor mundial de laranja e o Estado de São Paulo o líder da produção e exportação de sumo, não é difícil de imaginar os graves impactos socio económicos se não houver forma de controlar a doença.

Não existe no mercado nenhuma variedade tolerante à huanglongbing. A destruição das plantas infetadas é por enquanto o único meio de luta para eliminação da bactéria Candidatus Liberibbacter (na sua versão asiática, africana e americana), transmitida pelos insetos insetos Diaphorina citri e Trioza erytreae.

O grande desafio do setor é controlá-la e esse é justamente o foco da investigação que está a ser desenvolvida por cientistas do IAC – Instituto Agronómico de Campinas, em São Paulo. Para controlar a doença, os cientistas utilizam uma planta que foi geneticamente editada para ter essa capacidade; e para diminuir o custo de produção utilizam um porta-enxerto que reduz o tamanho da copa.   

O trabalho que está a ser realizado no IAC consiste em três linhas de investigação. A primeira e a segunda já estão em andamento: na primeira os investigadores fazem ensaios de campo para avaliar citrinos geneticamente modificados (GM); na segunda, utilizam o CRISPR (uma técnica de edição de genomas) para silenciar genes associados à resposta da planta à infeção causada pela bactéria do HLB. Na terceira, irão usar porta-enxertos (híbridos de tangerinas com Poncirus trifoliata), obtidos no programa de melhoramento de citros do IAC.  

Por serem perenes, só quatro anos depois da plantação é que os cientistas poderão iniciar o processo de avaliação das plantas. E depois disso serão necessários mais quatro anos para analisar o comportamento das plantas.

A investigadora do IAC Alessandra Alves de Souza revelou que a sua equipa descobriu na planta genes associados com suscetibilidade e resistência ao HLB. Ou seja, conseguiu identificar os genes que são realmente importantes e que possam ser editados através do CRISPR.

A expectativa dos cientistas é conseguir uma variedade resistente à doença em cinco anos.

A huanglongbing (HLB) surgiu no País em 2004 e estará a afetar cerca de 18% da plantação de laranjas e outros citrinos em São Paulo, Minas Gerais e Paraná, os principais estados produtores.

Em Portugal não há registo da presença da Citrus greening. Depois de  terem sido identificados os primeiros focos do inseto Trioza erytreae no território continental, na região do Porto, em resultado das prospeções oficiais efetuadas anualmente, o Ministério da agricultura reforçou as medidas de proteção fitossanitária (Portaria nº 142/2020) destinadas à erradicação da praga.

Mais informações sobre a investigação que está a decorrer no IAC aqui.

Estudo | Tecnologia baseada em RNAi ajuda a alcançar metas de sustentabilidade

As políticas da União Europeia e de sustentabilidade global enfatizam a necessidade de substituir alguns agroquímicos por “alternativas mais seguras, eficientes e económicas” para garantir a produção sustentável de alimentos. Poderá a tecnologia baseada em RNAi contribuir para esse objetivo? Um estudo científico diz que sim.  

Com o Novo Acordo Verde, a União Europeia pretende implementar novas políticas para uma produção de alimentos mais sustentável.  Um dos pilares desse acordo é a estratégia Farm-to-Fork (F2F) da Comissão Europeia (CE), que, entre muitas medidas, propõe uma redução substancial da utilização de agroquímicos (pesticidas, fertilizantes e antimicrobianos) para uma maior sustentabilidade e saúde, diminuição da perda de biodiversidade e proteção das culturas agrícolas.

Como ações promotores destes objetivos, a CE aponta a gestão integrada de pragas, a pratica de uma agricultura de precisão e inteligência artificial e níveis máximos de tolerância para resíduos de pesticidas em commodities importadas. A redução de agroquímicos está também prevista na estratégia “Biodiversidade 2030”, como uma forma de reverter o declínio de pássaros e insetos polinizadores em terras agrícolas.

No entanto, a procura de soluções eficazes que substituam os agroquímicos convencionais tem ficado para trás, segundo os autores do estudo “Does RNAi-Based Technology Fit within EU Sustainability Goals?“, publicado a 5 de dezembro na ScienceDirect. Defendendo um maior investimento em I&D nessa área, e tendo em conta as novas políticas de sustentabilidade, os investigadores alertam para a necessidade de, em pouco tempo e a custo acessível, desenvolver produtos com altíssima precisão, que causem o efeito desejado unicamente na praga ou doença que se quer controlar, sem prejuízo para a saúde e ambiente.

Uma das tecnologias que permite alcançar as metas de redução de riscos associados aos pesticidas, garantem, é a tecnologia baseada em RNAi (Ácido Ribonucleico de interferência), um processo biológico natural no qual as moléculas de RNA inibem a expressão de um gene, neutralizando as moléculas específicas do RNA mensageiro (é mensageiro porque é responsável pela transferência de informação do ADN). Ou seja, as biomoléculas em que se baseia a tecnologia de RNAi têm um enorme potencial, não só por terem uma ação mais específica para as pragas e doenças que se pretende combater, mas também por serem seguras, quer para os organismos não alvo, quer para o ambiente.

Mais informações sobre o modo de ação da tecnologia baseada em RNAi no estudo “Does RNAi-Based Technology Fit within EU Sustainability Goals?

Itália | Governo quer aprovar OGM e NTG mas grupos ambientalistas não deixam

Créditos da imagem: Virgil Cayasa / Unsplash

O governo italiano pretendia aprovar quatro projetos de lei para a autorização de tecnologias como os OGM-Organismos Geneticamente Modificados e as NTG-Novas Técnicas Genómicas, mas grupos ambientalistas impediram a aprovação.

Com os quatro projetos de lei, o governo de Giuseppe Conte tencionava autorizar as tecnologias usadas para produzir OGM e de outras Novas Técnicas Genómicas (NTG ou Novas Técnicas de Melhoramento) no país. Mas, mais uma vez, e como tem sido comum na maioria dos países da União Europeia, as organizações ambientalistas descartam as evidências científicas e usam argumentos infundados para travar a inovação e a biotecnologia.

A intenção do governo italiano gerou nesses grupos uma onda de protestos e uma campanha de tal maneira feroz que acabaram por impedir a aprovação da versão original dos decretos pró-OGM / NTG, cujas partes relativas a Organismos Geneticamente Modificados e a Novas Técnicas Genómicas foram inteiramente anuladas.  

NTG | Ministro da Agricultura francês defende novas técnicas de melhoramento vegetal

Créditos da imagem: © Lionel Bonaventure / AFP

O ministro da Agricultura de França afirmou que “as novas técnicas de melhoramento vegetal não devem estar sujeitas ao regulamento dos OGM”, demarcando-se da política da UE que coloca no mesmo ‘saco’ a edição de genomas e os OGM.

“Os chamados ‘novos OGM’ devem escapar à regulamentação dos seus predecessores”. Foi assim que o ministro da Agricultura francês saiu em defesa das novas técnicas genómicas (NTG, também conhecidas como novas técnicas de melhoramento vegetal), na última quinta-feira, 7 de janeiro,  numa entrevista ao jornal francês Agra.

Durante os próximos meses entrará em vigor a lei que regula as variedades resultantes de NTG, mas Julien Denormandie propõe a oposição da França, defendendo que o País não deveria aplicar a regulamentação atual sobre variedades resultantes de novas biotecnologias.

 “As NTG não são OGM”, por isso “não deveriam estar sujeitas ao regulamento de 2001 relativo aos OGM”, reiterou, propondo que a França se oponha à lei atual. Quando afirmou que “as NTG não são OGM”, o ministro estaria a referir-se não à tecnologia em si mas ao seu resultado. (A entrevista da investigadora do IGC ao CiB explica claramente o que distingue estas metodologias de engenharia genética).

Denormandie está focado em encontrar um modelo regulatório e legal para as NTG diferente do atual. Numa palestra online da União de Sementes Francesa (UFS), em dezembro, afirmou que aguarda ansiosamente uma resposta da Comissão Europeia no final de abril, acreditando que a solução poderá passar pela alteração da Diretiva, por uma interpretação diferente da da mesma ou por um regulamento novo e distinto.

As afirmações do governante francês contrariam a sentença do Tribunal de Justiça Europeu (TJE), em julho de 2018, que especifica que os organismos obtidos por novas técnicas de edição de genoma, em particular o CRISPR-cas9, são abrangidos pelas regras dos OGM. Uma decisão que colheu o apoio do Conselho de Estado francês, que em fevereiro de 2020 foi mais longe que o TJE, ao incluir as técnicas de mutação aleatória in vitro (alterações causadas por mutagénicos químicos ou radioativos).

Sujeitas à mesma regulamentação dos OGM, algumas variedades já existentes no mercado poderão deixar de ser comercializadas, em particular as variedades resistentes a herbicidas obtidas por mutação aleatória in vitro  obtidos por mutação aleatória in vitro, até nova autorização.

A França deveria já ter decidido, por decreto, seis meses após o parecer do Conselho, ou seja, em agosto passado. Como se lê numa notícia no Reporterre, “o governo francês e a Comissão Europeia estão por enquanto a ‘passar a bola’

A CE deverá emitir na primavera um parecer na sobre a regulamentação das NTG. Em todo o caso, como é proposto na reforma da Comitologia pela CE, deverão ser os Estados Membros da UE a decidir. Se assim for, as afirmações do ministro francês poderão ser entendidas como um sinal?

Saiba mais na notícia do Reporterre, escrita com base numa entrevista ao ministro francês publicada originalmente no jornal online Agra (leitura integral disponibilizada apenas aos assinantes).  

Entrevista | As maravilhas que a alteração de uma de quatro letras pode fazer

Entrevista realizada pelo CiB à investigadora do IGC Paula Duque, sobre edição de genomas, é o tema de capa da última edição impressa da Vida Rural.

 “Pela primeira vez, é fácil e acessível editar o genoma de plantas”

Seja na saúde ou na produção de alimentos, está demonstrado que o CRISPR pode ser a solução para muitos dos desafios atuais. Mas enquanto o uso da tecnologia ficar confinado aos laboratórios vai-se adiando a cura de doenças genéticas e a tão necessária produção de mais alimentos. Será que a atribuição do Prémio Nobel da Química às duas investigadoras que descobriram esta ferramenta é o empurrão que a edição do genoma precisa para ser aceite? É o que espera Paula Duque, investigadora do IGC.

Entrevista: Margarida Paredes / CiB

Fotografia e vídeo: Joaquim Miranda

Assista também a este vídeo, que resume, em três minutos, o conteúdo da entrevista.

Acha que a atribuição do Nobel da Química a quem “inventou” o CRISPR-Cas9 vai contribuir para que a edição do genoma seja transversalmente aceite?

É difícil prever, porque os preconceitos são muitos e estão muito enraizados, mas desde que o Prémio foi atribuído a Emmanuelle Charpentier e a Jennifer Doudna pelo desenvolvimento de um método de edição do genoma nunca se falou tanto das potencialidades do CRISPR-Cas9. Pelo menos para a divulgação e conhecimento da tecnologia contribui certamente, o que por si só é positivo.

Estamos a iniciar uma nova era na engenharia genética?

Penso que já iniciámos, ainda antes desta descoberta. O CRISPR não é a única ferramenta que permite editar os genomas, existem outras, embora esta seja, de facto, mais simples, mais rápida, mais barata e mais dirigida e, nesse sentido, sim, podemos considerar que estamos a assistir a uma nova era na engenharia genética.

Começando pelo princípio, em que consiste a edição do genoma?

A edição do genoma é um tipo de engenharia genética. Surgiu em meados dos anos 90 do século XX e permite acrescentar, remover ou substituir pedaços de sequências genéticas após corte do DNA em determinado local. Ou seja, permite-nos intervir especificamente na zona que queremos. Enquanto que até então, por exemplo com a tecnologia usada para os tradicionais OGM-Organismos Geneticamente Modificados, podíamos modificar o genoma inserindo nele um gene estranho, mas muitas vezes sem saber muito bem onde é que esse gene ia ‘aterrar’ – com a desvantagem de ser difícil controlar a disrupção de outra informação genética –, com a edição do genoma a modificação genética é feita de forma muito mais dirigida. O CRISPR é um método aperfeiçoado da edição do genoma. Permite modificar o DNA de uma forma de tal maneira controlada que podemos até alterar uma só letra do código genético.

Uma letra de inúmeras sequências e combinações de quatro letras diferentes. Quer explicar?

O genoma é o conjunto da informação genética de um organismo e esta está codificada no DNA. O DNA consiste em sequências enormes de quatro letras diferentes: A, C, T e G, que correspondem, respetivamente, às bases nitrogenadas Adenina, Citosina, Timina e Guanina. Cada gene é um segmento maior ou menor de uma sequência dessas letras combinadas.

Então, a principal vantagem do CRISPR relativamente a outras tecnologias é a precisão com que se insere um gene no genoma de um organismo?

Sim, é podermos chegar, de forma altamente precisa, a uma dessas letras e modificá-la, alterando assim o código genético. Mas não é a única vantagem. Além de precisa, é uma tecnologia mais fácil, mais rápida e menos dispendiosa. Representa um grande avanço nas tecnologias da edição do genoma.

Isso significa que antes do CRISPR ou de outras técnicas de edição do genoma a engenharia genética fazia-se um bocado ‘às cegas’?

Às cegas não, mas as modificações que se realizavam no genoma não eram tão dirigidas. Chama-se engenharia genética a tudo o que seja modificar o genoma. Já nos anos 70 do século XX se podia inserir em zonas alvo do genoma pedaços de DNA estranhos ao organismo. A recombinação homóloga permitia trocar informação genética entre duas moléculas de DNA idênticas ou muito semelhantes. Mais tarde, com o surgimento da edição do genoma, passámos a fazer a modificação genética de uma forma mais dirigida, criando nucleases artificiais, isto é, enzimas que vão cortar o DNA em sítios muito específicos (as chamadas tesouras moleculares). Recentemente, com a descoberta do CRISPR, que é um aperfeiçoamento das técnicas da edição do genoma, podemos mais facilmente modificar genes de uma forma ainda mais dirigida, ou seja, podemos ir à letra que queremos alterar.   

O CRISPR é a ferramenta de edição do genoma mais divulgada, no entanto, não é a única. Que outras ferramentas existem? Permitem todas o mesmo resultado?

Sim, é verdade, não é a única. Já existiam tecnologias semelhantes, como ZFN e TALEN, em que basicamente as tais tesouras moleculares são associadas a proteínas que se ligam ao DNA e, portanto, dirigem a atividade de corte para locais específicos do genoma. Com maior ou menor dificuldade e eficácia, sim, as ferramentas de edição de genoma permitem todas o mesmo resultado: modificar o DNA de forma dirigida.

O CRISPR permite, pela primeira vez, editar com facilidade o genoma de plantas. Porque é que era tão difícil fazer edição do genoma em plantas?

É verdade, a edição de genoma em plantas só se passou a fazer facilmente agora com o CRISPR, por ser uma ferramenta muito mais eficiente e acessível. Antes, a única tecnologia que se usava em plantas era a que gera os chamados OGM-Organismos Geneticamente Modificados. É uma ferramenta de engenharia genética, mas não permite a edição precisa do genoma. O CRISPR foi facílimo de adaptar às plantas, de maneira que poderemos conseguir agora por exemplo modificar um T por um A e desenvolver uma planta mais resistente a uma praga ou à falta de água…

Isso significa que poderíamos produzir abacate no Algarve sem gastar muita água? As plantações aí existentes consomem 3,5 milhões de litros de água por dia do aquífero, com prejuízo para outras culturas…

As potencialidades da edição de genoma no melhoramento de plantas são imensas e à partida quase tudo se poderá conseguir. Se conhecermos bem os mecanismos básicos utilizados pelas plantas em geral e o abacateiro em particular na gestão dos recursos hidrícos, poderemos definir uma estratégia de modificação da expressão génica que resulte num menor consumo de água. Isto ilustra bem a importância da investigação fundamental: sem ela não há investigação aplicada nem biotecnologia.

A modificação genética feita na planta através da edição do genoma não é detetável porquê?

Porque não é inserido DNA vindo de outro organismo e a modificação que se fez por edição genética muitas vezes poderia ocorrer espontaneamente na natureza, sem a intervenção humana. Por isso é que não fazem sentido os temores relativamente a esta tecnologia. Melhoramento do genoma das plantas é o que fazemos desde o aparecimento da agricultura, no Neolítico. Fazíamos e continuamos a fazer o melhoramento por técnicas tradicionais – cruzamos duas variedades ou duas espécies para fazer um híbrido que nos permite depois, nas gerações seguintes, selecionar a característica que mais nos interessa. O trigo atual, não tem nada a ver com o trigo que existia há dez mil anos, graças aos processos naturais de melhoramento que o homem foi implementando.

Com a edição do genoma desenvolvemos uma planta com características que poderiam de facto ocorrer como consequência do melhoramento natural. Simplesmente o processo é mais rápido e eficiente.

Os investigadores dizem que o CRISPR pode ser a solução para muitos problemas. Na saúde tem o potencial de tratar e curar doenças. Tem a mesma expetativa?

As esperanças nesta tecnologia são muitas e em áreas diferentes porque as experiências de facto demonstram que tem enormes potencialidades para ajudar a resolver muitos problemas da sociedade atual, entre os quais determinadas doenças. Em princípio, qualquer doença hereditária para a qual se conheça a alteração genética, a mutação, que a causa pode ser tratada com esta tecnologia. Neste momento, cientistas e empresas unem esforços e conhecimentos em ensaios clínicos para que seja possível tratar certas doenças através desta técnica de manipulação do genoma. Desde a cegueira hereditária até às doenças do sangue. Após três décadas de investigação, a terapia génica demonstrou que pode curar doenças genéticas. 

Pode ser mais específica?

Experiências com ratinhos ou células humanas em cultura têm vindo a demonstrar que a tecnologia CRISPR pode ser utilizada com sucesso no tratamento de mútiplas doenças, como por exemplo a hemofilia ou a anemia falciforme, que afetam respetivamente a capacidade do sangue coagular ou transportar oxigénio, a distrofia muscular, para a qual não há tratamento disponível, a fibrose quística, que provoca problemas respiratórios sérios, a SCID (do inglês Severe Combined Immune Deficiency], uma imunodeficiência primária em que os pacientes apresentam baixos níveis de células T e B, para mencionar só alguns exemplos… Em todo o caso, apesar do enorme potencial na medicina, ainda não foi aprovado qualquer tratamento utilizando esta ferramenta de edição do genoma.

E a agricultura como beneficiar da edição do genoma?

Como disse, com esta tecnologia poderemos gerar plantas que sobrevivam melhor a vários fatores ambientais, nomeadamente a pragas e doenças, excesso de salinidade no solo, falta de água, etc.. Relativamente à falta de água, a edição genética pode-nos permitir por exemplo desenvolver plantas que têm a capacidade de fechar os estomas mais rapidamente em resposta à seca. Os estomas são pequenos poros nas folhas, por onde a planta perde água por transpiração. Ora, se conseguirmos desenvolver uma variedade, por exemplo de milho, que responda ao sinal de falta de água, fechando os seus estomas mais depressa, a colheita de milho irá crescer melhor apesar de estar inserida numa região afetada pela seca. O mesmo se aplica à salinidade, à falta de nutrientes, às pragas e doenças e a outros problemas. Como vantagem adicional, a tecnologia poderá fazer com que as plantas não necessitem das doses de fitofármacos geralmente aplicadas na produção convencional.

Portanto, é também uma tecnologia favorável ao ambiente…

Sem dúvida. Se bem utilizada, a tecnologia pode ser um grande aliado na solução dos grandes problemas atuais, nomeadamente ambientais. O melhoramento genético de plantas através da edição do genoma poderá não só pode salvar muitas vidas, fazendo crescer mais as colheitas em condições adversas, como também tornar a agricultura mais sustentável e amiga do ambiente, na medida em que poderá exigir menos pesticidas e herbicidas ou menos fertilizantes, se gerarmos plantas com um menor consumo dos recursos naturais dos solos.

Diria que o primeiro e mais importante benefício da tecnologia estará relacionado com a diminuição dos problemas da fome no contexto atual de explosão demográfica. A população mundial está a crescer a um ritmo alucinante. Desde os anos 60 do século XX até agora a população no mundo mais do que duplicou e, embora se preveja que começará a crescer a um ritmo menos acelerado, prevê-se que vá duplicar também durante o século XXI. Vai ser preciso alimentar muito mais gente.

Não é excessivo afirmar que esta tecnologia pode resolver o problema da fome?

Não acho nada excessivo. Se bem usada, poderia salvar milhões de vidas. Não é novidade para ninguém que as regiões no mundo onde as pessoas têm mais fome são aquelas onde as condições para crescer colheitas vigorosas e de qualidade são piores. E nestes cenários a biotecnologia pode fazer ‘milagres’.

Mas então por que é que há tanta resistência em aceitá-las?

Quando se trata de saúde, de curar doenças, a Opinião Pública não se opõe à utilização da biotecnologia, mas na produção de alimentos atribui à biotecnologia um papel demoníaco. Entende este contrassenso?

Não, não entendo, porque não há nenhuma evidência científica de que um Organismo Geneticamente Modificado, mesmo os tradicionais OGM, tenha algum impacto negativo na saúde humana. Há décadas que se fazem insistentemente experiências para tentar revelar algum aspeto negativo dos transgénicos na saúde humana e não há um resultado credível que o indique. Alergias? São tantos os alimentos ditos naturais que provocam alergias… Cancros? Não há evidência alguma de que isso possa ser verdade. Efeitos ambientais nefastos? Se uma planta está muito melhor adaptada às condições adversas do meio onde se insere, é natural que se possa tornar predominante e isso poderá ameaçar a biodiversidade vegetal, mas esse cenário é evitável com regras de contenção e gerando transgénicos que não fertilizem outras plantas. 

Então é fácil evitar a perda da biodiversidade?

É. Em todo o caso, permita-me acrescentar que, como compensação, com as novas variedades criadas com a biotecnologia conseguimos gerar uma biodiversidade vegetal que antes não existia e  temos já bancos de várias variedades de feijão, trigo, milho e de outras culturas graças à biotecnologia. É-me por isso difícil de entender por que é que as pessoas têm tanto medo da biotecnologia na produção de alimentos, sobretudo quando esta ferramenta aplicada às plantas pode salvar tantas vidas humanas. É preciso não esquecer o facto de morrerem no mundo incomparavelmente mais pessoas de fome do que de qualquer doença. E acho paradoxal que as pessoas temam mais que se use a edição de genoma em plantas do que em humanos, quando as questões éticas que se podem levantar em humanos são muito mais sérias do que em plantas.

Como assim?

Qualquer tecnologia em si é neutra, não é boa nem é má, o uso que se faz dela é que pode ser muito perigoso. Em humanos, se nas mãos erradas, a edição de genoma poderia ser usada com fins eugénicos, de apuramento da raça, por exemplo, e isso sim, do ponto de vista ético seria muito inquietante. Em plantas não se colocam questões dessa natureza.

A edição do genoma e os OGM ainda são entendidos como sendo a mesma metodologia. São? O que os distingue?

Literalmente, um OGM é qualquer organismo que tenha sido manipulado pelo Homem para lhe modificar o genoma. Portanto, em rigor, tudo o que é edição de genoma é OGM, mas nem tudo o que é OGM é edição do genoma. As poucas variedades aprovadas – na Europa há só uma (milho) e nos Estados Unidos, Brasil e outros países há muitas, entre as quais milho, colza, soja e algodão – foram modificadas por engenharia genética tradicional (modificação não dirigida), ou seja, inseriu-se de forma mais ou menos aleatória uma sequência de DNA estranha à planta (e por isso é que a modificação é facilmente identificada). A edição do genoma das plantas, por exemplo por CRISPR, não a designamos OGM para a distinguir da tradicional engenharia genética, já que é feita de uma forma muito diferente. Como já tive oportunidade de explicar, é muito mais dirigida e pode implicar uma modificação mínima que consista apenas na substituição de uma letra na molécula de DNA sem deixar nenhum vestígio de que a planta foi modificada (e por isso é que é indetetável). Até por esta razão seria expectável que a Opinião Pública entendesse a edição do genoma como um processo quase natural e não como um bicho papão.

Em termos reais, científicos, a grande vantagem é poder fazer modificação genética de forma mais eficiente e ao mesmo tempo mais rápida, fácil e barata, sem introdução de material genético estranho à planta (que é o que acontece na tecnologia dos OGM). O facto de ser uma tecnologia menos dispendiosa entusiasma-me particularmente porque pode permitir retirar o poder absoluto às grandes multinacionais, democratizando a produção de plantas editadas no seu genoma.

Paula Duque dirige atualmente o grupo de Biologia Molecular de Plantas no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras. É licenciada em Biologia de plantas e doutorada em Fisiologia e Bioquímica pela Universidade de Lisboa. Estudou também na Alemanha (Colónia), na Nova Zelândia (Auckland) e, após o doutoramento, nos EUA (Nova Iorque), onde desenvolveu dois projetos de investigação na Rockefeller University e ensinou Biologia Molecular no Queens College. Publicou mais de 30 artigos científicos nas revistas internacionais mais prestigiadas do seu domínio de investigação. Tem ensinado em programas de pós-graduação na Europa e em África e é oradora regular em conferências em Portugal e no estrangeiro. É membro de diversos comités científicos e editoriais internacionais e da European Molecular Biology Organization (EMBO).

OGM | Mas qual é o problema em modificar um gene?

Créditos: Markus Spiske|Unsplash

Com tanta informação e contrainformação sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGM), como podem leigos na matéria, incluindo decisores políticos, saber o que é verdade e o que é mentira? Como distinguir a evidência científica da manipulação de opiniões?

A utilização da Biotecnologia para o melhoramento de culturas e alimentos continua a ser alvo de afirmações erradas. As consequências desse turbilhão de informações contraditórias assumem maior gravidade quando leigos na matéria têm o poder de tomar ou influenciar decisões políticas.

Neste podcast da Information Technology & Innovation Foundation (ITIF) , L. Val Giddings, investigador na ITIF e especialista em políticas relacionadas com inovação e Biotecnologia na agricultura e na biomedicina, fala sobre os temores infundados em relação aos Organismos Geneticamente Modificados (OGM).

Ouça aqui o podcast “The Dangerous Campaign Against Genetically Modified Foods, divulgado a 11 janeiro de 2021, no site da ITIF.

TALEN | Ferramenta usada em três novos produtos

As plantas de soja geneticamente editadas produzem grãos com um alto teor de ácido oleico e baixo teor de ácido linoléico.

As TALEN foram usadas com sucesso para produzir óleo de soja com mais ácido oleico e de alta qualidade, arroz resistente à ferrugem e batata para fritar com menos acrilamida, uma substância química considerada “provavelmente cancerígena” pela OMS.

A tecnologia de edição do genoma TALEN foi utilizada no desenvolvimento de três produtos inovadores: óleo de soja com alto teor de ácido oleico e de qualidade superior, disponível no mercado norte-americano desde 2019, arroz resistente à ferrugem e batata para fritar com teores reduzidos de acrilamida, uma substância química considerada “provavelmente cancerígena” pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o que levou a Comissão Europeia a criar, em abril de 2018, um novo regulamento que limita a presença de acrilamida nos alimentos.

TALEN (transcription activator-like effector nucleases ou, em português, nucleases que contêm efetores semelhantes a ativadores de transcrição) é uma combinação de proteínas composta por duas partes: o TALE, que direciona a proteína para uma sequência de DNA específica, e a nuclease (N), que corta o DNA. É uma ferramenta de edição de genomas ´semelhante’ ao CRISPR, em que basicamente as chamadas ‘tesouras’ moleculares são associadas a proteínas que se ligam ao DNA e, desse modo, dirigem a atividade de corte para locais específicos do genoma.

No caso da soja, as plantas geneticamente editadas (através da utilização das TALEN ou de outras ferramentas de edição de genomas) produzem grãos com um alto teor de ácido oleico (até 80%) e de baixo teor de ácido linoléico (menos de 4%).

Os Estados Unidos foram o primeiro País a comercializar um produto a partir de uma planta geneticamente modificada. O Calyno Premium Cooking Oil, da empresa Calyxt, está à venda no mercado norte-americano desde 2019.

Saiba mais sobre as aplicações das TALEN aqui.